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Cotidiano

Não tão heróis: Coronel Leopoldo Prado e Major José Ignácio estiveram envolvidos na perseguição de italianos em São Carlos

Formada por imigrantes da Itália, 'Quadrilha Mangano' aterrorizou município no fim do século XIX

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Único registro fotográfico da Quadrilha Mangano. Francisco aparece sentado, abaixo do homem marcado com o número 19.


Assim como tantas outras ruas da cidade de São Carlos, a Major José Inácio, no Centro, e a Coronel Leopoldo Prado, na Vila Prado, se tornaram parte integrante do dia a dia da população. Além disso, a Vila Prado, que leva o nome da família, e o Colégio La Salle, que funciona no antigo casarão pertencente ao próprio major, também estão presentes na memória e no cotidiano de um grande número de moradores.

Tidos como heróis por alguns e desconhecidos por outros (a não ser pelo nome), essas mesmas duas figuras estiveram envolvidas negativamente em um episódio frequentemente esquecido na transição dos séculos XIX e XX. É o que sugere o pesquisador e professor aposentado da UFSCar, Álvaro Rizzoli, que há mais de 20 anos estuda a atuação de uma suposta quadrilha de italianos em São Carlos: a Gangue Mangano. O professor também pretende lançar um livro, fruto da extensa pesquisa, em que discute a importância e a modificação histórica na participação dessas personalidades no episódio.

Imigrantes
Assim como outras cidades do Estado de São Paulo, São Carlos viu um grande e acelerado aumento na população de italianos nos anos 1890. Com o fim da escravidão, foi dado incentivo à vinda de imigrantes para trabalho nas lavouras de café. Por conta do aumento da população, o pequeno espaço urbano, quase sem infraestrutura, começou a se desenvolver. Surgiram quatro novos loteamentos – onde hoje estão a Vila Nery, Vila Pureza, Vila Isabel e Vila Prado – nos quais residiam os estrangeiros, distantes do Centro, onde ficava a elite.

O receio das elites diante dos imigrantes aumentou em razão do aumento de crimes no país, embora não se possa afirmar que sejam decorrentes da chegada dos estrangeiros. Os fazendeiros estavam preocupados com a ameaça que os novos trabalhadores podiam impor. Para isso, a Polícia era utilizada como forma de controlar as camadas mais baixas da sociedade.

Embora nomeados pelos presidentes das províncias, os delegados quase sempre eram escolhidos pela própria elite local. “Desde que garantissem o apoio ao governo nas eleições, os delegados e outras autoridades locais eram livres para desconsiderar a lei nos seus esforços para promover os interesses da sua facção local”, explica um estudo realizado pelo sociólogo e professor Karl Monsma.

Segundo a socióloga da UFSCar Héllen Aparecida Furlas, “as relações entre a polícia [de São Carlos] e os populares, em muitos casos, era tensa. De um lado, a imagem da polícia era das piores entre a população das cidades; de outro, os mesmos policiais e as elites consolidavam entre si a noção de que os brasileiros pobres e os imigrantes eram um perigo a ser combatido ou, ao menos, controlado”.

Os italianos eram desconhecidos para as autoridades locais, sendo muitos deles homens jovens e solteiros – justamente a categoria que mais se envolve em confusões e brigas. Em contraste com os imigrantes portugueses, que iam embora após terminar o trabalho, os italianos acabavam ficando nos locais para os quais se mudavam para realizar determinado serviço.

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Imigrantes italianos na chegada a São Paulo

Polícia
Os delegados se preocupavam em manter a autoridade junto à população. “Vários estudos mostram que o uso indevido da violência pela polícia tipicamente ocorre quando policiais se sentem desacatados ou desafiados“, explicou Monsma.

A partir da década de 1880, os delegados do interior descreviam os italianos de maneira bastante negativa e, muitas vezes, hostil. Entre todos os estrangeiros que vieram à São Carlos, os italianos eram os mais bem armados, principalmente com armas de fogo. Outro fator que agravou a situação foi o fato de que os italianos tinham uma tendência maior do que os portugueses para uma ação coletiva em confronto com as autoridades brasileiras. Dessa forma, o clima de tensão foi se atenuando entre os dois grupos: os italianos de um lado e as elites e polícia do outro.

“Os delegados e a Força Pública, bem mais que outros moradores das cidades, precisavam enfrentar italianos em situações de conflito, e tudo sugere que seus preconceitos contra italianos eram mais fortes que os do resto da população em consequência disso. Na visão dos delegados, o rápido crescimento do número de estrangeiros nas cidades e vilas, sobretudo de italianos, resultava em muitos distúrbios e sobrecarregava a polícia. A solidariedade dos italianos também dificultava o trabalho policial. Eles eram acusados de proteger criminosos e sonegar informações à polícia. Parece que as formas de ação coletiva de italianos que mais desmoralizavam a polícia eram resgates de presos e ataques às cadeias, ou para liberar presos ou para linchá-los.”, falou Monsma.

Dia do Barulho
De acordo com Rizzoli, a tensão entre os dois grupos chegou ao limite no dia 1º de janeiro de 1894. A cidade presenciou uma batalha aberta na Avenida São Carlos entre italianos (que atiravam de dentro das casas) e a Guarda Nacional. O tumulto teve início após a Guarda, que estava participando da inauguração da Santa Casa, tentar dispersar uma multidão de italianos que vaiava os policiais no Largo de Santa Cruz, centro comercial dos imigrantes na cidade.

Durante o tiroteio, um italiano foi baleado e morreu. Em depoimento, quase todos os brasileiros que participaram do inquérito estavam convencidos de que o italiano havia sido baleado por um compatriota. Em contrapartida, as testemunhas italianas disseram que o autor do tiro fatal havia sido um oficial da Guarda. “Há indícios de que o próprio delegado da Guarda Nacional, Gaspar Berrance, tenha sido responsável pela morte. O italiano acusado de cometer o homicídio era manco, tinha dificuldades de locomoção. Mesmo assim, afirmaram que ele conseguiu fugir a pé. É contraditório”, conta Rizzoli.

Depois do incidente, os líderes da colônia italiana percorreram as ruas da cidade chamando os compatriotas para se unir à causa. Cerca de duzentos homens se dirigiram até a estação ferroviária, exigindo do chefe local o envio de um telegrama ao cônsul italiano em São Paulo. Na mensagem, os italianos relatavam o episódio e abusos contra a população de imigrantes.

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Lista de crimes atribuídos ao Bando Mangano no século XIX (Fonte: Monsma, Truzzi e Conceição)


Quadrilha Mangano

Na véspera de Natal do ano seguinte, em 1895, Major José Ignácio de Camargo Penteado, fazendeiro de São Carlos, teria recebido uma carta em italiano ameaçando incendiar sua fazenda ou assassiná-lo caso não fossem deixados 30 contos de réis no pontilhão da estrada de ferro na noite de Natal. O aviso foi desconsiderado pelo major e, no dia 25 de dezembro, o depósito de aguardente e outras instalações da fazenda foram incendiadas, resultando em um prejuízo de cerca de 35 contos de réis. Esse seria o marco inicial da atuação de uma quadrilha de italianos que se tornaria conhecida em todo o estado: A Quadrilha Mangano.

O professor Álvaro Rizzoli, no entanto, discorda de que o grupo tenha sido responsável pelo ataque. “É algo estranho, porque a Gangue Mangano foi tida como autora do ataque, mas foram inocentados desse episódio após julgamento. Na verdade, existem relatos de que um imigrante português havia ameaçado queimar a casa do major algum tempo antes, após um desentendimento. A própria carta, que teria sido supostamente escrita pela quadrilha, só foi anexada ao processo três anos depois, e o major nunca se pronunciou judicialmente. Talvez o episódio só tenha sido atribuído à quadrilha depois de já existir um esforço para prendê-los. O motivo que levou o major a querer incriminá-los era o mesmo da maioria das elites contra os italianos: medo de perder o controle e poder”, pontuou.
 

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Carta teria sido escrita por quadrilha em ameça ao Major José Ignácio


Nos próximos três anos, impulsionada pela pobreza e pela epidemia de febre amarela que assolou o País – reduzindo também o efetivo da Guarda Nacional – a gangue de italianos cometeria diversos crimes no município e região. Entre as atividades da quadrilha estavam incêndios, roubos, assaltos, agressões e tiroteios. O Bando Mangano, como ficou conhecido, era supostamente liderado por Francisco Mangano, um comerciante italiano residente de Vila Isabel.

Rizzoli, no entanto, acredita que os crimes não foram praticados sob o comando unificado de uma quadrilha ou gangue. “Houve incidentes, sim, mas não há como afirmar que são interligados. Alguns desses italianos vieram da mesma região, a Calábria, bem conhecida pelo banditismo no século XIX. Alguns já se conheciam de lá, já estiveram presos juntos, mas não é possível afirmar com certeza de que havia sequer uma gangue ou quadrilha. Houve crimes, mas acredito que foram incidentes isolados que acabaram sendo aglomerados como parte de um bando para dar peso às denúncias contra os italianos”, explicou o professor.

Em novembro de 1897, o roubo e a tentativa de latrocínio contra o fazendeiro Joaquim Botelho de Abreu Sampaio sensibilizaram as elites locais. Na ocasião, Joaquim foi baleado e, ao ser considerado morto pelos bandidos, deixado na beira da estrada. O delegado em exercício, Coronel Leopoldo Prado, que também era fazendeiro, não poupou esforços para capturar os criminosos. “O delegado de São Carlos prendeu todos os italianos que estavam na fila do banco aguardando para depositar dinheiro, supondo, de maneira grosseira, que qualquer italiano com dinheiro seria suspeito. Logo depois teve de soltá-los por falta de provas”, esclareceu um estudo dos autores Karl Monsma, Oswaldo Truzzi e Silvano da Conceição.

Durante a investigação, diversos italianos seriam presos, espancados e, segundo diversas pesquisas, até mesmo torturados de forma a arrancar uma confissão, o que não funcionou em um primeiro momento. O sentimento de ódio dos italianos por Leopoldo Prado, afiliado político e amigo pessoal de Major José Inácio, cresceu a ponto de que muitos dos imigrantes o ameaçaram de morte após serem vítimas de sua violência.

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O delegado Gaspar Berrance


Prisão e desmantelamento da quadrilha

Após o assalto a Joaquim Botelho, o italiano Antonio Farina teria escrito uma carta anônima na qual denunciava vários participantes no crime, que foram presos e liberados por falta de provas. Após um roubo à casa comercial de dois turcos em fevereiro de 1898, Farina voltou a denunciar envolvidos, apesar de possivelmente ter participado da ação. “Prometeram ao Farina que o mandariam de volta para a Itália, que era a maior vontade de grande parte dos imigrantes: voltar ao país deles. Dez anos depois, Farina retornou ao Brasil e acabou preso por receptação de bens roubados. É provável que ele tenha denunciado outros integrantes da quadrilha sob pressão do coronel, até mesmo sob tortura”, falou Rizzo.

Alguns dos envolvidos foram presos e outros nunca mais foram encontrados. O inquérito, um dos maiores e mais importantes para a época e a cidade, se estendeu por vários meses. A denúncia final só foi apresentada em outubro por conta da epidemia de febre amarela. A cadeia de São Carlos se tornou um foco de infecção, levando à morte alguns dos acusados. Outros acabaram sendo transferidos até que o julgamento ocorresse. Em meio ao inquérito, o próprio delegado Gaspar Berrance contraiu a doença e foi obrigado a suspender suas atividades.

Após ser reestabelecido, Berrance, que interrogava os presos, escreveu ao chefe de polícia que a quadrilha estava ramificada por todo o estado e que ele próprio estava ameaçado de morte. Rizzoli afirma que a história vai um pouco além do que os livros de história registraram. “Ele mantinha todos os presos juntos, e ficava intercalando, chamando a cada hora um homem diferente para ser interrogado. O rapaz ficava horas dentro de uma cela apertada, e era chamado pra depor. Em seguida, outro era chamado, e assim por diante. Quando terminava de interrogar a todos, Berrance pedia para chamá-los novamente, um a um, e pedia para que refizessem seu depoimento diversas vezes. Somada à violência física e às condições carcerárias, aos poucos os imigrantes mudavam suas versões nos depoimentos, provavelmente coagidos pelas autoridades. Até que, certo dia, apontaram Francisco Mangano como sendo o líder da quadrilha. Até esse momento, não havia nenhum indício de que os italianos agiam de forma coordenada, sob o comando de um só líder, como uma organização”, comentou.

Depois do primeiro depoimento, provavelmente motivados pela promessa de liberdade ou aliviamento da pena, muitos outros presos envolvidos no caso passaram a denunciar crimes, contar novas versões e até mesmo citar histórias nunca mencionadas anteriormente ou posteriormente. Os integrantes passaram a acusar uns aos outros e minimizar a própria participação. Além disso, a violência do delegado Berrance era convincente o bastante para minar a solidariedade do grupo.

Em julho de 1898, com o restabelecimento do delegado e a divulgação das conclusões do inquérito, São Carlos entrou em clima de celebração pública, destacando o heroísmo das autoridades. O jornal ‘A Opinião’ publicou vários artigos elogiando o delegado Berrance incluindo um escrito em italiano. Houve um ato público de reconhecimento a Berrance pelos serviços prestados à comunidade são-carlense e uma nova composição, em homenagem ao delegado, foi apresentada no Theatro São Carlos.

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Álvaro Rizzoli pesquisa o tema há mais de 20 anos


Desdobramentos

Ao todo, 23 membros da chamada Quadrilha Mangano foram julgados e condenados à prisão. Apontado como líder da organização, Francisco Mangano foi enviado para um presídio em São Paulo com uma fratura na mandíbula por conta dos maus tratos sofridos nas mãos das autoridades. Depois disso, não há mais registros de sua vida. Acredita-se que o homem tenha morrido durante o tempo em que estava preso, uma vez que 70% da população carcerária da época acabava morrendo dentro da prisão.

A família de Mangano também seria vítima de terríveis acontecimentos: sua filha foi estuprada, seu filho acabou preso após esfaquear um rapaz e sua mulher fugiu. Rizzoli acredita que a família tenha se mudado da cidade e de nome. “Mesmo com 20 anos de pesquisa sobre o tema, nunca consegui encontrar um descendente dos Mangano que tivesse conhecimento sobre a história ou tivesse qualquer ligação com Francisco”, comentou.

Gaspar Berrance, tido como o responsável pela prisão do bando, acabou se desentendendo com Leopoldo Prado. A casa de Berrance foi alvo de uma explosão com dinamites, o que também acabou sendo atribuído aos italianos. No entanto, estudos indicam que a ação tenha partido do padrinho político de Leopoldo Prado, Major José Ignácio, por conta do conflito entre Berrance e Prado. Gaspar Berrance, que em determinado momento recebeu homenagens e até teve seu nome dado a uma rua da cidade, acabou sendo expulso do município e sua memória, aos poucos, foi apagada no âmbito coletivo popular.

Major José Ignácio faleceu sem herdeiros ou descendentes. Seu nome e muitas das propriedades que possuía na cidade permanecem vivas até o presente, assim como é o caso do Coronel Leopoldo Prado. As ruas, com os nomes de ambos os personagens, permanecem até hoje como importantes vias para os moradores da cidade. Já os nomes de Gaspar Berrance e Francisco Mangano foram completamente apagados da memória popular.

Em um simples exercício, é possível notar como a história, em um velho jargão, “é escrita pelos vencedores”. Basta questionar um são-carlense sobre a familiaridade com nomes como Leopoldo Prado e Major José Ignácio. Em seguida, questione-o a respeito de Gaspar Berrance e Francisco Mangano.*


 

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Relatório feito pelo delegado Gaspar Berrance sobre a atuação da quadrilha

 

*Assim como o pesquisador, a reportagem do ACidadeON/São Carlos tentou encontrar descendentes e familiares de Gaspar Berrance e Francisco Mangano que pudessem comentar o tema e a história. Não houve sucesso em tais tentativas.

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