Bebida gratuita na Tusca desde os anos 1990, 'Caju' tem ingredientes como saliva e grama

Recipientes são trocados pela opção de beber o líquido a partir do corpo de outros estudantes que mergulharam na bebida

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    • Orlando Duarte Neto
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Caju é servido gratuitamente em São Carlos desde 1990

 

A maioria das pessoas que já participou de uma edição da Taça Universitária de São Carlos (Tusca) provavelmente já deve ter se deparado com a seguinte cena: um grupo de universitários com uma camiseta amarela e o logo de um grupo (GAP) preparando uma espécie de batida alcoólica dentro de um container imenso. Para misturar o suco concentrado de caju à cachaça, no entanto, não são utilizados os meios comuns, como utensílios domésticos.

VEJA FOTOS DO PREPARO E DA BEBIDA

Na maioria das vezes, homens e mulheres são colocados para nadar e mergulhar na bebida até que o líquido esteja uniforme. O preparo não acaba por aí. Para finalizar – e tornar a mistura no que ficou conhecido como ‘Caju’ – são acrescentados os “temperos”, que vão de grama e terra a saliva e pedras. Para finalizar, os recipientes frequentemente são trocados pela opção de beber o líquido diretamente do corpo de outros estudantes que mergulharam na bebida. A opção preferida dos consumidores é a de beber o Caju a partir dos dedos do pé de mulheres, principalmente.

Conhecido por Grupo de Apoio à Putaria (ou à Participação, dependendo a quem perguntar), o GAP é formado por estudantes da USP de São Carlos e foi fundado por volta dos anos 90. A associação é responsável pela organização de festas já consagradas no meio universitário são-carlense, como é o caso do baile à fantasia Metaamorfose, que acontece anualmente.

Segundo um dos fundadores do GAP, Johnny da Silva, o ‘Caju’ foi criado por alunos do Caaso (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira) com a ajuda de um funcionário do bar localizado dentro da universidade. “Existia a batida feita pelo Raí, que tomava conta do bar do Caaso. Fazíamos pedágio no bandeijão e comprávamos os ingredientes. O Raimundo (Raí) fazia a batida e todo mundo bebia, sempre de graça. Agora, o cerimonial que hoje existe no preparo do Caju foi criado depois”, explicou o engenheiro.

 

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Estudante mergulha no 'Caju' em São Carlos

No início, a bebida não era preparada em grande escala como hoje. Durante o ‘Corso’ (caminhada dos estudantes na abertura da Tusca) de 1991, o GAP conseguiu trazer para o abre-alas do evento um caminhão fornecido pela Coca-Cola. Com parte do patrocínio, foram comprados tonéis de plástico, nos quais logo foram adaptadas torneiras. “Ganhamos 50 litros de pinga da Caninha e 51 litros da cachaça 51, produzida em Pirassununga. Também havia sucos de Caju e Maracujá. Misturamos tudo e virou o Caju. Sempre existiu a batidinha, apenas incrementamos a ideia. Digamos que foi a primeira vez que foi feita uma produção em grande escala da bebida”, contou Johnny da Silva.

Membro da gestão atual do GAP, o aluno Pedro Olmos explica como a bebida é feita. “Geralmente, misturamos suco de caju concentrado e cachaça. Fazemos com o dinheiro que sobra das festas ou dividimos o custo entre os membros do GAP. É de graça e sempre vai ser. Atualmente, o Caju também é feito em outras ocasiões por diferentes organizações como a Atlética do Caaso e a GAPeria (antiga bateria do GAP)”, comentou.

Para Olmos, que participou de seu primeiro Tusca no ano de 2015, a bebida costuma chocar a quem assiste ao preparo. “No ano em que entrei na faculdade, em 2015, o pessoal já fazia. Cheguei a tomar um pouco para experimentar e estava realmente nojento. Tinha pedras e terra no meio. Foi aí que descobri que a graça era justamente essa: estar nojento”, pontuou o estudante de engenharia.

Levando em consideração o lema do grupo - De volta ao Trash (que significa lixo) - não é de se espantar que os membros sintam orgulho da fama de “porcos”; animal que, inclusive, é utilizado como o símbolo do Caaso em São Carlos. “O Caju divide opiniões, como tantas outras coisas. Tem quem sinta nojo e tem quem ache uma delícia. Ninguém nunca morreu tomando Caju e ninguém nunca foi obrigado a beber. Assim como o Tusca, o Caju é só pra quem gosta e quer participar. Os reclamões e politicamente corretos que fiquem em casa”, finalizou.

Higiene à parte, é fato que o Caju se tornou uma parte imprescindível de cada Corso da Tusca desde os anos 1990. A batida, suja e cada vez mais nojenta, continua a ser consumida e preparada pelos estudantes, fazendo sucesso entre o público em todas as edições. Dessa forma, não é de se espantar que a cada nova gestão do GAP os membros busquem formas de inovar no preparo da bebida, sem nunca perder a tradição do que se tornou a marca registrada do Grupo de Apoio à Putaria. 

 

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Caju é preparado em recipientes imensos em São Carlos


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