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A latinha e a telinha podem fazer um campeão de votos

As novas gerações de comunicadores especializaram-se em atacar os bandidos, quase sempre ignorando os direitos humanos, e em denunciar buracos nas ruas

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Na lata

Às próximas eleições municipais devem concorrer muitos radialistas e apresentadores de televisão em Ribeirão Preto, onde rádio e tevê de "horário pago" são trampolins para quem quer "se sacrificar pelo povo". 

Os primeiros que se elegeram "falando na latinha", conforme a gíria dos velhos tempos, faziam esquetes radiofônicos entre o policialesco e o satírico, atazanavam os prefeitos do "outro lado" e distribuíam cadeiras de rodas e outros mimos, além de afagos pelo microfone às "donas marias" que pediam música e davam votos.  

Alguns chegaram à deputação, palavra que o Aurélio aceita, pois ainda não consagrou deputança nem deputaria, esta, por enquanto só a terceira pessoa do futuro do pretérito do verbo deputar, embora possa insinuar um tipo de comportamento político bem conhecido por essas bandas. As novas gerações de "comunicadores" especializaram-se em atacar os bandidos, quase sempre ignorando os direitos humanos, e em denunciar buracos nas ruas. Como em tudo, há exceções. 

Não se pode dizer que a história se repete como farsa, porque em Ribeirão Preto sempre foi farsa. Nesses canaviais a mídia eletrônica continua mais forte do que os partidos. A "latinha" e a "telinha" podem fazer um campeão de votos em poucos meses. A militância política, digamos, mais social, às vezes nem em uma vida consegue reconhecimento nas urnas. 

A "coincidência": os políticos midiáticos geralmente são de direita. O que é um oportunismo esperto: a massa dos eleitores, composta pela periferia social, não está preparada para um discurso mais profundo sobre sua própria condição. Além disso, a cidade é conservadora, moralista e gosta de repetir a farsa. Basta lembrar quantas vezes elegeu Gasparini, Nogueira e, para confirmar, os filhos deles. Assim outros pais, tios, sobrinhos e primos que formam uma "comunidade política" com raízes em todos os "clubes sociais" - onde se combina quase tudo. 


Sem saída

O modelo eleitoral que elege vereadores fracassou. Até o golpe de 64 a política municipal era "ideológica". Na Câmara havia debate, com representantes à direita e à esquerda e os que ficavam em cima do muro. Com a ditadura eliminou-se a ideologia e implantou-se o fisiologismo. Passaram a predominar os caciques que obedeciam a grupos interessados em vantagens obscuras. Só para citar dois dos últimos mais destacados presidentes: Cícero, o que se julgava eterno, e Walter Gomes. 

A cidade inchou e o populismo prevaleceu. É pouca a possibilidade de reconhecimento de serviços comunitários. Elegem-se os que melhor se comunicam e conseguem entrar em áreas suscetíveis de manipulação, sem constrangimento nem pudor de fazer todo tipo de aliança.
Não há representação de classe - a não ser a dos endinheirados, que sabem o que exigir dos que merecem seus votos (e eles fazem por merecer). Os pobres, as categorias profissionais mais sofridas e os excluídos de quase tudo, ficam à mercê da lábia midiática ou são controlados por grupos mais ou menos escusos, quando não abertamente criminosos: traficantes. 

No Brasil atual isso não mudará. A política está corrompida e obriga os que não se corromperam a conviver com a dubiedade do sistema. O risco maior é que todas as mudanças propostas favorecem o corporativismo dos mais fortes.
 

Ventania

Se a injustiça o atropela,
ao sentir-se fraco, sem alento,
previna-se e tenha cautela:
viva bem cada momento
para não cair na esparrela
de combater moinhos de vento. 


E se for tufão?

"Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de ventos". (Érico Veríssimo, 1905-1975)

 
*a opinião do colunista não representa, necessariamente, o posicionamento do ACidade ON

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