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Mundo dos Bichos

CIÊNCIA

A clonagem de animais extintos

Nossa chance de reparar os estragos já causados ou um passe livre para novas e mais ostensivas investidas ao meio ambiente?

| ACidade ON

 

 

Que os elefantes são animais fantásticos ninguém duvida.   

Mas os mamutes, seus parentes mais próximos, não ficam para trás! Os mamutes (Mammuthus primigenius) foram animais muito parecidos com os elefantes, porém apresentavam grandes marfins e corpo coberto por pelos muito longos. Extintos há alguns milhares de anos, eles habitaram quase todos os continentes, exceto Austrália, Antártica e América do Sul (no Brasil, as formas mais próximas aos mamutes são os mastodontes Stegomastodon e Cuvieronius). 

Muito provavelmente, o ser humano não só os conheceu, como caçou e se alimentou de muitos mamutes, conforme indicam algumas pinturas rupestres e restos de ossos com marcas de ferramentas humanas.  

Foto: divulgação
Outro aspecto interessante desses animais é que muitos deles foram congelados logo após sua morte, tendo sua pele, músculos e outros tecidos moles preservados.  

Esse tipo de preservação é incomum, já que logo depois da morte de um animal (ou de qualquer ser vivo), o processo de decomposição se inicia, transformando a matéria orgânica que formava o organismo em minerais e gases, liberados no solo e na atmosfera. O que acontece com os mamutes é que alguns foram congelados imediatamente após sua morte, e a baixa temperatura impediu que as bactérias e os fungos se proliferassem. 

Assim, alguns mamutes podem ser encontrados intactos (ou muito bem preservados) sob camadas de neve ou gelo em regiões próximas ao Polo Norte, como a Sibéria, na Rússia.  

Em 1977, uma equipe de pesquisadores encontrou o que viria a ser o primeiro mamute congelado estudado pela ciência moderna: uma fêmea jovem, de 7 a 8 meses de idade, carinhosamente apelidada de Dima. As descobertas não pararam por aí e, 11 anos depois, mais um animal foi encontrado, batizado de Mascha. Em 2007, um filhote foi encontrado em excelente estado de preservação. Seus tecidos e órgãos estavam tão bem preservados que os cientistas puderam encontrar restos de alimentos no interior do seu estômago. Lyuba, como foi chamado o bebê mamute, é um dos fósseis mais famosos do mundo.   

Em 2012, foram encontrados Yuka e Zhenya e, em 2013, uma nova descoberta pode trazer novos avanços no estudo desses fabulosos animais. 

   

Em maio de 2013 a equipe do pesquisador Semyon Grigoryev, da Universidade Federal do Nordeste (em Yakutsk, Sibéria oriental), descobriu sob o gelo da região de Novosibirsk, no norte da Rússia, um exemplar de mamute tão bem conservado que foi possível extrair alguns mililitros de seu sangue, outrora congelado. Esse achado promete dar o que falar, já que pesquisadores de várias regiões do mundo estão interessados em utilizar o DNA extraído do sangue desse espécime para criar o primeiro mamute clonado e trazer a espécie extinta de volta à vida.  

Clonagem de animais  

A clonagem de animais extintos já é um assunto conhecido do público, graças aos filmes da franquia Jurassic Park, que chegavam às telas dos cinemas de todo o mundo há exatos 20 anos. A história começa com um grande e ambicioso empreendimento: clonar dinossauros a partir de fragmentos de DNA encontrados em gotículas de sangue ingeridas por pernilongos preservados dentro de âmbares (resinas vegetais fósseis).  


  

O filme Jurassic Park retrata a clonagem dos dinossauros a partir do sangue retirado de um pernilongo preservado em âmbar, o mesmo processo que viabilizou a extração do sangue em estado líquido de um mamute encontrado na Rússia.

Ovelha Dolly  

A clonagem de animais domésticos, por sua vez, já é uma realidade desde o projeto que culminou no nascimento da ovelha Dolly, um marco nos estudos de Genética e Biologia Molecular. Dolly é um ícone do poder humano de transformação da natureza.

Talvez nenhum outro fato tenha sido tão importante para geneticistas e biólogos moleculares desde a descoberta de James Watson e Francis Crick, há 60 anos, de que o DNA é o material genético de todos os seres vivos (alguns vírus são excluídos dessa premissa!).

A morte de Dolly, em 2003, não significou um retrocesso nos estudos dos clones, em absoluto. Muitos outros foram "produzidos" desde então, e a promessa de trazer novas espécies de volta à vida está cada vez mais perto de tornar-se realidade.

Em 2012, o último exemplar da Tartaruga de Galápagos da Ilha Pinta (Chelonoidis nigra abingdoni), conhecido pela triste alcunha de George Solitário, morreu sem encontrar uma parceira para reproduzir-se. Sua espécie sofreu um declínio populacional desde a descoberta das Ilhas Galápagos por navegadores europeus.

O mesmo aconteceu com os Dodôs (Raphus cucullatus) das Ilhas Maurício.

A emblemática ave teve seu último espécime morto em 1681, por marujos que cruzavam o Oceano Índico na famosa rota marítima em direção à Ásia.  


© FOTO / PUBLIC DOMAIN / BAKER; E.J. KELLER Dois tigres-da-tasmânia, macho e fêmea, no Zoo Nacional em Washington, 1902

Inúmeras espécies, como o Tigre da Tasmânia, a Vaca Marinha de Steller, o Quagga e até mesmo o Rinoceronte Negro, recém-extinto em 2013, poderiam ser reintroduzidas na natureza pelos humanos.  

E mais: outras espécies, extintas graças à civilização humana, poderiam também ser "ressuscitadas".

Estes, por sua vez, se redimiriam de sua truculência à Mãe-Natureza devolvendo as espécies que lhe foram tiradas. Porém, a clonagem de animais extintos esbarra em diversos argumentos contrários, desde éticos até religiosos. O principal deles, ecológico, diz que não se pode contabilizar possíveis danos que as espécies outrora extintas poderiam causar nos ecossistemas recentes.  

Em outras palavras, trazer os mamutes de volta à vida não poderia levar os animais atuais (como renas e caribus) à extinção?

O debate científico em torno da questão é acirrado. Alguns entusiastas opinam que não há razões para não recriar os mamutes.

E a vegetação local, como reagiria?

Ainda há muito o que ser debatido nesse âmbito, e trazer a discussão para a esfera social pode render bons frutos. 

Nós, cidadãos, precisamos parar para pensar no futuro das espécies do nosso planeta, baseando-nos nos registros passados. Extinções sempre existiram e sempre existirão no Planeta Terra, mas qual é a extensão do impacto da ação humana nas populações de animais selvagens?

Há um limite?

Clonar animais extintos seria a nossa chance de reparar os estragos já causados ou seria um passe livre para novas e mais ostensivas investidas ao meio ambiente? Podemos determinar o futuro das outras espécies?

Esses são questionamentos que devem vir à tona antes que se decida pela reintrodução ou não de animais extintos na fauna atual.

Texto: Heitor Francischini - biólogo formado pela UFSCAR e mestrando em Geociência (Paleontologia) pela UFRGS