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Suspense e terror no circo

O presidente é o vampiro das ilusões democráticas e não tem juízo; Mas sobra-lhe a insolência dos prepotentes que se julgam donos da verdade

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritos Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

No filme de suspense o assassino em série degola as mulheres. Corta cabeças. A polícia segue pistas falsas. O mocinho é espancado. A mocinha é raptada. O orfanato se incendeia e as crianças gritam desesperadas. O mocinho se recupera enquanto a polícia vai pelo lado errado. Os bombeiros apagam o fogo e o mocinho salva a garotinha de olhos azuis, cabelos encaracolados, que sai da fumaceira sorrindo. O vilão tenta escapar, mas o mocinho o agarra, dá-lhes uns sopapos e o entrega aos policiais incompetentes. Fez-se justiça e a mocinha premia o herói com um beijo. 

Mas o governo Bolsonaro não é um filme de suspense: é de terror. Os sustos se sucedem e os fantasmas saem das criptas: os vampiros batem as asas sobre nós. Se a madrugada ensaia os primeiros raios de sol, as sanguessugas se esgueiram nos beirais do palácio e preparam o ataque. Quando menos se espera, esvoaçam sobre o povo e derramam o fel das suas almas danadas. Depois voltam aos caixões, as pesadas portas das tumbas se fecham e eles realimentam o mal que espalham pelo país. 

Ainda não conhecemos o final desse filme. Sabemos que o Brasil não é uma obra de ficção, mas está surrealista: é trágico sem a grandeza da tragédia - não pode ser tragicômico, porque os cadáveres entopem a valas comuns dos cemitérios. A marcha de Bolsonaro e dos empresários ao STF pode parecer uma "produção classe B", mas é de uma realidade inquietante: o presidente é o vampiro das ilusões democráticas e não tem juízo. Mas sobra-lhe a insolência dos prepotentes que se julgam donos da verdade e fazem da arrogância seu modo de ação. 

Sem plano para enfrentar as crises brasileiras, desprezando a vida e considerando-se acima da lei e dos homens, incapaz de entender onde está e como está, apela ao primarismo das tentativas de "compartilhar" sua responsabilidade com os outros poderes, para dividir a "culpa" do fracasso. 

É um amalucado que, hoje, se a palavra dele se confirmar, vai oferecer um churrasco para trinta pessoas e jogar uma pelada depois. É a resposta que ele dá à OMS (Organização Mundial de Saúde) e à revista The Lancet, que o considerou irresponsável e ameaça à saúde pública no Brasil. 

Chegamos ao ponto em que são supérfluas as análises políticas: já ficou claro que o presidente é incapaz de governar e causa mais perturbação enquanto milhares de brasileiros morrem por falta de um plano nacional para combater o coronavírus. Vivemos um melodrama suburbano em que as claques riem e aplaudem as chulices do presidente. Outra parte olha e espera. O que estamos esperando?
É um filme de terror. Mas pode ser um circo prestes a pegar fogo. 


Belo segredo de estado

A novela do vídeo que Moro pede e Bolsonaro não quer mostrar tem nova revelação, feita pela Folha, sexta-feira: a resistência do governo, com a desculpa de proteger "segredos de estado", é porque o presidente se referiu à China, digamos, com a elegância costumeira e o seu ministro da Educação, Abraham Weintraub afirmou que o STF (Supremo Tribunal Federal) é composto por "onze filhos da puta". Este é o "segredo de estado". 


A proeminência estúpida

A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na retaguarda para ver. (Bertrand Russel, 1872-1970)

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