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Nem a queda da temperatura põe fim a banho gelado no Cetrem

Dos 41 chuveiros do novo prédio, apenas 2 oferecem água quente aos usuários, que elogiam cama e comida

| ACidadeON/Ribeirao

Weber Sian / A Cidade
Apesar do frio, usuário do Cetrem diz que serviço é melhor que pensão (foto: Weber Sian / A Cidade)

 

Inaugurado em novembro do ano passado com a promessa de promover dignidade às pessoas em situação de vulnerabilidade, o novo Cetrem (Central de Triagem e Encaminhamento ao Migrante/Itinerante e Morador de Rua) oferece aos cerca de cem frequentadores diários apenas banhos de água fria.

Dos 41 chuveiros instalados na unidade, atualmente apenas dois despejam água aquecida, conforme levantamento dos funcionários da própria unidade. Segundo eles, desde a inauguração o sistema de aquecimento - exclusivo por energia solar – apresenta problemas.

A gestão Dárcy Vera (PSD) divulgou, à época, investimento de aproximadamente R$ 500 mil – entre verbas públicas, doações de empresários e recursos próprios do locador - para viabilizar o novo Cetrem, localizado no bairro Jardim Salgado Filho, em um motel adaptado. O aluguel custa R$ 18 mil mensais aos cofres do município.

“Aqui foi feita uma tremenda maquiagem pela gestão passada, todo dia encontramos um problema novo”, reclama Eduardo Barbosa dos Santos, coordenador da unidade. Já a ex-secretária de Assistência Social, Gisele Costa, diz que o prédio foi entregue ao atual governo com os chuveiros funcionando (leia ao lado).

Permanece

Independente da causa, em seis meses a gestão de Duarte Nogueira (PSDB) não conseguiu aquecer os chuveiro. O problema piorou no final de abril, quando a bomba que abastecia a caixa de água queimou.
Com isso, todos os dias dois carros pipas do Daerp precisam ir à unidade encher a caixa. Segundo Barbosa, isso prejudica o sistema de aquecimento.

“Venho aqui há seis meses e nunca tomei banho quente. Só gelado”, relatou um homem de 31 anos.
Quinze usuários do Cetrem ouvidos pelo A Cidade nas últimas três semanas relataram que os chuveiros, desde a inauguração, raramente aquecem a água.

Mas, acostumados aos banhos frios do antigo Cetrem, que funcionou por 20 anos na rua Pernambuco e tinha a fiação elétrica dos chuveiros constantemente furtada ou vandalizada, todos elogiaram a estrutura da nova unidade.

“Não há nem comparação. Aqui é tudo limpo, colchão confortável, comida boa, atendimento bom. Melhor que muita pensão”, diz um homem de 60 anos, que não reclama nem da água fria. “Faz anos que não sei o que é um banho quente”. 

Banho quente só com sorte

“Eu tomei mais banhos frio do que quente”. A mulher de 52 anos frequenta o Cetrem há seis meses e diz que os primeiros a ligarem os chuveiros, até conseguem água quente. “Mas dura muito pouco”. Uma jovem de 25 anos afirmou, na semana retrasada, que não teve coragem de entrar sob o chuveiro. “Estava um gelo”. Ela diz, porém, que há dois meses se hospedou por um dia e conseguiu água quente. “Acho que depende da sorte”.

Centro POP divide opiniões entre usuários

O Centro de Referência para população em situação de rua (Centro POP) divide opiniões dos usuários.
A maioria deles dorme no Cetrem e passa o dia na unidade, que fornece almoço e oficinas. “A comida
e atendimento dos funcionários é bom, mas a gente fica sentado olhando um para a cara do outro. Deveria ter mais oficinas, alguns cursos de pintura, eletricista”, diz o pintor Maciel Ferreira, 48 anos,
que há dois anos está em situação de rua após se separar da mulher. “Ando sempre arrumado, procuro ficar ativo, para conseguir emprego. Seria bom se nos ajudassem com trabalho”, diz. Outros usuários,
que preferem não se identificar, citam a rigidez dos horários e dos trabalhos domésticos na unidade – como lavar louça e banheiro -, mas elogiam as oficinas de cultivo de horta e música. O coordenador
do Centro Pop, Eduardo dos Santos, diz que a unidade possui parceria com o Educandário para ministrar oficinas, e que há planejamento de aumentar a oferta e, inclusive, incluir aulas do EJA (Escola para Jovens e Adultos). “Nosso objetivo é qualificar e encaminhar para o mercado de trabalho”.

Weber Sian / A Cidade
Maciel Ferreira elogia o atendimento dos funcionários, mas reclama da falta de oficinas profissionalizantes (foto: Weber Sian / A Cidade)

 

Análise - ‘Não há nenhuma justificativa plausível’

“Não é razoável que a prefeitura leve seis meses para verificar e sanar um problema que não é de grande complexidade. Essas pessoas já estão em situação de vulnerabilidade, e o poder público deveria acolhê-las da melhor forma. É necessário empenho para resolver essa situação, ainda mais com a proximidade do inverno. Não há nenhuma justificativa plausível para que essa situação permaneça.” Anderson Polverel Romão, Advogado, coordenador da comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Ribeirão Preto

'Não temos nada a esconder'

O coordenador do Cetrem, Eduardo Barbosa dos Santos, diz que assumiu a unidade em janeiro deste ano e está realizando um pente-fino nos problemas estruturais. Ele percorreu com a reportagem do A Cidade a unidade, e elencou defeitos no prédio junto a funcionários. “Não temos nada a esconder. O que é problema, temos que resolver”.

Segundo ele, alguns chuveiros – que são embutidos  na parede – estão quebrados pela ação de usuários e outros apresentam defeito de aquecimento. Ele cita, também, que o sistema de aquecimento solar pode demorar um pouco para aquecer a água. “Às vezes, é preciso esperar dois minutos”, cita. 

Mesmo assim, diz que chamou a empresa responsável pela instalação – efetuada no ano passado – para avaliar o que está acontecendo. “É direito de todos tomar banho quente. Nosso objetivo é dar o máximo de dignidade”.  Eduardo cita que há cerca de um mês a bomba do Cetrem apresentou defeito, e o Daerp tem que abastecer o reservatório com caminhões  pipa. “Isso pode estar interferindo no aquecimento, estamos analisando”.

Gisele Costa, secretária de Assistência Social à época da inauguração, diz que o prédio foi testado antes de entrar em funcionamento e que todos os chuveiros foram entregues à gestão Nogueira funcionando e com aquecimento correto.

“Se há algum problema, devem procurar a empresa que realizou a instalação elétrica. Está tudo na garantia”, diz. 

 

 

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