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Médico faz projeção de quantos casos de Covid-19 São Carlos terá

Professor da UFSCar e infectologista, Bernardino Alves Souto fez os cálculos para daqui 75 dias, levando em conta o pior cenário; confira

| ACidadeON/São Carlos

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O tema "coronavírus" é urgente e os conteúdos já se empilham aos montes pelas prateleiras virtuais dos portais de busca e redes sociais. Contudo, as dúvidas sobre a atual pandemia e suas consequências para o Brasil continuam aumentando. O professor do curso de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Bernardino Alves Souto explica como deve ser o impacto do Covid-19 no país e em São Carlos.  

Bernardino é infectologista, trabalha há 32 anos na área e é também o presidente do Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus em São Carlos. Em entrevista à Rádio CBN São Carlos, ele diz que a população não precisa se alarmar, mas sim ter consciência do problema.  

"Alarme não, mas prudência. A incidência da doença não é alta, a expectativa é de que 0,2% da população vá adoecer com o coronavírus, mas como é uma doença que pode afetar um número muito grande de pessoas em um intervalo muito curto de tempo, ela sobrecarrega muito o serviço de saúde. E o serviço de saúde sobrecarregado não consegue cuidar do coronavírus e nem das outras coisas, o que traz uma série de problemas", explicou.  

Características  
 

Professor Bernardio Alves Souto - Foto: divulgação/redes sociais

De acordo com o professor, a doença causada pela infecção do novo coronavírus, a Covid-19, é semelhante a uma gripo comum. A diferença, além da alta velocidade de contágio, é o quadro agravado. Na Covid-19, o paciente que apresenta evolução da doença pode sofrer com uma falta de ar aguda e repentina.  

Assim, o enfermo precisa de cuidados intensivos e, em casos ainda mais graves, é necessário uso de aparelhos respiradores. Tanto as alas de UTI disponíveis em São Carlos como a quantidade de respiradores não darão conta de atender muitos pacientes ao mesmo tempo. Essa falta de estrutura é o que causa números altos de óbitos.  

"Outros coronavírus já circularam no mundo, com mortalidade mais alta que esse. O coronavírus que fez a síndrome respiratória do oriente médio tinha uma mortalidade de 34%. Esse coronavírus que está circulando hoje tem uma mortalidade de 4%. Ele não é um problema de grande monta, ele é um problema quando se espalha rápido e afeta pessoas que já tem outros problemas, como doenças crônicas", ressalta Bernardino.  

Exatamente por isso, os idosos compõem o maior grupo de risco. Já que o organismo, debilitado pela idade, pode não aguentar a demanda que o corpo terá para se curar da infecção por coronavírus. Assim, os idosos precisam de cuidados intensivos, mas não só eles.  

Pessoas jovens e crianças também podem apresentar evolução da doença, ainda que em uma quantidade bastante menor. O problema se agrava em hipertensos, diabéticos e portadores de doenças pulmonares ou que fazem tratamento contra câncer.  

Estimativa   

São Carlos tem hoje, segundo IBGE, mais de 250 mil habitantes - Foto: Divulgação/Prefeitura


Apesar dos números de infectados e morto pelo mundo assustarem, a porcentagem de pessoas que não precisarão de qualquer atendimento médico pode ser maior do que 85%. Bernardino, inclusive, já calculou prováveis números para São Carlos.  

"Eu fiz um cálculo de projeção para São Carlos. Se a gente não fizer nada, provavelmente, nós teremos, no pior cenário, daqui a 75 dias, 283 doentes, 48 internados e 17 mortos", demonstrou.  

O número faz previsão para daqui pouco mais de dois meses e prevê 17 mortes em São Carlos. Os dados são baseados nas projeções de outros países, mas podem ser melhores se as medidas de segurança foram tomadas e aceitas por todos.  

"Se a gente quiser colaborar com o resto do país e evitar as potenciais 17 mortes, temos que tomar medidas radicais. Fechar comercia o inteiro, funcionar só serviços essenciais. Isso vai depender de qual peso vamos dar para o risco e para o benefício de fazer tudo isso. Se não fizermos nada, vamos ter problemas que poderiam ser evitados na cidade".  

Puxão de orelha  

O infectologista também refletiu sobre o ãmbito político do país. Para ele, o surto de coronavírus pode ser representado como a cobrança de anos sem priorizar investimentos nas áreas da saúde e educação.  

"O sistema de saúde nunca foi priorizado em governo nenhum deste mundo, e hoje esse coronavírus está cobrando essa conta. Se eu já tenho um plano de sucateamento econômico e social do país, o coronavírus vai me ajudar a justificar isso para que eu não assuma a responsabilidade por ter feito essa escolha política para o país. E isso é no mundo inteiro.  

Nunca falta bomba e metralhadora nas trincheiras de um país em guerra, mas sempre falta hospital e recurso para cuidar de um país com epidemia. A humanidade está precisando fazer uma escolha, porque nós sempre fizemos uma escolha para privilegiar as coisas e o dinheiro em detrimento das pessoas, em detrimento da saúde e da educação. A conta está sendo cobrada", finalizou Bernardino Alves souto. 

Confira a entrevista completa para a CBN São Carlos.


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