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São Carlos não terá representantes negros na Câmara Municipal

Neste Dia da Consciência Negra, especialistas falam sobre a contramão do município em relação à realidade do país e apontam racismo estrutural

| ACidadeON/São Carlos

Câmara Municipal de São Carlos - Foto: ACidade ON São Carlos

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam um aumento significativo na participação de negros no poder executivo e legislativo em municípios brasileiros. No entanto, São Carlos (SP) segue na contramão e não terá nenhum representante negro na Câmara Municipal nos próximos quatro anos.  

Dos mais de 5,4 mil prefeitos eleitos, aproximadamente 1,7 mil candidatos se declararam pretos ou pardos, o que corresponde a 32% do total. O número é superior a 2016, quando 29% dos candidatos eleitos eram negros segundo a classificação do IBGE.  

Se os negros conseguiram um avanço de representatividade nas eleições deste ano, a proporção é ainda distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira, o que evidencia que eles seguem sub-representados na política.  

Em 2020, pela primeira vez, os candidatos negros passaram a ser o maior grupo de postulantes a cargos eletivos no país desde que o TSE passou a coletar informações de raça, em 2014. Ao todo, 276 mil candidatos pretos ou pardos se registraram para concorrer no pleito, o equivalente a 49,9%.  

Mas em São Carlos (SP), este cenário é diferente. Dos 474 candidatos a vereador para este ano, 62 se declararam pretos (12,45%), mas nenhum foi eleito para as 21 cadeiras disponíveis no poder legislativo para os próximos quatro anos.  

A situação ainda é mais preocupante no âmbito regional, já que Ibaté (SP), Ribeirão Bonito (SP), Dourado (SP) e Itirapina (SP) contam com ao menos um representante negro.  

Falta de representatividade
Segundo a professora e vice-diretora do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Ana Cristina Juvenal Da Cruz, essa falta da representatividade negra na Câmara Municipal pode estar relacionada à falta de investimento de força política dos partidos nestas candidaturas.  

"No contexto local, o que podemos observar é que embora tenhamos esse panorama mais plural no ponto de vista nacional, a cidade não conseguiu eleger pessoas que sejam pertencentes a essa representatividade, e é ainda mais importante destacar que não é que faltaram candidaturas desses extratos, mas a análise precisa ser mais sofisticada para entender em que medida os partidos investiram força política na criação e desenvolvimento dessas candidaturas", comentou.  

Para Ana Cristina, um exemplo é a aprovação de proporcionalidade de financiamento para candidaturas de pessoas negras pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nas eleições deste ano, que segundo ela, levou a 21 mil candidaturas de brasileiros a mudarem seu pertencimento étnico racial de cor e raça para angariar recursos dos fundos públicos.  

"Isso mostra a lógica do racismo mais global, nós temos experiências semelhantes a essas, por exemplo, a experiência do apartheid na África do Sul, que as pessoas mudavam seus pertencimentos para não sofrer a violência do regime, e no caso brasileiro a lógica do racismo muito específico da própria sociedade brasileira", explicou.  

Ainda de acordo com a professora, a falta de pluralidade representativa é um reflexo da história da cidade e da estrutura do racismo brasileiro de uma sociedade que ainda tem questões a serem resolvidas.  

"A nós cabe fazer a crítica, a cobrança política das estruturas dos partidos, a construção que os partidos colocam para essas candidaturas, e do próprio sistema eleitoral para que possamos pluralizar esses espaços, então há que se começar esse debate na cidade de São Carlos sobre o que significa em 2020 a cidade não ter conseguido eleger nenhuma candidatura de uma pessoa negra", disse.   

Reflexos do racismo estrutural
De acordo com Sara Bononi, presidente das Comissões de Direitos Humanos e Igualdade Racial da OAB São Carlos, o município está na contramão do país. "A participação do Estado, das Instituições públicas e privadas, na modificação dessa relação de forças é que vai alterar esse lugar, e se vemos pelos índices que isso tem ocorrido no Brasil e aqui está na contramão, a conclusão é que o racismo estrutural aqui é ainda mais severo do que o mais severo racismo que encontramos no Brasil afora", explicou.  

Ela ainda mencionou que é preciso avaliar de que forma tornar a disputa mais igualitária. "Trazendo isso para o âmbito da política partidária em São Carlos, em que não há representatividade do negro na Câmara, é preciso que os partidos entendam que não basta a presença do negro na disputa eleitoral, há de se pensar que instrumentos são necessários para que essa disputa se torne mais igualitária, é preciso uma sensibilidade, sobretudo os partidos progressistas, que lutam pela igualdade, para que isso se dê de uma maneira contundente e de forma urgente", finalizou.


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