Daerp frauda dados, diz Mantilla

Ex-diretor técnico do órgão afirma à Polícia Federal que Daerp inventa os dados de perda de água

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    • Cristiano Pavini
Weber Sian / A Cidade - 05.ago.2015
Preso assim que a Sevandija foi deflagrada, em 1º de setembro, Luiz Mantilla (à direita) passou a colaborar com as investigações e firmou instrumento preliminar de delação premiada. Ele foi solto em 19 de setembro (Foto: Weber Sian / A Cidade - 05.ago.2015)

 

Usada como propaganda de gestão da prefeita Dárcy Vera (PSD), a redução da perda de água com vazamentos de 46,3% para 15,89% em seis anos só ocorreu mediante dados fraudados pelo Daerp. Quem afirma é Luiz Alberto Mantilla, ex-diretor técnico do órgão, em depoimento à Sevandija.

Ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e à Polícia Federal, Mantilla explicou que os indicadores de perda de água na distribuição informados ao Ministério das Cidades são “falsos” e “inventados”.

Ele indica, também, que a autarquia não possui dados confiáveis de consumo e produção de água - o que é reforçado por especialistas.

Seu depoimento, feito com o compromisso da verdade por ser preliminar à delação premiada, reforça o que o A Cidade indicou na edição de 1º de junho deste ano: que a redução dos vazamentos é artificial por meio de maquiagem de dados.

Mantilla afirma que o Daerp cadastrou no Ministério das Cidades um número inflado de volume de serviço – indicador de quanto é gasto, de água potável, com a limpeza de tubulações e reservatórios, além de uso para o Corpo de Bombeiros. Quanto maior esse volume, menor será a conta da perda com vazamentos.

Na reportagem publicada em 1º de junho, Mantilla alegou que esse volume era alto em razão dos investimentos na troca da rede de água.

A Cidade analisou o volume de serviço de 5.100 municípios, com dados de 2014 – mais recentes disponibilizados pelo Governo Federal - e verificou que a média é de 3,74%. Entre as cem cidades mais populosas, a média é 5,5%.

O Daerp, porém, informou ao Ministério das Cidades que esse indicador era de 12,68% - o dobro do ano anterior. Somente com água limpa usada no volume de serviço “oficial” de 2014, seria possível abastecer, por um ano, Brodowski e Cajuru juntos, totalizando 64 mil habitantes.

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São esses os dados utilizados pelo Instituto Trata Brasil na elaboração de seu ranking de saneamento – um dos mais conceituados do país e referência das prefeituras para marketing de suas gestões.

No último ranking do Instituto, entre as cem maiores cidades do País, Ribeirão aparece como a segunda com a menor perda em vazamentos. Os dados informados pelo Daerp colocam a autarquia nos patamares de eficiência de países de primeiro mundo.

Em nota, o Ministério das Cidades informou que os dados que compõem o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) são “autodeclarados” e que a “fidedignidade é de responsabilidade dos municípios ou dos seus prestadores de serviços”.

Reprodução
Trecho do depoimento de Mantilla (Reprodução)

 

Alvo do Gaema

O Daerp também é alvo de procedimento do Gaema (Grupo de Atuação Especial em Defesa do Meio Ambiente) para, assim como outros municípios da região, reduzir as perdas de água com vazamento para até 20% até 2019. A promotora Claudia Habib diz que a autarquia vem reduzindo as perdas, mas desconfia que não ocorreram na intensidade como foi informado pela autarquia.

Sem informação

Mantilla também revela, à Sevandija, que o Daerp não possuía informações necessárias para a execuçaõ do contrato inicial de R$ 68,5 milhões com a Engepav e, sequer, dados de consumo e produção de água, além de vazão dos poços. Até o início deste ano, o volume de quanto era retirado do Aquífero Guarani dos 109 poços era feito com base em estimativas de medições pontuais, por não ter instalado sistema tecnológico de aferição constante. Agora, segundo a assessoria do Daerp, estão em funcionamento 100 macromedidores nos poços – que fazem a medição em tempo real. Eles foram adquiridos justamente no contrato com a Engepav ao custo inicial de R$ 27,6 mil cada – contrato que, segundo a Sevandija, resultou em R$ 1,5 milhão em propinas para Marco Antonio dos Santos e Mantilla.

Daerp irá rever dados

Por meio de nota, o Daerp afirmou que “a atual diretoria desconhece a informação [depoimento de Mantilla], mas todos os procedimentos técnicos da autarquia estão sendo revistos”.

Em entrevista ao A Cidade, o novo superintende da autarquia, Tanielson Campos, afirmou que está revendo todos os contratos e procedimentos internos. Ele, inclusive, ressaltou que trocou a equipe da comissão de licitação, trouxe novos engenheiros técnicos para o Daerp e uma equipe especializada para fazer um “pente-fino” nas despesas.

Segundo ele, o objetivo é sanear a autarquia para o próximo gestor.

‘Dados não podem ser levados à sério’

O diretor do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) de Ribeirão Preto, Carlos Alencastre, deixa claro: “Os dados mais recentes [relativos a 2014] de perdas de água do Daerp informados ao Ministério das Cidades não podem ser levados a sério. São totalmente equivocados, pois sabemos que o sistema perde muito mais água”.

Ele explica que o Daerp, até este ano, não possuía macromedição instalada nos poços – sistema que permite a aferição precisa de quanto é retirado do Aquífero, mas que está em processo de regularização junto ao DAEE.

Além de ter informado o volume de água de serviço dobrado em 2014 em relação ao ano anterior, o Daerp também diz ter diminuído em 0,5% a captação de água do Aquífero Guarani (o que representa 506 milhões de litros a menos em 12 meses).

Se tivesse mantido os dados de consumo e volume de serviço de 2013, com alteração apenas no montante que de fato foi medido a mais pelos hidrômetros dos imóveis em 2014, os dados de perdas com vazamentos passariam de 15,89% para 21,9%. Se mantivesse apenas o mesmo volume de serviço, a perda passaria para 21,5%

Mesmo esses indicadores, segundo Mantilla, estariam subnotificados. À PF, ele diz que, ao chegar na autarquia, verificou que a perda na distribuição do Daerp “apontava 20%, mas tal número era falso”. Se o volume de serviço fosse zero, a perda seria de 26,5%. 

COMO FUNCIONAVA A FRAUDE

 - Todos os municípios informam ao Governo Federal informações sobre o sistema de saneamento (água e esgoto);

 - Com base nesses dados, são feitos os indicadores de eficiência locais;

 - No indicador de “perda na distribuição” (diferença entre a água produzida e a que tem o consumo medido, o volume faltante é perdido em vazamentos ou em “gatos), é levado em consideração o “volume de serviço” (quanto foi utilizado de água para limpeza do sistema ou para o corpo de bombeiros);

 - Quanto maior o volume de serviço, menor o indicador de perda de distribuição. Segundo Mantilla, o volume de serviço era “inventado”;

 - Além disso, especialistas e o próprio Mantilla dizem que o Daerp não sabe quanta água, de fato, capta do Aquífero Guarani. Assim, as informações repassadas não são seguras.

Arte / A Cidade


2 Comentário(s)

Comentário

MARIA ANGELA TAPARELLI PAULO

Publicado:

é assim que se faz...........dizendo a verdade.

Comentário

Divaldo Oliveira

Publicado:

Ao que parece a administração Darcy Vera, alem da incompetência comprovada, é tão ou mais corrupta que a dos treze anos do PT. Resta ao judiciário responsabilizar os fraudadores, incluindo a prefeita, aplicando penas exemplares com o ressarcindo o município dos roubos praticados.