Aguarde...

ACidadeON

vidaeestilo

Em show tenso, Roger Waters recebe mais vaias que aplausos ao exibir #EleNão

| FOLHAPRESS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vocês têm uma eleição importante. Sei que não é da minha conta, mas devemos sempre combater o fascismo. Não dá para ser conduzido por alguém que acredita que uma ditadura militar pode ser uma coisa boa." Com essas palavras, falando em inglês, o músico britânico Roger Waters botou mais gasolina numa fogueira que tinha acendido minutos antes na noite de terça (9), em São Paulo. Ele não quis comentar o episódio no dia seguinte. Quando apresentou no encerramento do primeiro show de sua turnê pelo Brasil a canção "Eclipse", que gravou com sua ex-banda Pink Floyd em 1973, as palavras "Ele Não" apareceram enormes no telão montado no Allianz Parque. A reação foi ensurdecedora. As quase 40 mil pessoas no estádio produziram uma mistura de poucos aplausos e muitas vaias. Na balbúrdia, era possível ouvir gritos de "ele não" e "fora, PT". Aquele não foi o primeiro disparo do roqueiro contra Jair Bolsonaro na noite. O nome do candidato do PSL que disputa o segundo turno da eleição presidencial com Fernando Haddad, do PT, já tinha aparecido no telão. Waters começou o show tocando muitas músicas do Pink Floyd, a banda da qual fez parte da década de 1960 até o início dos anos 1980. Tocou sucessos do grupo, tiradas dos álbuns "The Dark Side of the Moon" (1973), "Wish You Were Here" (1975), "Animals" (1977) e "The Wall" (1979). A primeira parte do show foi recebida com entusiasmo pelo público, mas foi mais comedida a reação a algumas músicas de "Is This the Life We Really Want?", o manifesto humanista em forma de disco de rock lançado no ano passado. Depois de uma dúzia de canções, no entanto, o show ficou eletrizante com "Another Brick in the Wall Part 2", clássico do rock marcado em sua gravação original pela inclusão de um coro de crianças cantando a letra que protesta contra professores opressores. No palco do Allianz Parque, um grupo de pessoas surgiu então vestindo uniformes de presidiários, macacões alaranjados com um número impresso no peito, e com capuzes pretos em suas cabeças. No meio da música, seus rostos foram descobertos e ali estavam adolescentes brasileiros, cantando a letra e seguindo uma coreografia. O público, que já estava fazendo coro para Waters, entrou numa empolgação enorme. Aí os garotos tiraram os macacões e exibiram camisetas pretas com a inscrição "Resist" (resista). Waters anunciou um intervalo de 20 minutos. Nesse período, o telão passou a exibir, em inglês, frases pedindo que as pessoas resistam à guerra, aos maus governantes, à corrupção e muitas outras mazelas. Em determinado momento, o texto no telão pediu resistência contra os neofascistas, exibindo uma lista de países, um político de cada lugar. Entre outros, ao lado do presidente americano Donald Trump e da líder da extrema direita francesa Marine Le Pen, apareceu "Brasil - Jair Bolsonaro". O início da segunda parte do show foi agressivo. O telão reproduziu, espetacularmente, a fábrica que aparece na capa do álbum "Animals", no qual o Pink Floyd ataca sem suavizar o que chama de "porcos que governam o mundo". Durante toda a música "Pigs", o telão exibiu montagens fotográficas ridicularizando Trump. Foi então que um porco inflável gigante flutuou sobre a plateia. Estrela dos shows de Waters desde 2016, o balão exibia grafites em português. Alguns deles: "As crianças não têm culpa" e "Respeitem as mulheres". O show seguiu em alta voltagem até que, em "Eclipse", a música que fecha "The Dark Side of the Moon", um complexo jogo de lasers projetou sobre o público o prisma que está estampado na capa desse álbum icônico do rock. Quase no final da música, veio no telão a inscrição "Ele não". O pandemônio foi tamanho, com vaias e xingamentos a Waters, que o músico permaneceu no palco sem dizer nada por quase cinco minutos. Esperou um brecha, disse que certamente ele não sabia direito o que acontece no Brasil, para então disparar a citada declaração contra governantes fascistas, o que novamente detonou as manifestações. Começou o bis com "Mother", do álbum "The Wall". E "ele não" voltou a aparecer em letras ainda maiores. Quando tudo levava a crer que o show terminaria em ambiente carregado, Waters emendou "Comfortably Numb", do mesmo álbum, uma das mais belas canções da história do rock e um hino para qualquer apaixonado pelo Pink Floyd. Assim, conseguiu promover uma confraternização momentânea de eleitores de Bolsonaro e Haddad. E, mesmo com reclamações contra seu posicionamento, todos foram embora felizes com um show que, se não teve grandes surpresas musicais além de um repertório matador, foi carregado de emoção e tensão. Waters se apresenta novamente no Allianz Parque na noite desta quarta (10). Depois a turnê vai a Brasília (dia 13), Salvador (17), Belo Horizonte (21), Rio de Janeiro (24), Curitiba (27) e Porto Alegre (30).

Veja também