Você já conheceu uma pessoa que dá a impressão de que sabe de tudo? De capim-gordura a Shakespeare a pessoa é perita e, supostamente, capaz de falar de Platão e da invasão israelense na Palestina? Pois bem, é bastante provável que esta pessoa seja semiformada.
O conceito é bastante extenso e profundo e foi cunhado por Theodor W. Adorno, originalmente, em 1959. No ensaio Teoria da Semiformação – Theorie der Halbbildung1, Adorno observa uma sociedade capitalista em que, devido à histórica separação entre proletariado e burguesia, necessitava de uma ‘integração’ à cultura para que, supostamente, o proletariado tivesse condições de acessar a cultura produzida e consumida pela burguesia. A indústria cultural2, outro conceito elaborado pelo pensador frankfurtiano, encarregava-se de ‘adaptar’ Beethoven, clássicos da literatura, da filosofia e qualquer outro bem cultural que achasse conveniente, para aqueles que não tinham condições cognitivas e intelectuais de acessá-los. Tornava a ‘cultura’ mais palatável. Obviamente, que os aspectos econômicos e mercadológicos eram a mola motivadora desse processo, pois, já então, segundo Adorno, não havia intenção de compartilhamento de bens culturais com todos.
Num olhar menos criterioso, é possível atribuir grande valoração à prática, afinal, ela tentaria, ainda que superficialmente, ‘formar’ culturalmente o proletariado. O curioso, entretanto, é que a semiformação, ou seja, a percepção mínima e superficial acerca de um tema, segundo Adorno, inibia seu aprofundamento, pois, o que interessava não era o aprendizado em si, mas mostrar que se sabia algo sobre ele e, mais do que isso, aceitava-se qualquer informação sem questioná-la.
Tal processo levou o pensador a duas importantes conclusões: a falha histórica da promessa de emancipação e autonomia do indivíduo que as revoluções burguesas prometeram e, como consequência da semiformação, uma aceitação da realidade tal qual ela é apresentada, sem questionamentos ou reflexões. Ou seja, um proletariado conformista.
No filme The Truman Show3, de Peter Weir, o protagonista vive, sem saber, em um grande estúdio de cinema. Todos a sua volta são atores e atrizes que representam personagens de familiares, amigos e conhecidos, fazendo com que sua vida aconteça seguindo um roteiro pré-estabelecido e, curiosamente, inquestionado por Truman. Sua vida toda é semiformada. No maravilhoso O livro dos abraços4, o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, narra a história de uma visita que fez a um quartel do exército. Lá, percebeu que um soldado ficava parado ao lado de um banco debaixo de um sol escaldante durante todo o dia. Curioso, Galeano pergunta a um superior a razão daquela atitude. O superior não sabe responder, o que motiva o escritor a iniciar uma investigação histórica sobre a prática. Alguns dias depois, Galeano descobre que, 30 anos atrás, alguém havia pintado o banco e por não haver placa para indicar ‘tinta fresca’, um soldado ficou de guarda no lugar para que ninguém ali se sentasse. A prática foi reproduzida e jamais questionada nos anos que sucederam. Alienação pura. Da mesma forma, um amigo conta a história de uma criança que pergunta à mãe o porquê de ela cortar a salsicha pela metade antes de fritá-la.
‘Não sei, filha, aprendi assim’
Curiosamente afetada pela idade, a menina corre para a avó e faz a mesma pergunta.
‘Também, não sei, menina. Sempre fiz assim.”
Do auge dos seus quase cem anos de vida, a bisavó, que, também morava na casa, grita de seu quarto.
‘Poxa, vocês ainda não compraram uma frigideira maior?’
Conformismo é assim e ponto. Falta de questionamento da realidade, superficialidade, inclompletude. Era o pensava Adorno quando da criação do conceito. E, sobre a atualidade deste, acho que não há muita necessidade de comprovação. Hoje em dia, os especialistas em tudo abundam pelo mundo. Todos formados na Universidade do Youtube e doutores naquilo que quiserem, no momento que quiserem. Halbbildung5 total, turbinada pela internet e com embalagem de século XXI.
- ADORNO, T. W. Teoria da Semiformação. In: PUCCI, B.; ZUIN, A. A. S.; LASTÓRIA, L. C. N. (orgs.) Teoria Crítica e Inconformismo: novas perspectivas de pesquisa. Campinas: Autores Associados, 2010.
- ADORNO, Theodor W. Indústria Cultural e Sociedade. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
- The Truman Show, USA, 1998. Comédia. Direção de Peter Weir.
- GALEANO, Eduardo. O Livro dos Abraços. Porto Alegre: L&PM, 2005. ISBN 978-85-254-1488-5.
🔔 FIQUE ON!
Quer se manter bem informado no maior portal de notícias do interior de São Paulo? Fique on com os nossos grupos, canais e redes sociais, acesse abaixo:
👷🏼 acidade on Empregos no WhatsApp
📢 Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre São Carlos e região por meio do WhatsApp do acidade on: (16) 99149-9787.