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    A Economia da Cultura em Tempos de Coronavírus

    Os setores ligados a Cultura e às Artes estão entre aqueles mais afetados pelas medidas sociais necessárias para conter a pandemia que assola o globo.

    | ACidade ON

    05/04/2020 - por Renato Musa 

    Juntamente com os demais setores intensivos em pessoas, como educação, saúde e turismo, a cultura sofre mais diretamente os efeitos das restrições a aglomerações, eventos, contato social. O cenário é assustador, para dizer o mínimo. Mas a demanda por conteúdo original, especialmente se tiver qualidade, continua e há oportunidades agora e depois de passada a quarentena. 

    Algumas instituições, especialmente aquelas ligadas a governos, estarão mais protegidas neste período, pelo menos no que concerne à folha de pagamentos e custeio. A programação e as ações temporárias ou pontuais devem sofrer cortes e cancelamentos. Há risco maior quando se tratar de contratos de gestão, uma vez que os repasses podem ser contingenciados para compensar as perdas tributárias que os governos devem sofrer, além de remanejamento dos recursos para estruturas de saúde e atendimento social direto. Então, vai todo mundo colocar as barbas de molho. 

    As micro, pequenas e médias empresas do setor que representam provavelmente a totalidade das empresas de cultura devem sofrer pesadamente. O encerramento, cancelamento e adiamento de projetos, programas e obras, simplesmente elimina receitas presentes e futuras e o capital de giro é curto, quando existente. As empresas já estão com sua estrutura de custos muito apertada, então é importante neste momento cortar o que ainda não foi cortado, tentar renegociar os contratos com fornecedores e colaboradores, e ficar atento às ofertas de capital de giro barato ou investimentos diretos que devem surgir do governo. 

    Não é hora para desespero. É fundamental manter a calma, aguardar as possíveis medidas dos governos federal e (mais provavelmente) estaduais e municipais no tocante a injeção direta de recursos, e buscar novas fontes de receita, por menores ou mais trabalhosas que possam parecer. É um momento de criatividade nos negócios também. Buscar oportunidades, adaptar os formatos e preservar a criação de conteúdo como motor principal da vida cultural. 

    Incentivo Fiscal - A queda abrupta no lucro das grandes empresas investidoras, além da incerteza e da aversão extrema a novos riscos no futuro imediato, deve esmagar a oferta de investimentos via incentivo fiscal, isto se a disponibilidade dos governos em oferecer tais incentivos não sumir primeiro. Inclusive contratos já negociados podem sofrer alterações, pela mudança brusca no planejamento das empresas. 

    Se você tem contratos incentivados em aberto, com valores não recebidos, fique atento e tente negociar a troca por verba direta, oferecendo novas contrapartidas. Seja criativo! Os argumentos mais importantes aqui são 1) a continuidade da parceria e a maior flexibilidade no uso da verba direta; e 2) o impacto socioeconômico da sua ação cultural, gerando empregos e renda nos locais de sua ação cultural. 

    Contratos de Trabalho - A esmagadora maioria dos contratos de trabalho no setor está fora da relação de vínculo empregatício. Quer dizer que as primeiras medidas provisórias que vem aparecendo (e desaparecendo) a respeito do tema pouco afetam a Cultura. Nas Escolas e Organizações Sociais de Cultura o contrato de trabalho (CLT) é bastante comum e a recomendação nesses casos é de espera, observação e estudo. Não cabe tomar decisões de imediato. Primeiro por conta da confusão e indecisão por que passa o governo federal, completamente atordoado diante do problema. Em segundo lugar, por que o Presidente e a equipe econômica terão que liderar e negociar, e não parecem ter a menor noção de um nem de outro. Por último, por que simplesmente o tamanho da pancada ainda não está determinado. Quanto tempo ficaremos em suspenso? Como será a "reentrada"? Tudo muito indefinido. Não é hora de decisões intempestivas nem de pânico. 

    Oportunidades - Os governos federal, estaduais e municipais deverão criar soluções de reaquecimento da economia. Isto está na pauta dos economistas, com diferentes soluções técnicas para a origem dos recursos que serão empregados. Também tenho conversado com importantes atores do investimento social privado a respeito de fundos privados investirem emergencialmente na Cultura, mas a prioridade neste momento o "top of mind" é investir na saúde. 

    O momento é, insisto, de colocar o carro na "banguela" e estudar os cenários possíveis e suas opções de ação. Como sugestão, duas palavras: "educativo" e "digital". A educação, tanto a estatal quanto a privada, têm mais recursos e será prioridade na retomada. É, portanto, uma oportunidade de criar ações e programas voltados para as áreas de formação cultural e oferece-las às escolas. O mundo digital ganhou muita importância e relevância e as grandes instituições tem aproveitado para divulgar seus tours virtuais ao mesmo tempo que oferecem alternativas para atividades em casa, capturando novos públicos e, quem sabe, "formando plateia". Mas há ainda uma grande oportunidade na produção e oferta de conteúdo via internet, inclusive na criação de novos formatos artísticos e de interação com o público. Lembre-se de que as empresas e instituições de cultura são, essencialmente, criadoras e produtoras de conteúdo. E a internet é nada mais que um veículo acessível e barato de distribuição. E agora está na moda. A bilheteria talvez esteja de volta, com outro figurino. 


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