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Especialistas dizem que proibição de flanelinhas não resolve problema

Especialistas dizem que proibição pela Justiça, em fase de execução de sentença, não resolve o problema

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Decisão judicial exige que Prefeitura e Governo do Estado proíbam atuação de guardadores de veículos (Foto: Weber Sian / A Cidade - 22.jul.2017)


Apesar da decisão judicial que manda a Prefeitura e o governo do Estado proibirem a atuação dos guardadores de veículos nas ruas, a questão ainda está longe de ser resolvida em Ribeirão Preto.  

A Prefeitura declarou que a Secretaria de Negócios Jurídicos está avaliando a sentença e qual a parcela da administração municipal e do Estado no cumprimento da decisão. Admitiu que sequer fez um censo dos flanelinhas e que a legislação municipal vigente está incompleta.  

A Polícia Militar, por sua vez, afirmou que realiza "tratativas com o Ministério Público e com a Câmara Municipal para regulamentar a atuação dos policiais na fiscalização dos flanelinhas". O sociólogo e cientista político Fábio Pacano considera que a proibição da atividade não vai resolver o problema. "É uma perda de tempo". 

Enquanto isso, o motorista segue à mercê dos flanelinhas nas ruas. Segundo relatos de condutores, há lugares, como no entorno do estádio do Comercial, que o preço é fixo e o motorista tem que pagar adiantado: R$ 5.  

Estima-se que haja mais de 500 guardadores de veículos hoje na cidade, mas só 16 flanelinhas estão legalizados o restante atua na clandestinidade.  

Lucivaldo Aquino Moraes, 43, trabalhava como pedreiro e ficou desempregado. Após conseguir poucos bicos na área, começou a atuar como guardador de veículos há dois anos.  

Hoje, ganha mensalmente R$ 1,5 mil com a atividade, e parte do rendimento é enviada para a família mulher e três filhos que mora em Belém (PA).  "Consigo mandar entre R$ 20 e R$ 30 por dia para eles. Quero arrumar mais dinheiro para ir embora e voltar para a minha terra. Estava construindo uma casa lá e tive que parar porque o dinheiro acabou." 

Lucivaldo fica de segunda a quinta-feira na Praça das Bandeiras, no Centro. Revende talões da Área Azul a R$ 2,50 cada. Além disso, pede mais R$ 1 de ajuda. "Não obrigo ninguém, peço se a pessoa quer me ajudar."  

Às sextas, sábados e domingos, cuida de veículos na rua Tibiriçá, ao lado da praça da Catedral. "Trabalho todo dia. Quando tenho dinheiro, pago pensão. Quando não tenho, durmo na rua."  

A decisão judicial que proíbe o trabalho dos flanelinhas preocupa Lucivaldo. "Muitos podem migrar para o crime, vai bater o desespero. Teriam que nos cadastrar para ficarmos regularizados."   

Uebederson Amaral da Silva diz não se sentir à vontade no ofício (Foto: Weber Sian / A Cidade)

Não estou aqui porque quero, é como pedir esmola  

O desemprego bateu à porta de Uebederson Amaral da Silva, 26, há pouco mais de dois anos, após ele trabalhar por seis meses como servente de pedreiro na construção do prédio de um supermercado de Ribeirão Preto. O salário na época, relembra, passava de R$ 1 mil.  

"Depois que acabou a construção tentei uma vaga no mercado, mas não consegui. Entreguei vários currículos para trabalhar como servente de pedreiro, ajudante geral, auxiliar de limpeza e estoquista em outros lugares, mas não consegui nada", afirmou.  

Sem emprego, começou a trabalhar como flanelinha na rua Casemiro de Abreu, no Jardim Sumaré (zona Sul). Ele diz não se sentir à vontade no ofício. "Tem dia que sei que vou almoçar, tem dia que não sei. Infelizmente não estou aqui porque quero, é vergonhoso, é como pedir esmola. Já me falaram para eu ter vergonha na cara e conseguir um serviço decente. Mas não está tendo emprego, então a gente apela para isso", lamenta.  

Por mês, contabiliza um rendimento de R$ 400, valor utilizado para ajudar a família. Sobre a decisão judicial que ordena a retirada dos flanelinhas das ruas, Uebederson lamenta. "Precisam fazer o contrário, olhar mais para a gente, nos darem um crachá com identificação, separar por região", conclui.  

Lucivaldo é guardador de veículos há dois anos e defende regularização (Foto: Weber Sian / A Cidade)

Sociólogo defende a capacitação de guardadores

O sociólogo e cientista político Fábio Pacano considera que proibir a atuação dos flanelinhas está longe de solucionar o problema. "Quanto mais são excluídos, mais eles vão forçar a barra para se incluir, podem mudar de lugar, voltar a praticar pequenos delitos. Sem comer é que não vão ficar. A proibição seria uma bobagem, uma perda de tempo."  

Pacano defende que seja feito um trabalho de diagnóstico, cadastro e regularização dos flanelinhas de início. "Com isso eles voltam a se sentir cidadãos, recolhem ISS [Imposto sobre Serviços]", pontuou. O sociólogo sugere que os flanelinhas sejam capacitados e uma das alternativas seria, por exemplo, empenhá-los como guardadores de veículos na Área Azul, sendo que parte da arrecadação obtida com o estacionamento rotativo poderia ser destinada a eles.

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