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Ex-alunas resgatam histórias do Patronato Madre Mazzarello

Ex-alunas se reúnem para resgatar, em livro, as imagens e as histórias do Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello, em Ribeirão Preto

| ACidadeON/Ribeirao

 
 
Indignadas com a falta de informações sobre o Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello, construído em 1938 em Ribeirão Preto, ex-alunas do colégio se uniram para produzir um livro de lembranças e histórias. 

O local deixou de existir há 48 anos, mas seu legado permanece presente na lembrança de ex-alunas. O Patronato fazia parte da ação proposta pelo Vaticano em dar apoio aos imigrantes italianos que chegavam às centenas no início do século XX. 

O livro leva o título "As Senhoras que Usavam Modestino", vestimenta que marcou a memória das alunas. Sem explicação no dicionário, modestino se refere a uma tala branca, parte do traje preto das irmãs salesianas, com o intuito de esconder suas formas físicas. 

Com 160 fotos, o livro contém diversos relatos de nove ex-alunas: Regina Marques, Carmen Rinhel, Clélia Manzolli, Edna Alioti, Lúcia Gavaldão, Lúcia Salles, Maria Luiza de Oliveira, Marisa Noguchi e Marta Selistre, que não foram nomeadas nas histórias com suas lembranças, mas receberam os créditos de colaboradoras.   

"Não era tudo de uma só, as histórias eram de várias alunas e de várias meninas", justifica a principal autora do livro e estudante do colégio de 1961 a 1968, Regina Marques. 
 
Redes sociais 

A união das ex-alunas, a maioria estudantes das décadas de 1950 e 1960, aconteceu através das redes sociais. Um grupo criado no Facebook e outro no aplicativo WhatApp reuniu em torno de 100 mulheres cada, restabelecendo um contato perdido na infância.   

"Como todas eram conhecidas pelo sobrenome foi fácil de achar, a maioria tem pais e parentes que ainda moram nos Campos Elíseos, onde ficava localizado o Patronato, então ficou fácil mesmo elas tendo se casado, mudado de nome", conta uma das ex-alunas, de 1962 a 1969, que contribuiu para o livro, Lúcia Gavaldão.  

Com a indagação presente, deu-se início às buscas. "A gente não tinha uma ideia da realidade que aconteceu, porque foi que fechou. Tentamos pesquisar em Ribeirão Preto, olhar nas bibliotecas se tinham alguma coisa na história, no Arquivo Municipal e não achamos nada. Raramente algum livro citava um orfanato Madre Mazzarello, que nem era a realidade, porque não era um orfanato", afirma Regina. 

Após uma série de pesquisas, foi descoberto que na Inspetoria Salesiana, sediada no colégio Santa Inês, na cidade de São Paulo, haviam arquivos guardados. Fotos e relatórios enviados a Roma sobre o colégio foram recuperados por Regina, que se deslocou três vezes até a capital paulista para realizar a pesquisa completa.   

"Estavam em italiano e uma das irmãs me deu certo apoio, pois eu não consegui entender tudo direitinho", conta. Conversando também com professores, como Ítalo Bernardes, que dava aulas de Matemática, foi possível estabelecer desde a vinda das irmãs a Ribeirão Preto, em 1905, até a criação do colégio e o motivo do seu fim, nos anos 1970, devido à falta de recursos para manter o colégio funcionando e na baixa de alunas, que se mudaram para escolas públicas durante o regime militar.

Pesquisa e redação 

Após um ano de pesquisa e seis meses de redação, uma das maiores dificuldades para se entrelaçar as histórias foi a mudança de nomes das ruas daquela época até os dias atuais, tornando mais trabalhosa a clareza e compreensão dos documentos. 

O financiamento do livro veio do bolso das próprias alunas, que bancaram seus exemplares e poucas cópias para serem enviadas à Inspetoria Salesiana de São Paulo.   

No lançamento, diversas alunas se reuniram onde o Patronato existiu, na esquina das ruas Capitão Salomão e João Ramalho, espaço que hoje pertence ao Centro Universit[ario Moura Lacerda, que ainda preserva as características do prédio apesar das alterações pelas necessidades da instituição. "O encontro foi uma grande alegria, foi como se o tempo tivesse parado. A gente se sentiu criança de novo", afirma Lúcia.  

Nas redes sociais, os grupos viraram agenda para marcarem encontros. "Virou um grande grupo de autoajuda com aquelas que já são viúvas e não tem os filhos em casa, para evitar a síndrome do ninho vazio", conta Regina. "Agora fazemos cafezinhos, vamos à padaria, tomamos sorvete. Somos novas velhas amigas", define Lúcia.    

Educação de qualidade 

Os reencontros gerados pelo livro fizeram com que as ex-alunas relembrassem a educação e como ela contribuiu para os dias atuais. "Para você ter uma ideia, tivemos uma educação tão boa que hoje em dia temos várias dentistas, médicas e enfermeiras, cientistas que moram no exterior. A maioria também se tornou professora, que foi o grande legado que elas (as salesianas) acabaram deixando", conta Regina, que se formou em comunicação social e trabalhou como professora de música.   

Entre a diversidade, um fator comum. "A maioria das ex-alunas ainda participa de trabalhos voluntários e todas de alguma forma trabalham com gente, todas tem o fator de gostar de relações humanas, de saber lidar com a comunidade", comenta Lúcia, que se tornou psicóloga.    

O início 

O Patronato foi fundado em 1938 por duas freiras salesianas, que chegaram em Ribeirão Preto em 1905. No início, oferecia o jardim de infância. Depois surgiram as aulas de corte, costura, tricô e bordados para jovens senhoras que moravam em torno do colégio.   

Em 1944, recebeu a licença para abertura do curso primário. Graças ao apoio da comunidade e de contribuintes, foi possível a construção de mais salas e ampliação do terreno. Em 1952 o Patronato já era estruturado para também receber o ensino elementar. Em 1964 iniciou-se o curso ginasial. No Patronato, os pais das alunas contribuíam com o valor que podiam pagar.   

Mas com o início do curso ginasial, foi necessária a contratação de professores para matérias específicas. Em muitos casos, algumas irmãs eram transferidas a cidades onde salesianas administravam faculdades, para que pudessem frequentar um curso universitário. O colégio chegou a ter 659 alunas em 1965.
 
Lembranças de um tempo bom 

Mesmo com uma educação rigorosa, não deixavam de acontecer algumas "travessuras" das meninas. Praticada por muita delas, na época da minissaia, as estudantes enrolavam as saias que iam até as canelas para ficarem acima do joelho e disfarçavam com a blusa do uniforme, para poder passar pelas centenas de meninos que ficavam à espera na entrada e saída do Patronato. Invadir a clausura onde as irmãs ficavam também erauma das peraltices.   

"Nós nos perguntávamos se elas tiravam as roupas para tomar banho, se elas eram carecas. Algumas tentavam até puxar o véu para ver como era. Quando entravam viam que os quartos tinham apenas camas com véus antigos, nada demais. Mas como era tudo muito reservado, causava um mistério para a gente", relembra Regina. Nos anos 1960, com os protestos em praças públicas onde se queimavam sutiãs, as meninas do Patronato não ficaram de fora.   

"Elas pegaram o sutiã grande de uma tia e pregaram no mastro da bandeira e levantaram o sutiã lá em cima. Quem foi a primeira pessoa a ver? O professor Ítalo, de matemática", conta Regina. 
 
O fim 

Em 25 de novembro de 1970, as irmãs convocaram os pais das estudantes avisando que o Patronato iria fechar. Os dois principais motivos foram a situação financeira e o número reduzido de alunas. Com a criação das escolas públicas no regime militar, muitos pais deixaram de pagar o valor que podiam para não pagar nada com a educação pública.   

O número de estudantes foi diminuindo e os gastos com a estrutura permaneciam os mesmos. Mesmo com a tentativa de alguns integrantes da comunidade, monge, arcebispo e irmãs da Inspetoria do qual o colégio pertencia de manter o Patronato na ativa, em 1971 tiveram apenas três novas inscrições e muitas não renovadas, quando os pais alegavam problemas financeiros e optavam por transferir as filhas para escolas públicas. Em dois anos, de 650 alunas, o número caiu para 250. 
 
(Bruna Zanatto, com supervisão de Angelo Davanço)

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