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Pais denunciam agressões recorrentes em escola municipal

Duas crianças machucam os colegas desde 2017 na Emei Adriana Brandani. Familiares reclamam que direção não dá atenção aos casos, que segundo psicólogo não podem ser ignorados

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Garota de 4 anos mostra marca de mordida que recebeu do colega, no mês passado ela teve ferimentos no rosto (Foto: Arquivo Pessoal)

Pais de crianças da EMEI Adriana Brandani Camilo, no bairro Jardim Ouro Branco, denunciaram à Secretaria de Educação de Ribeirão Preto que dois alunos, de 4 e 6 anos, machucam recorrentemente desde 2017 os colegas com tapas, socos, mordidas, arranhões e arremessos de objetos. Segundo eles, a direção da escola não age para solucionar o problema. Uma garota está, até, com cicatrizes pelo corpo.  

Sérgio Kodato, professor de Psicologia Social da USP e coordenador do Observatório de Violência, aponta que "toda criança tem instintos agressivos, naturais da espécie humana". Entretanto, quando a prática é recorrente, há necessidade de acompanhamento especial.  

"Esse comportamento destrutivo precisa ser estancado e canalizado. Crianças muito violentas podem refletir carência afetiva ou, até, exteriorizarem um pedido de socorro. Isso não pode ser ignorado e muito menos criminalizado, pois elas serão estigmatizadas e rejeitadas no futuro", afirma, alertando que o ambiente escolar não está preparado para o atendimento especializado.  

Apesar de ter 107 unidades que atendem a 41 mil alunos na Educação Infantil e Ensino Fundamental, a rede municipal de ensino conta com apenas um psicólogo na folha de pagamento. Na pré-escola, as unidades não possuem sequer a figura do coordenador pedagógico.  

Stefani de Souza diz que a filha de 3 anos "é sempre agredida" por um dos alunos da EMEI Adriana Brandani. "Não é normal. Ele morde a ponto de arrancar pedaços. Nosso medo é que aconteça algo com sequelas permanentes para nossos filhos", diz.  

Ela afirma que a filha carrega marcas de mordidas que sofreu no ano passado e até agora não desapareceram.  

Andrea Torre tem uma filha de 3 anos que, apenas em 2018, foi duas vezes mordida pela outra criança, no braço e no ombro. Há um mês, ela sofreu um corte no rosto por uma mochila que o colega arremessou.  

"Esse aluno já deu até tapa na cara do professor. Fui duas vezes falar com a diretora da escola, e ela disse que iria conversar com os pais. Na terceira vez, ela simplesmente disse que não havia mais o que ser feito", diz Andrea.  

Segundo Aline Cristina Alexandrino, que tem dois filhos na EMEI, as agressões são quase diárias da dupla. "Ontem mesmo (4), uma criança recebeu uma cadeirada. Isso não pode continuar. Elas precisam de um acompanhamento especial".   

Filha de Andrea se feriu após mochila ser arremessada contra seu rosto (Foto: Arquivo Pessoal)

No mês passado, um grupo de pais foi pessoalmente tratar do tema com a Secretaria da Educação. Eles encaminharam, também, um abaixo assinado pedindo a mudança da diretora da unidade por problemas administrativos, como falha na manutenção da escola e atraso na compra de materiais. Até um incêndio foi registrado este ano (leia mais abaixo).  

Em nota, a Secretaria Municipal da Educação informou "que assim que recebeu as denúncias" pelos pais "iniciou a apuração sobre os problemas apresentados", explicando que as crianças receberam atendimento da psicóloga municipal e foram encaminhadas para a Secretaria da Saúde, "que faz orientação interdisciplinar e também a grupos de pais com objetivo de orientação e apoio".   

Filha de Stefani ainda possui marca da mordida que recebeu (Foto: arquivo Pessoal)

Estrutura
O presidente da Aproferp (Associação de Profissionais da Educação de Ribeirão Preto), Cristiano Floriano, diz que no Ensino Fundamental as agressões são ainda mais recorrentes.  

"Há, até, ameaças de facadas. São necessários mais profissionais para um atendimento individual e especializado dos alunos. Não há nenhuma estrutura de suporte psicológico", aponta Cristiano.  

Segundo Sérgio Kodato, crianças com histórico recorrente de comportamento agressivo precisariam ser submetidas a um grupo de estudo de caso na própria escola, verificando inclusive sua dinâmica familiar.  

"As escolas, de modo geral, não estão preparadas para crianças com necessidade de atendimento especial, e o que é pior: as estigmatizam e rejeitam. Não pode haver criminalização dos episódios de indisciplina, tampouco que sejam automaticamente direcionado para consultórios, esses alunos precisam ser acolhidos e pacificados", aponta.

Críticas
Os pais reclamam que, além das agressões, a escola também sofre com problemas de manutenção e compra de materiais.
Em carta entregue à secretaria da Educação, o Conselho Escolar aponta desde curto-circuito na sala de informática até um incêndio.  

"Com a falta de manutenção, tivemos um episódio de incêndio na casa de bonecas, provocado por um ventilador que travou e superaqueceu, goteiras e infiltrações causadas por telhas quebradas e calhas entupidas, surtos de bicho de areia e molusco contagioso devido ao prazo de validade do tratamento da areia em que as crianças brincam ter se expirado", diz a carta.  

Questionada pelo ACidade ON sobre as reclamações, a prefeitura não se manifestou.