Pacientes faltam a 30% das consultas na rede básica

Mais de 136 mil pessoas não compareceram a consultas e exames de janeiro a agosto

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Lucas Catanho
Unidade de Saúde da Família da Vila Albertina informa o número de pacientes que faltaram e faz campanha para agilizar o sistema de agendamento (Foto: Lucas Catanho / A Cidade)

 

Mais de 136 mil pacientes faltaram a consultas e exames agendados desde o início do ano nos postos da rede básica de saúde em Ribeirão Preto. Entre janeiro e agosto, quase 30% faltaram a consultas e 28% não compareceram a exames.

Relatório fornecido pela Secretaria Municipal de Saúde inclui consultas com o médico da família, ginecologista, clínico geral e pediatra, além de exames como ecocardiograma, eletroencefalograma, raio-X e ultrassom. O número de ausências por mês em 2017 já é 30% maior que em 2016.

“Muitas vezes os usuários querem uma consulta imediata e migram da atenção básica para o pronto atendimento. Se tiver sua necessidade contemplada, faltará à consulta agendada”, explica Ilka Barbosa Pegoraro, diretora do Departamento de Atenção à Saúde.

Ela destaca que entre os prejuízos causados pela ausência do paciente estão o aumento da fila na saúde e o desperdício de recursos humanos.

“Ficamos com toda uma estrutura preparada para este atendimento: luz, água, telefone, limpeza e, principalmente, recursos humanos que ficam ociosos, dependendo de demanda espontânea para utilização do tempo dos profissionais”, frisou.

O especialista em saúde pública e docente da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão, José Sebastião dos Santos, considera que um dos motivos da alta ausência é o descompasso entre a avaliação feita pela equipe de saúde e a necessidade real do paciente.

Somente na USF (Unidade de Saúde da Família) da Vila Albertina, na zona Norte, 626 pacientes faltaram a consultas e exames em agosto.

A costureira Andréia Bissoli, 41, segue o movimento contrário. “Sempre que marco, vou às consultas de rotina. Todas que eu agendei eu compareci, vou de três a quatro vezes ao ano. Se eu perder a consulta no ginecologista, para remarcar é quase seis meses”, afirmou.

Em julho deste ano, no entanto, a costureira se esqueceu de fazer um exame de sangue, após passar pelo médico seis meses antes, em janeiro. “Demorou tanto que acabei esquecendo, e o pessoal do posto não ligou avisando.”

A autônoma Valéria Moreira Mendanha, 29, também costuma comparecer a todas as consultas de rotina agendadas. “Venho sempre, mas muita gente acaba esquecendo”, pontua.

Ontem, ela estava no posto para tentar agendar médico ginecologista, mas foi informada que só havia vaga para o ano que vem. “Agendei então com a enfermeira amanhã [hoje] à tarde”, concluiu.

Pacientes são orientados

A diretora do Departamento de Atenção à Saúde, Ilka Barbosa Pegoraro, explica que os pacientes são orientados na ocasião do agendamento para, caso não possam comparecer, avisar com antecedência para a vaga ser utilizada por outro usuário.

“No segundo semestre de 2016 foi realizado um projeto de enviar torpedo para os celulares dos usuários, no dia anterior à consulta. Foi constatada uma diminuição do absenteísmo, mas tivemos dificuldades para o envio devido à troca frequente do número de contatos dos celulares dos pacientes”, esclareceu.

A diretora acrescenta que os pacientes que não comparecerão a consultas e exames pré-agendados devem avisar o posto com a máxima antecedência possível. “As faltas sem qualquer justificativa representam quase sempre perda das vagas disponibilizadas.”

Matheus Urenha / A Cidade
Valéria Moreira tentava marcar uma consulta com ginecologista, mas data disponível é apenas para o próximo ano (Foto: Matheus Urenha / A Cidade)

 

‘Consulta tem valor secundário’

Um médico da rede municipal que preferiu não se identificar considera que uma das justificativas para o alto número de pacientes ausentes é que eles estão aparentemente bem de saúde e, com isso, a consulta fica em segundo plano. “Consulta agendada tem como foco a prevenção e controle das doenças crônicas. Diabetes, colesterol, pressão, peso e sedentarismo controlados vão evitar infartos, derrames. É fundamental prevenir e ter tempo para isso. Quando mais passa o tempo, mais difícil de mudar”, declarou o médico.

O profissional acrescenta que muitos pacientes só se dão conta de suas consultas quando vão à farmácia e a receita está vencida, daí têm de passar novamente pelo médico. “Aí querem que se dê aquele jeitinho brasileiro de atualizar a receita, uma vez que não dá para agendar consulta de um dia para o outro.”

Outros pacientes, explica, só dão valor à consulta quando têm alguma queixa clínica. “Não entendem que muitas doenças são silenciosas e que tratar no início evita complicações”, conclui.

Análise
‘Há um descompasso entre avaliação e real necessidade’

“Existe um descompasso entre a avaliação da necessidade do paciente e a real necessidade em marcar uma consulta ou um exame. Os profissionais precisam, antes de marcar, avaliar bem o caso e convencer o paciente que é necessário ele passar por consulta. Se o paciente não tinha muita indicação, ele melhora e acaba não indo. Por outro lado, o agendamento às vezes é muito longo entre a necessidade e a consulta ou exame. Quando passa de 15 dias, o paciente pode buscar outra alternativa como, por exemplo, pagar pelo procedimento. Com as ausências, perde-se em termos de efetividade, já que os médicos e os recursos estão lá, mas não são utilizados. Há também um lado descompromissado do paciente, já que não tem de pagar pela consulta ou exame. As equipes dos postos podem usar mídias sociais para lembrar o paciente, como WhatsApp e Facebook, e podem marcar um número de pacientes a mais que a capacidade, tendo em vista que haverá faltas”. 

José Sebastião dos Santos
Especialista em saúde pública e docente da Faculdade de Medicina da USP


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