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Praias cheias e escolas fechadas. É isso mesmo?

Tenho certeza que você, que foi se esfregar para disputar um pedacinho de areia nas praias, deve se remoer de medo de deixar o seu filho ir para a escola

| ACidadeON/Ribeirao


Rodrigo Stabeli, Pesquisador Titular da Fiocruz, professor de Medicina da UFSCARe consultor da OPAS/OMS


Estamos enfrentando a Pandemia, causada pela COVID-19, por seis longos meses e, por isso, já pode-se entender que existem vários cenários epidemiológicos por todo o Brasil. Isso significa que o curso da doença não é o mesmo no Estado de São Paulo quando se compara, por exemplo, com o Estado do Amazonas, onde a pandemia chegou forte, houve corpos em frigoríficos e enterros coletivos. Da mesma forma, já estamos "carecas de saber" que o curso epidêmico na cidade de São Paulo é diferente do curso que observamos em Ribeirão Preto.  

A epidemia chegou mais tarde no interior do Estado principalmente nas cidades mais longínquas da capital. Isso é fato, como é fato a existência daquele grupo que faz campanha contra vacinas, contra o uso de máscara e ainda, diz que COVID-19 tem tratamento com a famosa cloroquina. Tem tratamento mesmo, e o tratamento não virá apenas com a vacina ou outro medicamento e aqui falo de comprovação científica. O tratamento vem com o meu e o seu compromisso de praticar coisas simples: o distanciamento físico, não estou falando de isolamento social; uso da máscara, que não dói; da lavagem das mãos com água e sabão ou higienização com álcool em gel; e, não se aglomerar. Talvez esse último é até o mais importante. Ou seja, estamos falando de mudança de comportamento para um bem comum. Do jeito que a banda vem tocando, a COVID-19 veio para ficar, assim como a Dengue, a Tuberculose, o Chikungunya e se você não entendeu isso ainda e faz campanha contra, está dando um tiro no seu próprio pé. Isso porque se você está lendo essa coluna já pode se considerar um vitorioso, porque está vivinho e sem sequela ocular causada pela COVID. 

Obviamente que diante do desconhecido e da crise causada por ele, o medo é inerente e, da mesma forma acontece com a falta de ação do Estado, com o auxílio do que não aconteceu para vários setores, como os micro e pequenos empresários, por exemplo. Daí a necessidade da maioria dos trabalhadores voltar ao trabalho para não morrer de fome. Mas será mesmo que você precisa se aglomerar na praia como vimos no feriado de sete de setembro? 

Tenho certeza que você, que foi se esfregar para disputar um pedacinho de areia nas praias pelo Brasil, deve se remoer de medo de deixar o seu filho ir para a escola. Ele está fazendo aulas pela internet e está seguro né? Essa não é a realidade da escola pública e da maioria das crianças do Estado de SP. Muitos alunos não têm sequer o que comer. A escola deve ser considerada um espaço, muito além da absorção de conteúdo. Ela deve ser um espaço democrático de redução das desigualdades sociais, da interação entre os alunos e da percepção de que naquele espaço, somos todos iguais. A Pandemia veio destruir não só o aprendizado da matemática ou do português, mas também a socialização, o desenvolvimento da criança e do adolescente e a promoção da saúde. Sim, é na escola que se começa a aprender sobre a saúde e cidadania. 

Portanto, o retorno as aulas deveria ser um fator discutido entre toda a sociedade, e não apenas uma decisão de governo. Deveríamos considerar as particularidades locais e não macrorregionais. 

Será que os pais, mesmo sabendo dos prejuízos da ausência da escola para seus filhos sentem-se seguros para enviá-los para um espaço público, compartilhado? Se você estiver respondendo sim ou não enquanto lê essa matéria, tenho que te dizer que sua resposta é prematura se ela não veio de um diálogo entre os setores da vigilância em saúde, gestores da educação, professores, técnicos e, principalmente, vocês pais e alunos.

A discussão entre os setores e a sociedade não se concentra na definição de um cronograma de conteúdos, apenas. Deve ser um planejamento que deve considerar os aspectos do contexto loco-regional. Em situação de um cenário de baixa epidemiológica, o retorno às aulas pode ser recomendado, acompanhado pelas medidas de higienização e distanciamento, mas sempre com a orientação dos especialistas e, sobretudo, com o diálogo, claro, apolítico e verdadeiro com a sociedade. Porque, infelizmente depois de mais de seis meses de pandemia, sem liderança de combate, a doença veio para focar. Mas, na educação, ainda temos uma chance de não transformarmos a volta as aulas em mais uma capitalização política. O problema é que vejo no horizonte desse mar político polarizado que vivemos, a marola das eleições municipais. 

Entre as praias lotadas e um planejamento de volta às aulas dialogado com a sociedade, eu fico com a educação. Eu fico com a vida solidária que deve ser estabelecida no "novo normal" e não no retorno das atividades. Acabou o mundo que você conhecia e por isso, o esforço deve ser de todos. Meu e seu e ainda não vi isso acontecer...

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