Minha mãe está vivinha. Aos 88 anos, fora as agruras do corpo, a bengala e a lerdeza adorável dos idosos, acorda cedo, toma café e banho e põe-se frente aos afazeres domésticos. Limitações dadas pelos anos ajoelhada no chão para encerar o assoalho das casas alugadas em que vivíamos, anda pela casa toda e só não sobe mais em escada, pois foi terminantemente proibida pelos filhos. De uma força sobrenatural, superou o machismo, as violências e carregou meus irmãos e eu nas costas nos momentos de mais dificuldade.
Todos os dias, passo por sua casa para tomar o ‘melhor café’ da cidade. Lembramos juntos dos dezesseis anos de Vila Prado e ela se lembra das casas na Rua Thomas Edson e Floriano, no tempo em que eu ainda não era nascido.

Mês passado, levei para ela um livro lançado pelo grupo de Literatura da Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI) da Fundação Educacional São Carlos (FESC) que, através de belíssimos textos dos alunos e alunas, narra um pouco da história dos mais de cem anos da Vila Prado.
A obra, lançada oficialmente, no mês de outubro, na quarta edição do Festival do Livro da FESC, é sublime. De uma sensibilidade ímpar, consegue mesclar história, pesquisa bibliográfica e literatura através de textos doces e reminiscências das letras, frases e palavras dos alunos e alunas do Grupo de Literatura.
Adilson Sanches Marques, professor, coordenador do projeto e organizador da obra é um entusiasta das letras. Originário das geografias, o professor se encantou pela escrita e já tem mais de sessenta livros publicados. Minha mãe leu grande parte deles quando se recolhe a seu quarto para as leituras noturnas, após assistir a todas as previsões do tempo de todos os canais na televisão. Dizem que o Pedro Caballero, chefe da Defesa Civil da cidade, anda se consultando com ela para saber se vai chover.

A obra, intitulada “Vila Prado – Entre Ruas e Memórias”, traz ainda fotos históricas da região e aponta brilhantemente para o leitor as diferenças sociais que a cidade de São Carlos construiu em sua história. Chamada de Vila dos Índios pela elite da cidade, a Vila era vista como moradia de pobres e pretos e caracterizada pejorativamente por aqueles que habitavam às margens da Catedral da cidade, dividida entre ricos e pobres pela linha férrea.
No evento de lançamento na FESC, na abertura do Festival, foi também apresentado o vídeo1 “Um passeio no bonde da história”. O emocionante trabalho, elaborado em conjunto pelos estudantes e o professor Adilson, carrega o inconfundível traço do artista João Marcos Akicecria e dá vida nas telas aos alunos, alunas e ao seu mestre. Todos se transformam em desenho animado e, conduzidos pelo “Pradinho”, personagem inspirado no educador José do Prado Martins, outro célebre vila pradense que carregava no sobrenome o seu amor pela Vila, passeiam pela cidade de São Carlos do passado, visitando salas de cinema, casarões, igrejas, praças e os famosos bondes. Em um trecho, deparam-se com uma criança travessa passando graxa nas linhas dos bondes para que esses não conseguissem tracionar e parassem. Seu nome? Nicola. Um menino peralta que, futuramente, viria a ter uma serraria e se dedicaria à escrita, tornando-se mais um ilustre filho adotivo da Vila Prado.

Minha mãe se orgulha de ter, de fato, nascido na Vila Prado. De parteira, filho. Não existia maternidade. Nasci no fim da Rua Dona Ana Prado. Muitos anos depois, Dona Egle voltaria a morar na mesma rua. Dessa vez casada e com três filhos pequenos. Passaríamos infância e adolescência lá e criaríamos vínculos e amizades que jamais esqueceríamos. Para a vida toda. A Vila Prado não sairia mais da gente e a obra dos alunos da UATI não sairia mais do lado da cama da minha mãe. Afinal, como diz outro vila pradense de coração, o professor Azuaite Martins de França, São Carlos faz parte do grande Reino da Vila Prado.