Aguarde...

Colunistas

Fernando Kassab: Vontade que não passa

Tudo o que eu quero é sair. Sair sem precisar lembrar, nem ao menos pensar, no nome do bicho que nos atormenta nos últimos tempos

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab
 
Tudo o que eu quero é sair. Sair sem precisar lembrar, nem ao menos pensar, no nome do bicho que nos atormenta nos últimos tempos. Sair sem encontrar fechado o sebo de livros. Sair sem ter hora para chegar e nem voltar. Sair sem relógio. Sair da roda sem fim das notícias com estatísticas assombrosas. Sair sem prazo de validade. Sair para ver o ipê branco no meio da rodovia. Sair do mundo em que os mais velhos falam de medo, quando deviam estar beijando os netos. Sair do mundo das notícias falsas que deixam sempre a impressão que o ser humano desaprendeu a ler e a pensar, e agora acredita em tudo. 

Sair sem dinheiro. Sair sem cartões. Apenas sair. Sair para ver os amigos cujos telefonemas e trocas de mensagens já não bastam. Sair para abraçar e beijar e ficar até o sol raiar. Sair para o café sem máscara e para o bolo de chocolate sem medo. Sair para apertar mãos queridas. Sair para abraçar. Sair só para desobedecer a uma ordem médica. Sair para ir ao médico e ouvir que a esperança nunca falha. Sair para saber que a ciência dá cabo aos desesperos da alma atormentada pelo pânico do contágio. Sair sem desencantar. 

Sair para encontrar uma felicidade que estava tão à mão de semear e que nós jogamos fora, porque jogamos fora a felicidade com uma facilidade que é triste, que é um desânimo, que é um desaforo. Sair para fazer carinhos e dar afetos ao cão sem dono, para fazer ronronar o gato vadio. Sair para ver as andorinhas que são de Campinas há tanto tempo, que parecem gostar da cidade mais do que qualquer outro bicho. Sair, para as andorinhas, é sair para dentro. 

Sair para ver o bem-te-vi fazer um ninho que é um Niemeyer sem Niemeyer, porque bem-te-vis não têm vaidades e não pensam em rampas e telhados. Sair para ver a linda Maya, a golden retriever a quem os donos chamam de a loira do tchan, e que só de ouvir a minha voz vem na minha direção e pede um carinho. Sair para dar o carinho que a Maya pede custa exatamente quinze passos. Sair para ver a alegria da Maya é remédio sem contraindicações. 

Sair para encontrar o amor de ontem que foi transformado na amizade de hoje, sem traumas, sem dor e nem sofrimento. Sair para vadiar. Sair para ficar abandonado, sabendo-se felizmente abandonado, deitado sobre a grama quente do parque, olhos fechados, pensando em nada, ou pensando em tudo, mas sem ordem, sem dor, sem gestos maiores ou desperdício de energia. Sair com preguiça, porque se arrastar de bermudão e chinelos pelo mundo nem sempre é sinal de descuido ou de loucura ou de desinteresse. Sair com preguiça é bom e faz bem, porque é, antes de qualquer outra coisa, sair. Sair para, quem sabe, se encontrar. 

Sair para Trabiju. Sair para Ribeirão Preto, só para flanar pelo Centro da cidade, sem compromisso com nada, exceto, uma passada na cafeteria Única, um amor que cultivo porque também é um pouquinho Altinópolis. Sair para São João da Mata em dia de São João Batista. Sair para Guaxupé e Franca, meus amores. Sair para a São Paulo da minha infância, a mesma que continua lá, nem mais feia, nem mais bonita, mas que continua a sair de si mesma, sendo outra todos os dias. Sair para São José da Bela Vista. 

Sair para Brodowski e encontrar as cores de Portinari. Sair para Mococa e encontrar, quem sabe, a mulher que inspirou Bruno Giorgi. Sair para Campanha e encontrar o gênio revolucionário de Maria Martins. Sair para tantas cidades. Sair e ir em direção de trezentas e dezessete cidades, paulistas e mineiras, e gravar em cada uma delas, como já gravei em dias solares e cheios de confiança. Sair para gravar e falar delas, com alegria, com amor, porque todas elas, de alguma forma, agora são minhas cidades também. 

Sair para confessar um erro. Sair para confirmar um acerto. Sair para se dizer falhado e não ter vergonha, porque a vergonha quando vai embora de maneira transparente é a coisa mais linda de se ver. Sair para regressar, mesmo que por alguns instantes, a um lugar que é pura saudade. Sair para levar a alma para passear, o corpo para nadar e a cabeça para esvaziar. Sair para sacudir o esqueleto. Sair para errar o caminho da ida e acertar o percurso somente na volta, porque não temos pressa, porque as estradas são cartesianas e a nossa vontade não é tão precisa. 

Sair para reencontrar os irmãos, os sobrinhos, os primos, os amigos de uma vida. Sair para se esbaldar em mesas fartas e no sorriso fácil das crianças. Sair para ler um livro na praça, para ouvir uma música no coreto, para ver as pombas atrás de comida. Sair para o teatro, para o cinema, para a compra que já deveria ter sido feita e que adiamos nos tempos em que podíamos adiar, e que agora não adiamos porque não podemos sair. Sair e nem pensar em deixar para depois. Sair nunca foi tão necessário. Sair é urgente. Sair é uma vontade que não passa. Sair é só o que eu quero. Sair e ponto. Sair.

Mais do ACidade ON