*Por: Luana da Fonte
Você sabia que o palmito que chega à sua mesa pode vir de espécies de palmeiras totalmente diferentes, com origens, características e formas de cultivo distintas? A pupunha e a palmeira real australiana são dois exemplos disso. Embora ambas produzam palmito de qualidade, cada uma possui particularidades que impactam desde o manejo nas lavouras até a aparência e conservação do produto final.
Segundo a Dra. Valéria Aparecida Modolo, pesquisadora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), as duas palmeiras pertencem a gêneros diferentes. “Uma pertence a um gênero que se chama Archontophoenix e outra ao gênero chamado Bactris. A principal diferença botânica entre as duas é que a pupunha perfilha, ou seja, a planta forma uma touceira, e a palmeira real australiana não perfilha, é uma planta de haste única”, explica.
A origem também é distinta: a pupunha é nativa da Amazônia, presente tanto na região nacional quanto em países vizinhos. Já a palmeira real australiana, como o nome indica, vem da Austrália. Atualmente, a pupunha domina o mercado nacional. “A maior presença hoje no Brasil é de palmito pupunha. A pupunheira é uma das palmeiras mais plantadas para a produção de palmito”, afirma Valéria. No entanto, ela destaca que a palmeira real australiana tem uma presença importante no Sul, especialmente em Santa Catarina, onde é bastante cultivada.
Embora ambas sejam consideradas de rápido crescimento, o tempo entre o plantio e a colheita é similar. “As duas palmeiras são precoces para a produção de palmito. Dependendo da região, a partir de 18 meses a gente começa a colher, mas podemos colocar uma média de 20 a 24 meses para começar a colheita”, aponta a pesquisadora.
A grande diferença entre as duas está na forma de manejo. No caso do palmito real, como a planta não perfilha é necessário replantar após cada colheita. “Cada planta produz um palmito. Você corta o palmito e, para colher outro, tem que plantar novamente”, explica a Dra. Valéria. Já a pupunha, por formar touceiras, permite colheitas sucessivas ao longo dos anos. “Na pupunheira, depois que você retira a planta-mãe, a partir de dez meses você tem em média um palmito por touceira. Você consegue fazer colheita ao longo de muitos anos”, completa.
A aparência e o comportamento dos dois produtos também variam bastante. “A pupunha tem uma coloração mais creme, às vezes até um pouco mais amarelada, e a real australiana tem uma coloração mais clara, mais para o branco”, observa a pesquisadora. No entanto, o fator mais decisivo para o mercado é a oxidação. “A principal diferença entre as duas é que uma oxida e outra não oxida. Você não vai encontrar palmito de palmeira real australiana sendo comercializado in natura, é sempre no vidro, processada, acidificada e conserva dentro de um vidro. Já o palmito pupunha não tem esse escurecimento e pode ser comercializado fresco, como a gente já vê em supermercados”, acrescenta.
Quando se trata de preferência do consumidor, o mercado ainda caminha para se tornar mais informado. “O palmito é um produto caro, então a primeira coisa que as pessoas buscam é preço, depois um pouco de aparência. Pouco se atenta para a espécie que está consumindo”, destaca a Dra. Valéria. Por essa razão, muitos consumidores acreditam que as diferenças entre os produtos se devem à marca e não à espécie da palmeira.
Os preços também podem variar conforme a região. Em São Paulo, por exemplo, onde quase não se planta palmeira real, a pupunha predomina. “O palmito pupunha tende a ter um preço melhor do que a palmeira real australiana. Mas no Sul, onde há mais produção da real, essa diferença de preço pode não ser tão grande”, explica Valéria.
Na hora de escolher o palmito, entender a espécie de origem pode fazer toda a diferença, tanto para quem busca qualidade quanto para quem deseja apoiar uma cadeia produtiva mais sustentável e regional.
*Supervisionado por Virginia Alves