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O velho golpe da ligação de um parente em apuros

Na coluna de hoje, Puntel conta como foi uma dessas ligações, quando um suposto sobrinho pediu R$ 6,2 mil após um acidente

| ACidadeON/Ribeirao

Luiz Puntel (Foto: Arquivo Pessoal)

O SOBRINHO QUERIDO EM APUROS

A voz que ouvi ao atender o telefone fixo era de um jovem articulado, falante, rápido e preciso.

- Oi, tio, tudo bem, como vai o senhor? Há quanto tempo, hein?

Ao não reconhecer a voz de um possível sobrinho, indaguei de volta, querendo saber quem falava.

- Tio, qual seu sobrinho querido, hein? Vamos ver se você não se esqueceu de mim! - a voz do jovem era sorridente. Não falei que ele era muito articulado, falante, muito preciso nas respostas?

Na hora, pensei em dois ou três sobrinhos queridos, mas a voz articulada não correspondia a nenhum deles. Aí, inventei um nome qualquer na hora e perguntei para este que se dizia meu queridíssimo sobrinho por onde ele andava.

- Alfredo, como você está, menino? Anda sumidão, nem liga mais aqui pro tio...

- Ah, tio, a vida está uma correria! Trabalhando muito, ganhando pouco, mas vamos levando... Aliás, tio, desculpa incomodar, viu, mas meu telefonema é por um problema chato que aconteceu ainda agora comigo. Eu vinha de Araraquara e, na altura do Clube Náutico, eu fui ultrapassar um caminhão, não vi um carro que vinha em sentido contrário e...

- Alfredo, você se machucou, você está bem? - Eu dava corda, acrescentando um tom de preocupação, mas já sabendo que era um golpe.

Meu sobrinho querido estava bem, mas ele queria evitar fazer BO, essas confusões burocráticas tão chatas. E, como não queria envolver o pai, pedia ajuda a mim, o tio querido.

Ele, rápido no gatilho, historiou que o motorista do outro veículo já tinha pedido para alguém avaliar o estrago, e tinha ficado salgado, R$6.200,00. Mas, que eu não me preocupasse, pois ele já tinha arrumado R$2.000,00 com um amigo e se eu pudesse adiantar pelo menos metade da importância já ajudava, viu, tio! Sim, porque, chegando a Ribeirão, ele iria ressarcir a importância ao tio, pois não queria, de jeito nenhum, criar um problema familiar.

E ele disse assim mesmo - ressarcir -, comprovando que era articulado, bem educado e polido. A prosa estava boa, Alfredo, o sobrinho querido, tendo resposta pra tudo, usando palavras bem encaixadas, bem elaboradas. E ele estava até chateado de ter que pedir ajuda ao tio querido, mas tudo se resolveria tão logo ele fosse liberado pelo delegado, e que o tio não telefonasse para o pai, já que ele não queria dar aborrecimento e patati patatá e bico de pato telecoteco.

Quando ele já ia respondendo como o tio poderia, por favor, fazer uma transferência bancária ali, na hora, senão o BO ia ser registrado, resolvi pôr um ponto final na prosa.

- Aí, ladrão! Não quero ficar atrasando teu corre não, mano! Na moral, fica esperto que a casa caiu.

Em vez de ser deselegante, desligar na minha cara, ele ainda se desculpou por estar me tirando do sossego do confinamento da quarentena.

- Ô, tio! Desculpaí, mas a coisa tá ruça e eu tenho que arrumar uma grana. Valeu aí!

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Puntel conferindo os nomes dos sobrinhos queridos. Não, nenhum Alfredo foi encontrado na time line de seus relacionamentos familiares.

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