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Por uma segunda chance

Preconceito é o maior obstáculo para a reinserção no mercado de trabalho; o barbeiro e professor Lucas Pinheiro conta como saiu do crime e deu a volta por cima

| ACidadeON/Ribeirao

A população carcerária no Brasil alcançou em 2019 o número de 812 mil pessoas. Com a marca, o país ocupa o terceiro lugar no mundo com o maior número de presos, ficando atrás apenas de Estados Unidos e China. Além da superlotação nos presídios, o presidiário enfrenta outro problema quando deixa a cela: a reintegração no mercado de trabalho.  

Quem não chegou a ser preso, mas conhece muito bem esse caminho, é Lucas Pinheiro. Inserido no mundo do tráfico, Lucas conseguiu sair da vida de crimes e, hoje, aos 23 anos, é um barbeiro bem sucedido em Ribeirão Preto, além de dar aulas na Fundação Casa.  

"Aos 15 anos me envolvi com o tráfico, fiquei cerca de um ano vendendo drogas. Nesse tempo conheci um amigo meu, que já era cabeleireiro e acreditou em mim. Entrei para a Igreja, resolvi sair da criminalidade e comecei um curso de barbearia graças ao meu amigo", conta.   

  

Lucas Pinheiro: do tráfico à referência em barbearia. Hoje, ele também ensina uma profissão aos menores da Fundação Casa (Foto: arquivo pessoal)


O preconceito também fez parte da vida de Lucas. "Em uma das minhas primeiras experiências como barbeiro o dono não sabia que eu tinha passagem pelo mundo do crime, quando ele descobriu me mandou embora e disse que eu não precisava mais trabalhar com ele".  

Hoje, Lucas coordena um projeto piloto na Fundação Casa, em que os menores aprendem a profissão. "Eu acredito que se não fosse a oportunidade que tive quando era mais novo, talvez não estaria nem aqui, porque a maioria dos meus amigos estão presos ou mortos. Acho que essa oportunidade para os garotos é uma oportunidade de mudança e transformação de vida", conclui. 

A IMPORTÂNCIA DA REINSERÇÃO  

Para o cientista social Dionys Melo dos Santos, quanto mais rápido a pessoa encontra um emprego após sair da prisão, maiores as chances de recuperação. "Quanto mais rápido melhor. Existe um ditado popular que diz: Cabeça vazia é oficina do mal. A pessoa quando se vê livre se depara, muitas das vezes, com uma situação extremamente sensível. Onde as necessidades básicas, como se alimentar e ter uma moradia, são sentidas muito rapidamente, principalmente, quando não se possui uma estrutura familiar minimamente sólida. Se o indivíduo não encontra soluções rápidas para a sua necessidade que é contínua, as chances dele ser cooptado por forças marginais são muito maiores", diz.  

"Quando o Estado não possui capacidade de atuar, e o Estado brasileiro encontra-se em um momento muito difícil em todas as esferas, essa lacuna acaba sendo ocupada pela sociedade civil, ou pelas instituições religiosas e aqueles que detêm os meios de produção, todos esses núcleos podem colaborar para que esse processo de reinserção no mercado de trabalho seja mais tranquilo", conclui Dionys.  

"NÃO TINHA O QUE COMER, ENTREI NO CRIME" 

A análise de Dionys encontra voz na história de Carlos Alberto Lourence. Em 2015 o jardineiro e pintor foi demitido e ficou sem trabalhar. "Como não conseguia emprego, cortaram minha energia, água e não tinha mais o que comer, foi assim que entrei no crime", conta.  

Após cumprir pena, Carlos conseguiu a liberdade, mas não a chance de seguir a vida com um emprego formal. Aos 46 anos, apesar de entregar currículos quase todos os dias, o jardineiro esbarra no preconceito. "Até vou para algumas entrevistas, dizem que sou competente para a vaga, mas quando descobrem que sou ex-presidiário acabam não me contratando", conclui.  

E ele não está sozinho nessa. Mesmo com a ampliação de políticas de reinserção de ex-detentos no mercado de trabalho, eles ainda são alvo de preconceito na hora de procurar um emprego. Uma das consequências é a reincidência ao crime que está entre 60% e 70%, de acordo com o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.  

O PRIMEIRO PASSO 

Quem sai de algum presídio paulista sem perspectiva de trabalho pode encontrar uma solução por meio do programa Pró-Egresso.  

O Programa Estadual de Apoio ao Egresso do Sistema Penitenciário é resultado de uma conjunção de esforços de várias secretarias estaduais, que busca através de qualificação profissional a recolocação de sentenciados que cumprem pena em unidades prisionais de regime semiaberto, de egressos e de pessoas em cumprimento de penas ou medidas alternativas.  

Os cadastros para vagas de emprego no Programa "Emprega São Paulo", no Pró-Egresso, são feitos pela SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), mas podem ser realizados também em todos os PATs (Postos de Atendimento ao Trabalhador). 

Em Ribeirão, o PAT fica localizado na avenida Presidente Kennedy, 1.500; mais informações podem ser obtidas pelo telefone (16) 3625-7381.

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