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Blogs e colunas   -   alma inclusiva

Traços que desenham a inclusão e que também criam animações inclusivas

O desenho precisa ser livre para que a criança consiga externar o que sente e é preciso trabalhar a diversidade com ela

| ACidade ON - Circuito das Águas -

Garotinho, que estava acompanhado da família, ficou maravilhado com as obras do artista Paulo Branco, que aproveitou para tirar a foto. Durante a mostra "Cartunista na Catedral", o menininho tocou em todos os desenhos.
Quando assisti ao filme "História antes de uma história", do animador Wilson Lazaretti, diretor do Núcleo de Cinema de Animação (NCA) de Campinas e professor do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, fiquei encantada. E pensei logo como o desenho mexe com nossas emoções e nos inclui dentro do mundinho de cada um, inclusive no nosso, já que somos labirintos de emoções que brincam de esconde-esconde e, muitas vezes, aparecem como rompantes e nos assustam. Mas, além de nos ajudar a expressar, os desenhos podem nos ensinar ações simples de amor, que nos leva a todo tipo de inclusão.

Aí comecei a lembrar das artes do meu amigo Bira Dantas, chargista que ganhou vários prêmios internacionais, e ainda do livro "A galinha que botava batatas", com ilustrações do artista campineiro Paulo Branco, uma edição em braile, fonte ampliada e com um CD de mídia MP3, que conta toda a história do livro infantil. Tenho esse livro com destaque na minha estante. Então, com tantas artes brotando de forma voluptuosa, tive de respirar fundo e me organizar mentalmente. Sou igual a uma criança, amo animação, desenho, pintura, enfim, artes em geral.

Comecei com a minha inspiração, o filme "História antes de uma história", que foi indicado, junto com outro brasileiro, ao Prêmio Platino 2018, premiação que destaca as melhores produções ibero-americanas. Uma animação espanhola levou o troféu. Mas, a história de Dr. K, um velho senhor que gosta muito de caminhar e um dia encontra um lápis e papel pelo caminho e, na companhia de outros três personagens, vai aprendendo sobre o universo da animação, é o meu preferido. Assista aqui a um dos trailers do filme.    

Reprodução do Dr. K do filme "História antes de uma história"

A conversa com o professor Wilson Lazaretti, chamado de "Wal" desde a adolescência, foi bem inspiradora para mim. Wall é contrário à imposição de qualquer padrão. Para ele, o desenho da criança tem de ser livre. Ele já ofereceu aulas de desenho e de brinquedos ópticos para a todas as faixas etárias, inclusive para a terceira idade. Por isso, disse se sentir incomodado com o padrão de animação defendido pela empresa Disney, em especial quanto ao exagero na maleabilidade do movimento dos objetos em cenas, seja cabelo, balanço, cascata, entre outros. Ficou interessado em saber mais? Clique aqui e leia a entrevista completa com Wal e conheça aqui as animações produzidas por ele.  

Foto tirada de uma oficina de brinquedos ópticos para a terceira idade, no ano passado, em Sófia/Bulgária
"Creio que todos os trabalhos são de inclusão, de uma forma ou de outra. Por exemplo, cada oficina de produção de animação que faço, sempre carrego o aprendizado comigo e o coloco também, de uma forma ou de outra, nos meus filmes", explicou Wal. Para ele, o desenho e a animação são ferramentas de inclusão. "Precisamos sentir e realizar a arte do desenho, da animação, como uma arte livre, independente, que venha diretamente da profundidade da nossa alma", disse. "Também falo isso aos alunos, pois alguns confundem e acham que na profundidade vamos encontrar a religião, ou a crença. Digo, a arte mergulha mais além e quem chegar a esta profundidade é realmente um artista."

Wal refere-se a um ser compromissado com suas ideias e seu tempo. "Enfim um artista, independentemente de sua idade ou maturidade. Desta forma, o mundo seguiria um caminho mais seguro. Veja que na nossa educação formal, ainda se estimula a competição como forma de ser o melhor em tudo. Não se ensina uma filosofia sobre a felicidade, que não pode existir sobre a face da terra enquanto um ser humano, em qualquer lugar do planeta, não tenha a dignidade do pensador. Por isso, a felicidade é uma abstração que dificilmente vamos conseguir. Por que uma criança não pode ser estimulada a pensar assim? Damos aos nossos filhos e netos brinquedos, mas não conversamos diretamente com eles sobre estes assuntos."

Desenhos comunicam interior com exterior

No meio da conversa surge o nome de Maurício Squarisi, outro animador do NCA de Campinas. O longa-metragem dele "Café, um Dedo de Prosa", chegou a ser pré-selecionado para a categoria de animação no Prêmio Platino 2018, mesma edição em que Wal participou com sua animação "História antes de uma história". E antes que alguém pense que são concorrentes, eles são muito amigos e fazem vários trabalhos juntos. Assista aqui a um trailer da animação que conta a história do café.  

Oficina na APAE Caruaru, em Pernambuco

"Essas oficinas sempre foram processos de inclusão. O desenho animado que Wal e eu ensinamos é bem mais do que simplesmente técnica. É libertador. Nós estimulamos as alunas e os alunos a encontrarem e aperfeiçoarem a sua própria identidade gráfica e a desenvolverem seu próprio grafismo e estilo. Portanto, serem AUTORES", contou Squarisi. Clique aqui  para assistir a um filme realizado com autistas na Acesa-Capuava, em Valinhos, organizado por Squarisi. Ele também realizou várias oficinas por lá. Veja aqui uma delas.   

Desenho de Maurício Squarisi produzido para o calendário da Acesa-Capuava, com poema de João Proteti

Na percepção de Squarisi, o desenho sempre o possibilitou a inclusão em um mundo melhor. "A minha melhor forma de comunicar o meu mundo interior com o mundo exterior, sem dúvida, é o desenho." Quer conhecer como são as oficinas que Wal e Squarisi ministram, juntos ou separados? É só clicar aqui para ter acesso a entrevista completa de Squarisi e, se quiser conhecer ainda mais o trabalho dele, clique aqui e será direcionado para o canal do animador no YouTube.  

A força do desenho para empoderamento

A animação, realmente, é mágica! Fiquei a pensar em outras formas de desenho. Foi aí que me saltaram da cachola os cartuns, as charges e as pinturas como forma também de empoderamento para minorias, promovendo ainda mais a inclusão. Lembrei imediatamente do meu amigo Bira Dantas, que logo me explicou "Desde os anos 80, ilustradores foram alertados pela ausência de personagens femininas e negras em seus cartuns. Como eu fazia charges para estes movimentos, passei, de forma natural, a representá-los graficamente. Cartunistas como Pestana e Junião foram além, problematizando a discussão a partir de suas ricas experiências pessoais", disse, referindo-se aos artistas Maurício Pestana e Junião Junior.  

Ilustrações de Bira Dantas para um gibi que revisava a Lei de Zoneamento da cidade de SP
"Chegamos nos anos 2000 com a inclusão de deficientes no centro da discussão. A acessibilidade móvel, auditiva e visual passou a ser, também, um questionamento importante. Assim como Mauricio de Sousa e outros autores de quadrinhos, eu também passei a desenhá-los, como no gibi que revisava a Lei de Zoneamento da cidade de São Paulo", analisou Bira. "Saindo da realidade cruel de tempos pandêmicos, meu sonho é fazer uma HQ que possa ser lida, com fundo musical e efeitos sonoros para que pessoas com deficiências visuais possam ouvir e ver uma HQ de meia hora." O trabalho do Bira pode ser conferido em sua página no Facebook e seu blog.  

Logo me lembrei do meu livro "A galinha que botava batatas". Fui atrás do artista Paulo Branco, que fez as ilustrações do livro. "Fui convidado pela Simone Pederson (autora do livro) para fazer as ilustrações. E foi meio complicado porque sou uma pessoa extremamente visual. E como fazer um livro para uma pessoa que tem pouca visão ou nenhuma? Aí, fui entendendo como trabalhar para este universo, com formas geométricas, não sobrepondo formas porque as crianças não entenderiam ao tatear os pontinhos."  

Capa do livro, com as ilustrações de Paulo Branco
O livro tem os direitos reservados à Fundação Dorina Nowill para Cegos. Segundo Branco, o trabalho o tirou da zona de conforto e aprendeu bastante com ele. "Fiquei sabendo que é o livro mais procurado da série. Aguardo outros. Estou à disposição. Curti muito ter feito." O artista já realizou muitos workshops, oficinas em escolas da periferia e em ruas e praças, além disso decorou várias instituições, como hospitais. Quer conhecer mais sobre o trabalho dele? Clique aqui e será direcionado para o seu Instagram e para ler a entrevista dele na íntegra, clique aqui.   

Oficina de desenho de Paulo Branco

Arma contra o racismo

O professor Wilson Queiroz, doutorando em Educação pelo Grupo de Estudos em Educação Continuada (GEPEC) da Unicamp, com graduação em Ciências Matemáticas pela USF e especialização em Matemática pela Unicamp, trabalha com desenho em suas aulas de matemática. Ele leciona na EMEF/EJA Oziel Alves Pereira, em Campinas. "Semanalmente, temos na escola, na disciplina de matemática, uma aula reservada para pensar o tema africanidade, propor atividades, estudos diversificados e produções de inúmeras narrativas, que contemplam as imagens e desenhos."
 

Atividade com labirinto, onde o aluno tinha que encontrar uma saída e nas duas extremidades ilustrar como quisessem com a temática e a matemática

O trabalho das africanidades desenvolvido na escola municipal no Oziel, segundo o professor Wilson, constitui-se na construção de um trabalho cotidiano de pesquisa e ensino-aprendizagem sobre inúmeros aspectos que constituem as demandas da população negra. "Busca-se nos referenciais teóricos, bem como nos Movimentos Negros, aproximações e didáticas que favoreçam a construção de um currículo amplo, que contemple a ruptura com o racismo e o desenvolvimento do conhecimento acerca da cultura e história em diálogo com as diretrizes curriculares nacionais sobre a temática."

Para ele, o desenho é uma das estratégias que a escola utiliza para viabilizar a implementação de um ensino humanizado com referenciais afrocentrados. Quer saber mais sobre o trabalho de Wilson? Clique aqui para ler a entrevista completa. 

Informativo afro, produzido durante a aula de matemática, na EMEF Oziel
Desperta visão de mundo  

Ao pesquisar sobre os quadrinhos, encontrei o estudo intitulado "A inclusão que está nos quadrinhos: como os personagens podem divertir e ensinar sobre as pessoas com deficiência". Eu já o tinha recebido do Bira Dantas. Esse estudo traz vários personagens e alguns confesso que não conhecia. Clique aqui para ter a acesso ao estudo. Fui atrás de uma das autoras, a bibliotecária e pedagoga Danielle da Silva Pinheiro Wellichan.  

A bibliotecária e pedagoga Danielle da Silva Pinheiro Wellichan
Mestre em Ciência da Informação e doutoranda em Educação, na linha de pesquisa sobre Educação Especial na UNESP de Marilia, Danielle explicou que "os desenhos e as animações, de maneira geral, podem ser muito importantes para o processo de desenvolvimento das nossas crianças, porque eles apresentam de forma lúdica, assuntos que podem ser abordados de forma diferenciada e que fazem parte da vida da gente". Ela também é membro participante do Grupo de Trabalho Acessibilidade em Bibliotecas - GT Acess FEBAB.

Danielle defende as aulas de desenho em sala de aula. "Se olharmos de forma histórica, o desenho passou por inúmeros momentos dentro da sala de aula. Novas concepções foram sendo construídas ao longo dos anos nesse contexto e abriram espaços para movimentos como a inclusão das pessoas com deficiência. Trata-se também de representatividade, nós temos crianças em salas de aula que buscam seu espaço e essas possibilidades de discussão e convivência são muito necessárias e muito benéficas para todos. Segundo ela, "a arte na Educação é importante para despertar a visão para o mundo, para conhecer diferentes formas e olhares e tudo isso utilizamos em nossas vidas" Leia na íntegra a entrevista de Danielle.  

O desenho, realmente, só tem a nos ajudar, sem contar as questões motoras, de organização e planejamento mental. Os traços, linhas e círculos nos incluem e fazem com que o nosso mundinho se encontre com os de outros. Que venham coloridos ou preto-branco! Que revelem o nosso interior, nossos sentimentos, nosso desejos. Viva a inclusão dos desenhos!



Sobre o Blogueiro

Alma Inclusiva

Nice Bulhões é jornalista, disléxica e mãe azul. Pantaneira, nasceu em Corumbá (MS) e mora em Campinas (SP) há mais de 20 anos. Passou por redações de jornais impressos nos dois estados e atualmente faz assessoria de imprensa. No blog, trata de assuntos referentes a todas as formas de inclusão.


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