O show do Arnaldo Antunes já teria valido a pena. O novo álbum do ex-titã e poeta, Novo Mundo, já teria sido suficiente para fazer a noite da última quarta ser maravilhosa. Arnaldo é um artista atípico. Inquieto, conseguiu captar em suas letras a sociedade do cansaço, do ódio, do grito, da violência que sai da relação indivíduo-tela e culmina no violento relacionamento que o indivíduo estabelece com si mesmo e com seus semelhantes. Tudo isso sempre perguntando por quê? Com poesia e leveza. Destaques para as belíssimas Novo mundo e Tanta pressa pra quê? Eu já estava eufórico com a performance magistral do Arnaldo que, entre lasers, anéis e macacões de borracha, como Dylan, passeia pela música e pela literatura. Aí, na saída do show, ainda encontrei o Beréu.
O bom desses rolês é encontrar, rever, reviver, lembrar pessoas. O Beréu foi meu bixo na Unesp de Araraquara, no curso de Letras nos idos anos 90. Muitas histórias, risos, choros, emoções. Depois, nos reencontramos nas inúmeras ‘estradas da vida’, como diriam os sertanejos. Lecionamos juntos em Araraquara, num colégio chamado Pablo Neruda e em Sertãozinho, no Pablo Picasso. A literatura de um apartada das artes plásticas do outro por pouco mais de cem quilômetros no interior de São Paulo. Daria para o Arnaldo fazer uma canção sobre o tema.
A melhor história do Beréu que, a propósito, se chama Gabriel (ele, não a história), eu deixo para a semana que vem. Vou fazer suspense. Mas, conto uma hoje, para não deixar os leitores decepcionados.
Em 2010, na nossa vida sertanezina do Pablo Picasso, o terceiro ano tentava arrecadar dinheiro para a formatura e, ajudados por pais e familiares, resolveram fazer uma noitada de pizza. Sinal batido, intervalo, correria escada a baixo rumo ao pátio e nós, professores, rumo ao café, o elixir. Carregados de livros, caixinhas de giz, cujo plural é gizes, caso alguém queira saber, fomos cercados por uns dez estudantes com carnezinhos de venda de pizza.
– Oh! Profe, ajuda nóis! Compra aê!
– Qual sabor vocês têm?
As clássicas, claro, nem sei por que perguntei.
– Muçarela, presunto e muçarela e calabresa.
– Me vê uma de presunto e muçarela.
– 20 reais.
– Pô, tá caro, hein. Toma!
– Valeu, Glaucão. E você, Beréu?
– Eu?
– É! Só vintão pra ajudar na formatura.
– Que sabor que tem?
– Muçarela, presunto e muçarela e calabresa.
– Me vê uma de calabresa!
– Aê! Valeu, Beréu!
Sem dificuldades literárias Rodrigueanas ou pedagógicas Freireanas, mas com sérios problemas para coordenar os livros, gizes e bolsa seguros, a duras penas, nas mãos professorais, Beréu atinge a carteira no bolso de trás da calça jeans e retira dela uma nota amarelada com a inscrição de vinte reais para alegria dos adolescentes.
– Valeu, Beréu! Aê!
Ainda na descida das escadas, ansiando pelo café, Beréu olha para mim e pergunta:
– Quando corre?
– O quê?
– Quando é o sorteio?
– Beréu, você comprou a pizza! Não é rifa. Você não vai concorrer a uma pizza de calabresa!
– Ah! Tá. Tinha achado meio caro mesmo.
Nem toda a poesia do Arnaldo Antunes seria capaz de captar a essência da leveza e a pureza do coração do Beréu! Ri, mas devia ter chorado!
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