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Economia

Diretor do Fórum Econômico Mundial defende remuneração por dado pessoal

Confira a entrevista realizada pela Folha com o engenheiro industrial Murat Sönme.

| FOLHAPRESS



O engenheiro industrial Murat Sönmez, membro da direção do Fórum Econômico Mundial, comanda, de San Francisco, nos Estados Unidos, uma iniciativa que reúne governos, setor privado e organizações para debater diretrizes de governança globais para áreas cinzentas nas regulações nacionais, como inteligência artificial e veículos autônomos.  

Chamada de Centro para a Quarta Revolução Industrial, a divisão reúne grandes conglomerados e estatais, como a indiana Reliance Industries e a saudita Aramco, e uma série de empresas de tecnologia com interesse notório na discussão, como Amazon, Uber, Huawei e Palantir.  Em entrevista à Folha de S.Paulo na quarta-feira (6), Sönmez defendeu um sistema de recompensa pelo uso de dado pessoal, cooperação global para transação de dados genéticos e disse que gostaria de incluir o Brasil na rota da iniciativa —há bases na China, no Japão e na Índia.  

Folha - Qual a estratégia do Fórum com governos e que discussões vocês pretendem criar?  

Murat - Se olharmos para a saúde, por exemplo, com tecnologias como aprendizado de máquina e uma boa conectividade, podemos entregar serviços melhores à maioria da população, de forma uniforme. Mas para isso, seria preciso acesso a dados genéticos e a registros médicos e hospitalares. Se você coloca tudo junto e usa algoritmos de aprendizado de máquina, consegue acelerar a prestação de serviço. A pergunta é: quem é o dono dos dados nesse contexto? As leis de proteção são feitas, primeiramente, para proteger a privacidade dos indivíduos, que precisam dar consentimento. Mas o mesmo dado pode ser usado para múltiplos propósitos. Eu estaria disposto a dar meu dado genético para pesquisas de câncer, por exemplo, mas quero ter certeza de que será usado só para esse propósito e nada mais. Se for usado para descobrir um novo medicamento comercial, quero ser questionado e, caso aceite, recompensado.  

Folha - O pagamento pelo uso de dados é discutido na teoria, mas como ocorreria na prática?  

Murat - Para ciência, estou de acordo em fornecê-lo de graça. Precisamos mudar de mentalidade e partir para regulações baseadas com foco na finalidade do dado pessoal. Aí podemos combinar dados para reduzir o congestionamento, o consumo de energia... O papel do governo é a oportunidade, não é olhar para o retrovisor e penalizar. Não apenas multar quem violou a lei de proteção, mas olhar para o futuro e enxergar a possibilidade dessa tecnologia, criar um novo tipo de estrutura de regulamentação.  

Folha - O senhor é contrário às leis de proteção de dados da União Europeia e do Brasil?  

Murat - Não é questão de ser contra ou não, é de pensar se é o melhor meio de pensar e usar as novas tecnologias. 

Folha - Mas é possível proteger a privacidade um dado e também permitir seu uso à pesquisa?  

Murat - Se uma empresa quiser usar seu dado genético precisará do consentimento. Uma multinacional que tem dados do mundo todo entra no desafio de que cada país tem uma legislação própria. As grandes companhias dão um jeito, mas uma startup não consegue. São estruturas do século 20 para o século 21. A intenção do GDPR [regulamento de proteção de dados da União Europeia], que tem base em leis dos anos 1980 e reações modernas às redes sociais, é claramente boa, mas não olha para a frente. Olha, principalmente, para a privacidade do indivíduo, mas não é eficiente, e você pode ter os dois.  

Folha - O que o senhor considera olhar para a frente?  

Murat - Estamos fazendo isso no Japão e na Índia. O foco do questionamento é: para que esse dado é útil? Imagine pegar um dado genético seu, pessoal, e marcá-lo para que seja usado à pesquisa da cura do câncer; se, eventualmente, uma companhia querer usá-lo para um propósito comercial, você será notificado e poderá decidir se consente e se quer receber por isso. Pode dizer "por seis meses", por exemplo. Com contratos inteligentes e blockchain [tecnologia de registro distribuída que dificulta fraudes], há uma grande oportunidade. O contrato andaria junto ao dado, que ficaria disponível apenas a partes relevantes e não seria usado a outros fins.  

Folha - Seria preciso precificar o dado. Como?  

Murat - Poderia usar mecanismos de mercado como o das commodities [matérias-primas] e criar um mercado baseado em propósitos específicos. Para criar referência, usaríamos um token [semelhante a uma criptomoeda] nacional baseado em blockchain. O governo poderia dar um token para seu dado e, em vez de trocar dados, trocaria tokens, e o Ministério da Economia poderia tributar. Nossos dados estão na mão de dez companhias no mundo, que têm valor de centenas de milhões dólares e que monetizam esse dado.  

Folha - Você transforma o dado pessoal em commodity. Quem regula o equilíbrio?  

Murat - Isso é importante porque pessoas pobres estariam dispostas a dar seu dado por muito menos do que pessoas que não precisam do dinheiro. O governo poderia determinar um preço mínimo e esse dado não poderia ser vendido por menos que isso, por exemplo.  

Folha - Pretende trazer essa discussão ao Brasil?  

Murat - Claro, é por isso que estou aqui. 

Folha - O país acabou de aprovar uma lei de proteção de dados, é um marco importante?  

Murat - Eu sei, e vocês precisam fazer isso porque precisam endereçar as preocupações com privacidade de hoje. Estamos informando a comunidade brasileira, acho que é uma forma de olhar para frente. Se um país quer usar inteligência artificial, precisa de conjuntos de dados, e se não usa inteligência artificial, fica para trás. É preciso dar eficiência, também, à proteção de dados. Vários sites do governo não são 100% seguros e eventualmente os dados ficam expostos, aconteceu com o governo de São Paulo há poucos dias... Não é só o seu governo. Todos têm problemas com isso. Com blockchain, podemos prover a proteção. É preciso superar esse pensamento de incrementar aos enquadramentos e regulações passadas, especialmente nos países com governos eleitos em regimes democráticos. Eles não têm tempo para pensar nessa inovação porque ficam presos para lidar com as crises. Por isso queremos essa rede global de cooperação. Os governos podem se beneficiar disso e vamos adorar criar um centro aqui no Brasil. Hoje, literalmente, assinamos acordo com Arábia Saudita.  

Folha - O que o Japão está aprendendo com o desenvolvimento dessa ideia?  

Murat - Quatro milhões de pessoas têm problema de demência lá. Em até 20 anos, isso pode dobrar, então 4% da população terá demência. Em 2050, 40% terá mais de 65 anos. Para tentar curar a demência, é preciso olhar para dados de saúde, de genética, de estilo de vida, de moradia. Se fosse possível cruzar dados clínicos e usar algoritmos de aprendizado de máquina, talvez conseguíssemos acelerar a cura para esses problemas. Estamos criando a primeira estrutura para esse sistema, trabalhando com múltiplos ministérios, academia e companhias para um modelo regulatório interessante. Se funcionar, podemos tentar convergir para isso.  

Folha - Ao justificar o desemprego causado pela automação, fala-se muito nas novas opções de profissões que surgem. Que política o senhor sugere para realocar o trabalhador substituído?  

Murat - Na Ruanda, muitas mulheres estavam morrendo ao dar à luz e não era possível estocar sangue suficiente de diferentes tipos, então começaram a testar o uso de drone para entrega em áreas montanhosas que não contavam com estradas de acesso. Foi criada uma central com sangue resfriado e as pessoas recebiam SMS quando havia demanda. Em 45 minutos, o sangue era entregue por drone. Não precisou de eletricidade, de infraestrutura. No entanto, não foi possível escalar por causa da regulação, que era espelhada na do avião, no modelo do século 20. Criamos uma regulação olhando para a frente, que levou cinco meses, e a Ruanda se tornou a primeira nação com uma ampla regulação para drones. Técnicos, operadores e reparadores desse sistema eram todos locais. Não precisaram de um diploma para isso, e quem ajudou no processo foi o governo.

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