Aguarde...

cotidiano

Com medo da China, família desvia para os EUA e acaba presa no epicentro da pandemia

| FOLHAPRESS

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A família de Ana Lúcia Lico estava de férias no Vietnã quando decidiu que não voltaria para casa, em Pequim.A brasileira tinha se mudado para a China com o marido e os dois filhos americanos em agosto de 2019 e tentou agir rápido quando a potência asiática começou a anunciar restrições por causa do coronavírus.Era fim de janeiro e, segundo as autoridades chinesas, já havia cerca de 570 pessoas infectadas e pelo menos 17 mortes por Covid-19 no país.Aos 51 anos, Ana Lúcia diz que só entendeu a gravidade do cenário quando as escolas chinesas anunciaram que não retomariam as aulas até segunda ordem.Só com roupas de verão na bagagem, mudou as passagens e a rota da família para o inverno de Washington, capital dos EUA, onde havia morado com o marido por 16 anos.Foi encorajada pelos relatos dos amigos na China. Eles descreviam o fechamento do comércio e regras rigorosíssimas de isolamento social, enquanto o lado americano ainda estava nas ruas, com número de casos registrados na ordem de dezenas e nenhuma morte confirmada até então."Não passava pela nossa cabeça que aconteceria nos EUA o que estava acontecendo na China", diz a brasileira.O plano era ficar na região de Washington até a situação melhorar do outro lado do mundo e, então, voltar a Pequim. "Achamos que seria coisa de duas semanas."Nesta segunda-feira (18), Ana Lúcia e família completam 106 dias sem poder sair dos EUA, enquanto o país já contabiliza mais de 1,4 milhão de casos e quase 90 mil mortes por Covid-19.A China, por sua vez, registra 84 mil diagnósticos e 4,6 mil vítimas, segundo dados oficiais.Na semana passada, os chineses começaram a relaxar as regras de isolamento diante da aparente redução da curva de transmissões.As fronteiras entre EUA e China, porém, seguem fechadas e, apesar de diversos estados americanos já terem retomado parte das atividades, especialistas alertam que a reabertura precoce e sem o índice de testagem desejado pode causar uma segunda onda de contágio.Ana Lúcia diz que mudar os planos é quase rotina na sua família, mas que, apesar das dificuldades e projeções negativas, prefere cumprir a quarentena nos EUA."Na China o sacrifício não é cronológico, é de carne, de espírito. Nos EUA, temos mais recursos, acesso livre à internet [a China bloqueia sites como Youtube e redes sociais], conhecemos mais pessoas e temos uma rede de amigos para acionar mesmo a distância. Me sinto mais segura."A família se mudou para Pequim no ano passado, após o marido de Ana Lúcia, Tim Bickham, receber proposta para dirigir na cidade um escritório da empresa em que trabalha.Com 51 anos, ele é advogado especialista em propriedade intelectual e acredita que ganharia mais projeção se morasse em território chinês. Mas precisou convencer a mulher. Pela segunda vez.O casal se conheceu em um congresso no Rio de Janeiro, no fim da década de 1990.Depois de um período de namoro a distância e uma primeira visita a Washington na véspera do 11 de Setembro de 2001, Ana Lúcia se mudou para os EUA um ano e meio depois, já grávida do primeiro filho.A mudança brusca não era seu projeto inicial e, quase 20 anos depois, ela afirma que não queria repetir o roteiro para um país ainda mais longe de seus pais, que vivem no Brasil.A negativa a Pequim também foi a primeira reação dos filhos, Gabriel e Lucas, mas todos acabaram mudando de ideia após uma visita à cidade em abril do ano passado."Não queria me mudar para a China de jeito nenhum, mas, quando a gente viu a escola e o bairro em que iria viver, mudei de ideia", conta Lucas, 13, em português fluente.Gabriel, 16, acrescenta que a ideia de aprender uma nova --e terceira-- língua o anima, mas, ao contrário dos pais e do caçula, preferia passar a quarentena em Pequim."Quando os EUA começaram a ficar pior do que a China em números de casos e óbitos, pensei se não seria melhor voltar para a China, já que lá o número de casos estava melhorando. Meus amigos já estão liberados para se encontrar, e as atividades do dia a dia estão voltando pouco a pouco por lá", diz Gabriel.A família está vivendo na casa em que costumava morar em Alexandria, a aproximadamente 10 km do centro de Washington, e que estava sob cuidados de uma amiga até então.As crianças têm seguido aulas online da escola internacional que frequentavam em Pequim --a instituição deve manter o formato mesmo quando reabrir as instalações, justamente para alunos que estão impedidos de entrar no país devido às restrições da pandemia.Tim tem trabalhando de casa e não teve sua renda afetada. Até o fim de 2018, Ana Lúcia era diretora-executiva da Abrace (Associação Brasileira de Cultura e Educação), instituição dedicada à promoção e integração da comunidade brasileira nos EUA.A família pretende retornar a Pequim quando as viagens entre EUA e China forem normalizadas e, então, se preparar para a rotina ainda desconhecida sob o tal novo normal pós-pandemia.Tim acredita que a quarentena o ensinou a importância do contato físico, pouco usual entre americanos, e faz uma projeção para os próximos meses que soa quase como torcida para quem vai viver como expatriado."Quando voltarmos a Pequim, acho que as pessoas terão mais noção de comunidade e também darão mais importância ao relacionamento com quem convivem diariamente."

Mais do ACidade ON