
A Internet é uma ferramenta poderosa. Porém, dependendo do uso, também pode ser perigosa. Desde se chegada e popularização, um novo fenômeno vem se tornando cada vez mais frequente. Não é difícil encontrar nas redes sociais os famosos coaches ou mesmo gente “comum” que de alguma forma, mesmo sem nenhuma formação, encorajam pessoas a encarar desafios. Estes, em sua grande maioria, não fazem muito sentido. E parece ser esse o segredo do sucesso. O desejo de testar limites, especialmente se isso vier envelopado com o conceito de “nunca feito antes…”
Antes de seguir em frente, vale uma ressalva importante. Cabe um destaque para dar o devido crédito aos bons profissionais, que usam as redes sociais para ajudar de verdade muitas pessoas. Seja esportivamente ou não.
LEVE A SÉRIO
No esporte em geral, especificamente na corrida de rua, a coisa deve ser levada a sério. Temos uma relação muito estreita entre os benefícios e malefícios, dependendo de como se encara treinos e provas. E certos desafios mirabolantes podem levar o praticante a resultados perigosos. E isso, ninguém quer. Importante pensar bem antes de dar o passo seguinte.
De acordo com o especialista em corrida e consultor técnico de ON RUN, Ronaldo Dias, não dá para ter tudo, mas dá para fazer muita coisa com qualidade. “O grande complicador, e que me deixa com o coração apertado, é ver pessoas se arriscando em correr uma determinada prova, meia maratona ou até uma maratona, mas não têm tempo nem para treinar visando os 5km”, explica.
Dias cita também o caso dos teimosos. “Em alguns casos, mesmo sendo orientados a não correr determinada prova naquele momento, não porque ele não é capaz, mas porque precisa periodizar, ignoram e partem pra cima. Infelizmente, há pessoas correndo tanto que parecem estar em atividade 24 horas direto. Eles correm e ainda mandão o print do celular para dizer: “Consegui, kkkkkk”. Em pouco tempo, provavelmente sofrerão com lesões que os impedirão, em alguns casos, até de caminhar. E isso é uma pena”, complementa.
NÃO SEJA TEIMOSO
Fato é que esse processo pode ocorrer já no início, quando a pessoa recebe sua planilha de treino e nela há 5km para ser realizado intercalando com caminhadas. O que o aluno faz, cumpre todo o percurso correndo. “Não é uma questão de se você é capaz ou não de correr o tempo todo, é uma questão de progressão de carga de acordo com objetivo. O corpo precisa de tempo para se adaptar”, explica o consultor técnico de ON RUN.
O corredor precisa entender que treino não é apenas uma questão física. Há um componente cognitivo muito importante. “É preciso aprender a treinar para só depois começar a treinar de verdade. Em alguns casos, atletas passam a vida toda com a orientação de um professor, constantemente aprendendo a treinar para obter os melhores resultados”, afirma Dias.
PLANEJAMENTO CARANGUEJO
Não seguir as orientações ou mesmo querer se desafiar sem o conhecimento mínimo, entra no chamado Planejamento Caranguejo. Acaba acontecendo o seguinte: você entra em forma antes da hora; se lesiona; fica desmotivado com os treinos; treina bem dia sim e dois não; treina forte um dia sofre nos próximos três por estar quebrado; fica indo e voltando o tempo todo em seu desempenho. “Em resumo, tem uma experiência desagradável e até desconfortável e, cá para nós, é difícil se manter motivando fazendo algo que nos machuca ou exige um esforço desproporcional ao qual ainda não estamos preparados”, avalia o treinador.
CORRER BEM E SEMPRE
No caso dos amadores, a corrida consegue agradar a todas as tribos. Para não se apaixonar, melhor nem começar. Com a prática, passa a ser normal dizer que a rua se tornou uma sua terapia. Para Ronaldo Dias, corrida é uma coisa estranha e única. Não dá muito para explicar. “Precisa sentir na pele. Você começa e não quer mais parar. A coisa vicia e só quem corre pode tentar explicar. É como amor. Não se explica. Se sente. E sente muita falta quando não dá para sair para a corridinha. Só de pensar em ficar sem, já dá um aperto no peito.”
Por esses e muitos outros motivos, é precisa dedicação, sim e muita. Mas dedicação com planejamento, orientação e inteligência. Nada de maluquices ou exageros. Ninguém precisa provar nada para ninguém, a não ser a si mesmo. O desafio deve ser contra os próprios limites. Para ultrapassá-los, há que se ter equilíbrio. “Corrida é para a vida toda. O mais importante é que ela até pode não aumentar os anos de vida, mas, certamente, os corredores terão dias agradáveis e mais produtivos, acredite”, finaliza Ronaldo Dias.