Só sei que faz tempo que o homem começou a produzir fala articulada. Se foi há 60 ou há 50 mil anos, a ciência não sabe exatamente. O que se sabe é que aprendemos a falar com aquilo que ouvimos. Assim, sem ter pais ou familiares para ouvir, o homem começou a reproduzir os sons que escutava dos animais, do vento, da chuva e de tudo o que o envolvia. Nessa época, quase na passagem do Período Paleolítico para o Neolítico, havia seis raças humanas na Terra, mas somente nós, o Homo Sapiens, sobreviveu. Passamos, então, da fala para a escrita.
Segundo o escritor Yuval Noah Harari, em seu best-seller ‘Sapiens’ – uma breve história da humanidade, a capacidade de produzir fala gerou a possibilidade de produção de cultura e, consequentemente, de compartilhamento de conhecimento. Ao considerarmos cultura como tudo o que transmitimos às novas gerações e que não é genético – hábitos, religião, culinária, arte etc -, geramos a chance de sobreviver sem ter de recomeçar do zero toda vez.
Desta forma, cada nova geração não precisou inventar a roda ou criar ferramentas e armas de caça. Esse compartilhamento, potencializado pelo fim do nomadismo e pela revolução agrícola pôde dar ao Homo Sapiens a chance de viver sem saber fazer tudo. Eu, por exemplo, não tenho a menor ideia de como construir um telefone celular ou subir paredes, mas alguém o faz por mim possibilitando que eu use o aparelho e viva em uma casa.
Assim, linguagem, produção de cultura e compartilhamento de conhecimento nos trouxeram até aqui, ironicamente, via seleção natural, tese essa identificada na literatura pelo naturalista inglês, Charles Darwin, após 30 anos de estudo, em sua publicação ‘On the Origin of species’1, em 1859. Até aí, a natureza nos ajudou, mas, o curioso é que atuando randomicamente por milhões de anos, a seleção natural produziu um ser capaz de alterar a própria evolução e aí a coisa pegou, pois aonde vamos daqui para frente depende de nós.
Se é fato que não adaptaremos nosso corpo ao ambiente com o crescimento de pelos, caso uma nova era glacial acometa o planeta, contrariamente ao que seria lógico, começamos a questionar a cultura e o conhecimento arduamente produzidos por nossos ancestrais. Frente aos últimos acontecimentos no mundo e à negação científica que atinge as sociedades, eu me pergunto se a seleção natural acertou ou errou, afinal já ouvi em algum lugar que a natureza nunca falha. Em caso de acerto, aqueles que mais se adaptarem ao meio colocando um casaco, caso esfrie, ou tomando uma vacina em épocas de pandemia, sobreviverão. Mas será que a randômica seleção natural ao produzir um ser capaz de questionar e negar a própria cultura poderá também nos levar à extinção?
Os movimentos de extrema-direita no mundo fazem exatamente isso. Questionam e renegam os dois pontos que mais nos tornam humanos: a ciência e a arte. Adeptos de teorias esdrúxulas que circulam pela internet, esses renegam o conhecimento científico com orgulho que gera vergonha alheia. Cada vídeo ou postagem é um episódio novo da série ‘The Office2‘. Sobre a arte, então, nem se fala. Me impressiono com o fato de como esses são incomodados por ela. Jeferson Tenório que o diga. Para o mal e para o bem. As vendas do Prêmio Jabuti, ‘O Avesso da Pele’3, aumentaram mais de 1.000% depois da censura que a obra sofreu em alguns Estados do país. Censura essa de quem provavelmente não leu o livro e, por deliberadamente, renegar a arte, torna-se marginal da própria cultura.
Moro em uma cidade universitária e o muro do principal cemitério do município já se tornou local de protestos, frases e micro contos de ilustres conhecidos e desconhecidos. Me lembro do ‘Essa é a parte que te cabe deste latifúndio’, que abria as janelas da obra do João Cabral para motoristas e transeuntes. Também me tocava o ‘Nem dormi’, micro conto que fazia jus à teoria do ‘Iceberg’4 do Hemingway. Viva o subtexto. Infelizmente, não demorou muito para que pinceladas amarelas nada vangoghianas apagassem todas as pichações. Raul Seixas, em Metrô linha 743 já avisava “fique aí, eu quero é saber o que você estava pensando” e nesse processo de censura de ideias e de arte, os caretas apagaram o pensamento que justifica toda esta crônica. No centro do muro velho e comprido lia-se a frase “De inimigo meu, basta eu”. Os homens da prefeitura mandaram apagar completando a instalação artística, comprovando a minha tese.
- On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. London: Murray. [1st ed.], 1859.
- The Office é um ‘mocumentário’ sitcom criado por Ricky Gervais e Stephen Merchant, primeiro feito no Reino Unido, depois na Alemanha e posteriormente nos Estados Unidos
- Obra ganhadora do Prêmio Jabuti, em 2019, o Avesso da Pele aborda questões relacionadas a preconceito racial, violência policial e falência escolar.
- Teoria literária que discorre sobre o fato do texto literário apresentar camadas e somente mostrar parte de si na superfície, deixando o essencial nas entrelinhas, debaixo d’água.