
Nesta sexta-feira (30) é celebrado o Dia do Jornaleiro, uma das profissões mais antigas e valiosas da história. Em São Carlos, uma das bancas mais antigas e conhecidas fica na praça do Mercado Municipal e está quase completando 30 anos de existência nas mãos do simpático e acolhedor Raul Guilherme Leal.
A história começou em março de 1993, quando o pai de Raul passeava pela região central e avistou o que seria uma das bancas mais antigas da cidade. Pensando no filho, que na época tinha 20 anos, o recém-aposentado decidiu investir no mundo dos jornaleiros e assumir o negócio, passado para o filho pouco tempo depois.
E quando está no sangue, não tem como contrariar. Isso o jornaleiro também teve a prova recentemente, desvendado os “segredos de família”. Ele até chegou a cogitar seguir outra profissão, mas viu que seu lugar era em meio aos jornais, revistas, pôsteres e todo o universo das bancas.
“Sem querer, esses dias descobri que meu avô, lá em Portugal, já teve uma banca também lá. Já está na história, era para ser jornaleiro mesmo. Eu gostava dessa coisa de revista, eu sei que perto da minha casa, quando eu era criança, tinha uma banca e eu ia lá todo dia”, disse.
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Período de transição
Raul conta que no início a banca tinha movimento o dia inteiro, impulsionado pela venda de muitos jornais e revistas. “Eu trabalhava de segunda a segunda. A turma comprava muito jornal de classificados para saber onde o que estava vendendo, onde estava vendendo”, comentou.
Com o tempo passando e muitas bancas fechando, Raul precisou pensar em estratégias – recargas, venda de chips, bingos e sorteios, por exemplo – para se reinventar e manter o negócio, que continua sendo sua principal fonte de renda.
“Acho que eu sou o jornaleiro mais antigo na cidade. Meu ponto é muito bom, a gente consegue ter um fluxo de gente que ainda compra a revista. Mas é assustador o que caiu, não abro mais aos domingos por causa da queda, mas ainda tenho esperança”, disse.
De quatro em quatro anos
Raul conta que o momento tão esperado por muitos de seus clientes chega de quatro em quatro anos: as figurinhas da Copa do Mundo, que movimentam principalmente as bancas, trazendo aquele ar de nostalgia, felicidade e até mesmo conhecimento.
“Vem criança aqui que acho que nunca entrou numa banca, e a mãe faz questão de trazer. Figurinhas até vendem em outros lugares, mas o pessoal gosta mais de comprar em banca, mantém aquela chama acesa”, contou o jornaleiro.
Para ele, esse é um incentivo valioso porque muitos que ainda não conheciam o local passam a vê-lo como ponto de descontração. “É um lugar legal, em que as pessoas conversam, é um ponto de encontro. Tem pessoas que vem comprar um negocinho e ficam meia hora, uma hora conversando, viram amigos”, disse.
E não tem jeito. Mesmo em um período dominado pela tecnologia e pela rapidez de informações, o ser humano precisa de uma pausa, de sorrir para uma pessoa na rua, conversar com um jornaleiro. Ou no Raul, no caso, que no seu cantinho de trabalho, fazendo o que gosta, conquistou seus clientes e muitos amigos.
“Em 30 anos já vi muita coisa, Até brinco que acho que eu sou uma das pessoas mais públicas da cidade, porque eu estou na curva, na esquina e aberto, todo mundo passa e mexe comigo. A gente conversa, cria amigos”, comentou.
Para Raul, mesmo com tantas dificuldades, o sorriso no rosto de seus clientes é a garantia de um trabalho bem feito e prazeroso. “As pessoas reconhecem o trabalho, eu vejo que reconhece porque o pessoal volta, a pessoa gosta de vir aqui e ser bem atendido. Isso para mim já vale muito a pena”, completou.

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