Polícia encolhe e impunidade cresce em Ribeirão Preto

Em dez anos, Polícia Civil de Ribeirão perde 166 homens sem reposição, prejudicando a solução de crimes

    • ACidadeON/Ribeirao
    • Cristiano Pavini
Liliana Ferracini, 45 anos, ainda busca uma resposta para a morte do irmão Mateus Alves da Silva, 30 anos (Foto: Milena Aurea / A Cidade)

 

Sucateada, a Polícia Civil de Ribeirão Preto perdeu 166 policiais sem reposição nos últimos dez anos – 43 apenas de 2015 para cá - encolhendo seu efetivo em 38,3%. Hoje, a corporação conta com apenas 267 membros no município e, com isso, a maioria dos crimes sequer é investigada.

LEIA MAIS

Região de Ribeirão Preto perde 443 policiais em dez anos

Os dados locais foram obtidos pelo A Cidade junto à Secretaria de Segurança Pública por meio da Lei de Acesso à Informação. Segundo o Sindicato dos Policiais Civis de Ribeirão Preto (Sinpol), hoje o déficit no município é de pelo menos 700 profissionais.

A carreira policial que mais encolheu foi a do investigador: eram 154 há dez anos e, agora, apenas 97.

Sem investigadores, a sobrecarga de trabalho aumentou: cada um deles precisaria ter solucionado 175 crimes no ano passado para não deixar criminosos impunes, levando em consideração homicídios, roubos e furtos – uma média de um crime esclarecido a cada dois dias. Em 2007, considerando o efetivo e taxa de criminalidade da época, eram 112 crimes para cada profissional.

“É impossível dar conta da demanda com esse efetivo. Para dar uma satisfação ao menos razoável para a sociedade, seriam necessários mais 350 investigadores e 250 escrivães”, afirma Eumauri Lúcio da Mata, presidente do Sinpol.

Em 2014, A Cidade revelou, com base em dados oficiais, que apenas 6% dos roubos e 3,6% dos furtos foram esclarecidos no município em um intervalo de 16 meses. Nesse período, 11,6 mil roubos e 35,7 mil furtos sequer foram formalmente investigados por meio de abertura de inquérito.

Crimes selecionados

Policiais ouvidos sob anonimato assumem que precisam ignorar a maioria dos boletins de ocorrência e focar apenas em um seleto grupo de crimes de maior potencial, como homicídios e roubos violentos.
“Como vamos investigar uma casa arrombada se temos uma equipe inteira dedicada ao assalto da Prosegur, fazendo até campana em outros estados?”, disse um deles.

Queda livre há dez anos

A última vez em que o efetivo da Polícia Civil de Ribeirão Preto aumentou foi de 2006 para 2007, quando a corporação passou de 419 para 433 profissionais. Desde então, a queda é contínua ano a ano. Em 2013, A Cidade obteve os dados junto à SSP por meio da Lei de Acesso à Informação, mas o órgão colocou o efetivo sob sigilo a partir de setembro do mesmo ano, com sucessivas negativas de resposta. Desta vez, porém, o pedido foi atendido.

‘A morte do meu irmão precisa ter um final’

“O que mais dói é não poder falar que a Justiça foi feita”. Liliana Ferracini, 45 anos, ainda busca uma resposta para a morte do irmão Mateus Alves da Silva, 30 anos, Batata, assassinado com nove tiros quando saia de um bar no bairro Simioni em 4 de maio de 2015.

O crime foi sentido em toda a região Norte: Mateus seria ligado ao crime organizado e foi apontado como braço direito de Nenê do Simioni.

No dia seguinte à execução, lojas e escolas fecharam as portas e um ônibus foi queimado em represália ao crime. “Na família ele foi sempre o Mateus, filho e irmão carinhoso. Nunca chamamos ele de Batata. Parece que vivia em dois mundos, e nunca misturou isso com a gente”, diz Liliana.

À época, foram várias as possibilidades para a morte: desde briga pelo poder no crime organizado até motivo fútil.

A Polícia Civil, porém, arquivou o inquérito sem apontar autoria.Mateus foi baleado por um homem que estava em um veículo cor prata, com ao menos outra pessoa no interior. “Sequer sabemos o motivo pelo qual ele morreu. Meu pai tem 71 anos e minha mãe 72, eles mais do que ninguém merecem uma resposta. Na época falaram muita coisa, muita mentira, e tudo o que queremos é a verdade”, lamenta Liliana.

Mateus era o caçula dos seis filhos biológicos do casal. A irmã diz que, sem a resposta, a dor não cessa. “Precisamos ter um final. Isso não pode ficar em aberto”.

Joana espera há 3 anos prisão de assaltantes

Quatro homens passaram por debaixo do portão quando a família de Joana (nome fictício), guardava o carro na noite de julho de 2014.

Armados com revólver, eles renderam a família por 40 minutos, enquanto levavam os pertences da residência localizada na zona Norte.

À época com 50 anos, Joana sentiu o revólver encostar na sua cabeça por diversas vezes. Além dela, o marido e a filha foram ameaçados de morte.

Foram levados R$ 38 mil entre joias e equipamentos eletrônicos, mas o seguro só ressarciu R$ 8 mil. “O problema não é o prejuízo financeiro, mas o medo que fica”, diz Joana.

A família foi três vezes à delegacia tentar reconhecer os criminosos, mas a Polícia Civil não conseguiu localizá-los à época.

Por conta do medo, reforçado pela impunidade, a família agora quer se mudar da casa. “Moramos nela há 28 anos, mas não é mais possível. Ficamos reféns dentro dela”, diz Joana.

Outra vítima de roubo à mão armada na residência, sofrido em maio de 2015 na zona Leste, diz ter perdido R$ 20 mil em bens – nunca mais recuperados.

Depois do crime, desenvolveu depressão. “Eles continuam soltos. Esse é meu maior medo”, diz a vítima que teme se identificar.

‘Déficit é generalizado’

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Ribeirão Preto (Sinpol), Eumauri da Mata, diz que todo mês ao menos um policial se aposenta no município sem reposição. “Nossos policiais estão velhos, todos de cabelo branco. O Estado apenas finge que oferece segurança”.

Segundo ele, o déficit resulta em desvios de função: na Central de Flagrantes há cerca de 15 investigadores atuando como escrivães, registrando boletim de ocorrência, denuncia. “Quando eu trabalhava no 2º DP, há duas décadas, eram 20 investigadores. Hoje, são apenas quatro A situação é sofrível”.

Ele critica as junções de delegacias em um mesmo prédio. “Essa ‘reengenharia’ é somar o pouco com o nada”.

Análise > Impunidade é consequência

"Olhamos com muita apreensão a queda de efetivo da Polícia Civil, que ocorre não apenas em São Paulo, mas em todo o País. Há uma decisão política de privilegiar Polícia Militar, que por ser ostensiva e repressiva acaba sendo mais visível nas ruas para a população. Mas se ela não estiver ancorada em uma Polícia Judiciária forte, é como enxugar o gelo. Nesse contexto, a Polícia Civil desprestigiada, com policiais em menor número e envelhecidos, resulta em impunidade e crescimento da criminalidade a médio prazo. Vemos em São Paulo, por exemplo, o ressurgimento de grupos de extermínio e o fortalecimento de grupos do crime organizado, que resultam em aumento de crimes de roubo a bancos e empresas de valores, por exemplo. Além disso, boa parte do efetivo está envolvido com tarefas burocráticas e de atendimento ao público, sobrando muito pouco tempo para a investigação de fato."

Ivan Marques
Diretor Executivo do Instituto Sou da Paz


2 Comentário(s)

Comentário

Alex

Publicado:

Enquanto isto o governador não nomeia os aprovados, nem os que estão dentro do número de vagas, dos concursos da Policia Civil e da Polícia Técnico Científica de 2013. Existem aprovados em quase todas as carreiras, somos; Peritos, Investigadores, Delegados, Escrivães, Fotógrafos, Desenhistas, Atendentes e Auxiliares de Necrópsia. O governo afirma um superavit nas arrecadações, porém quando indagado sobre os concursos, diz que não tem dinheiro para contratações, no entanto, todo ano são nomeados algo em torno de 4000 policiais militares. A PC de São Paulo está abandonada e os profissional que ainda seguram as delegacias são pouquíssimos e a grande maioria está em tempo de se aposentar. Apenas 3% destes possuem menos de 30 anos, enquanto o contingente de funcionários está estagnado desde 1994, não acompanhando nem de perto o crescimento populacional. Tal desgaste de funcionários e descaso por parte do governo, reflete diretamente no atendimento à população e na qualidade das perícias e investigações. Apesar do movimento de algumas organizações sindicais o governador continua a ignorar a situação, sendo que na última chamada foram convocados apenas cerca de 800 aprovados, o que não representa nem 50% do total, muito menos compreende o déficit de funcionários atual, sendo que só de Novembro de 2016 a Fevereiro de 2017 cerca de 500 policiais se aposentaram. Dado o fato segue o link da petição pública do Sindicato dos Delegados requerendo a reposição de pessoal para quem quiser ajudar: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR97643

Comentário

LUIZ GERALDO DIAS

Publicado:

Algumas considerações. Os responsáveis pelo sucateamento da Polícia Civil de Ribeirão Preto, não é apenas do Governo de SP. Daqueles que aqui e na região, buscam votos para Deputados Estaduais e Federais. Além desses, da Classe Política, Prefeito daqui e região. Mais. Do Seccional e do Diretor do Deinter. Retificação da palavra do Eumauri: Não se aposentam um só policial civil por mês, mas SIM DEZENAS. Até meados deste ano, VÃO SAIR SÓ DE RIBEIRÃO PRETO, 12 DELEGADOS DE POLÍCIA SEM CONTAR A REGIÃO, que já não tem ninguém, para não dizer das dezenas de Escrivães e Investigadores de Polícia. Em 1998, fui Titular do 1DP, Centro e contava com 12 ESCRIVÃES DE POLÍCIA, 17 INVESTIGADORES, 3 DELEGADOS DE POLÍCIA ASSISTENTES. Hoje são: UM DELEGADO, UM INVESTIGADOR E UM ESCRIVÃO DE POLÍCIA. A DIG já teve 70 investigadores, 9 delegados Polícia, 11 Escrivães.....verifiquem hoje: 2 delegados.....3 ou 4 investigadores.....dois ou 3 escrivães de polícia. A Polícia Civil virou, para alguns casos, máquinas registradoras de crimes sem solução. Tenho amigos que foram roubados há meses, anos, sequer receberam uma ligação da polícia civil, muito menos investigação. Um caso de morte de trânsito na família....quase um ano para ouvirem uma pessoa da família e darem um retorno da investigação. Centenas de pessoas, dezenas que conheço, sequer procuram a Polícia Civil daqui para registrar ocorrência policial. Polícia acabada e entregue nas mãos de algumas operações policiais do M. Público, ferro velho, lojas de celulares, cpp e outros. Infelizmente, este foi o fim. Mas, qual o caminho: CICLO COMPLETO PELA POLÍCIA MILITAR, em cuja instituição ainda resta recursos humanos e materiais. Acabou a Polícia Civil, graças à conivência de duas chefias locais, regionais e do Estado.