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Outra conspiração

"A teoria da conspiração alimentada pela direita alucinada, que denunciava a China por disseminar o vírus chinês para dominar o planeta, pode ser jogada em cima do presidente dos Estados Unidos"

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 

Deu no New York Times (06-04): Trump é acionista da Sanofi, indústria farmacêutica dona da patente da cloroquina. Tem como sócios empresários que o financiaram e controlam a multinacional (que distribui a droga internacionalmente, sediada na França) através de um fundo mútuo da Dodge & Cox, gigante financeira que gerencia investimentos em todo o mundo.  

Vários laboratórios associados preparam o lançamento de genéricos da hidroxicloroquina e se unem comercialmente à Amneal Pharmaceuticals, cujo proprietário é Chirag Patel, ligado a um clube de golfe de Trump, em New Jersey. Além dessas empresas, envolvidas direta ou indiretamente com Trump, o grupo Invesco investiu em laboratórios que produzem a droga, apoiados pelo secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross.  

Ironia da história: a teoria da conspiração alimentada pela direita alucinada, que denunciava a China por disseminar o "vírus chinês" para dominar o planeta, pode ser jogada em cima do presidente dos Estados Unidos.

Vitaminado

A cloroquina é a vitamina da ignorância que deixará Bolsonaro mais forte depois do coronavírus. A "receita" que o presidente dá para espantar o vírus é o aditivo do seu populismo.  

Os eleitores de Bolsonaro (e não só os 30% que o seguem incondicionalmente) precisam de um mito que justifique o seu medo. Eles não sabem o que os ameaça, mas sentem pânico a qualquer mudança e se agarram aos seus "privilégios" de classe. Momentaneamente essa gente se encantou com Mandetta, mas a febre passou: perceberam que ele é apenas um bom moço, que não tem "peito" para colocar os "outros" no seu lugar. Tudo bem, Bolsonaro é grosso, mas se mantido à distância (e falando menos) salvam-se as aparências enquanto ele garante o direito de ir e vir das domésticas: da periferia às casas das patroas. Com as fábricas funcionando livra-se o churrasco de fim de semana.  

Na visão da classe média Bolsonaro não é corrupto (rachadinha é besteira, ligação com as milícias é bobagem). Se alguém dissesse que a classe média é eticamente corrupta pela sua falta de solidariedade aos pobres e o conformismo em pactuar com uma sociedade excludente, certamente seria exposto às redes sociais, sangraria até ser excomungado por um daqueles bispos que atribuem o coronavírus a Satanás.  

Pior ainda, se lembrasse que pegar propina dos empreiteiros pode ser menos criminoso do que aceitar a miséria social e a fome de milhões de brasileiros sem emprego, educação e saúde e dizer amém, nas missas e nos cultos evangélicos.
Por tudo isso, e mais alguma coisa, Bolsonaro estará mais forte.

Propinovia

Dezoito anos em seguida
a tucanada pegou a grana
da empreiteira sabida
e ninguém foi em cana.

Ninguém bateu panela
por fato tão corriqueiro:
certos ladrões tem tutela
do bom povo brasileiro.

Covas, Serra e Alckmin
tudo gente bem honesta,
cheirando a benjoim
e uma coroa na testa.

Assim soube a Ecovias,
que premiou os eleitos:
benfeitores das rodovias,
homens bons e perfeitos.

Ricos, fora

E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. (Jesus, em Mateus 19-24, Bíblia de Jerusalém)

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