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Toco nasceu na Vila Tibério e há 62 anos vive na mesma casa

Há 18 anos, faz a festa de Folia de Reis e convida toda a vizinhança; Hoje, integra o Conselho de Saúde e a Associação dos Moradores do bairro

| ACidadeON/Ribeirao


Toco tem paixão pela Vila Tibério, bairro tradicional de Ribeirão Preto (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
Na casa de Toco, até as plantas têm história. "Essa daqui tá com mais de 30 anos. Era da minha mãe", diz, enquanto vai mostrando as folhagens. O verde dos vasos faz lembrar a rotina de antigamente. "Aqui tinha galinha, cavalo, cabrito, pato. Era como um sítio." 

Há 62 anos, desde que nasceu, ele mora na mesma casa da Vila Tibério e garante que não se muda por nada. "Não tenho vontade de sair". Assistiu não só sua casa mudar, mas o bairro todo. Presenciou o asfalto chegar à Avenida do Café e reproduz a história que ouviu: "O Gasparini encalhou o carro aqui. Foi quando ele resolver asfaltar". 
 
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Poucos vizinhos dessa época permaneceram (ele sabe listar todos). Conhece também os mais recentes. Sabe dizer quem habita cada casa de sua rua e brada, todo orgulhoso: "Dessa rua eu sou o mais antigo!". 

Difícil quem não conheça o Toco na rua Conselheiro Dantas e em boa parte da Vila. Mas é chamado assim, pelo apelido. José Luiz Fernandes ficou esquecido lá em 1976, quando o Toco surgiu, por uma brincadeira entre amigos.  

Difícil quem não conheça Toco, com toda sua presença. Vai listando as entidades das quais participou. São tantas que até sua memória falha. Clube dos Feirantes, Círculo Operário, Cia Mogiana, Sindicato dos Comerciários, Sindicato dos Feirantes e o conselho administrativo da igreja, sem deixar de participar de todas as edições do Bloco da Vila. 

Há 18 anos, faz a festa de Folia de Reis e convida toda a vizinhança. Hoje, integra o Conselho de Saúde e a Associação dos Moradores do bairro. E deve ter mais alguma coisa que ficou para trás, em meio a tantas lembranças.  

A vida de Toco é história de muitos capítulos. Todos eles com sua Vila Tibério de cenário.  

Foi ali que ele criou as duas filhas, quando ficou viúvo em 1996. Uma das meninas tinha nove anos e a outra sete. Teve o apoio de seus pais, com quem morou na casa de histórias até os dois falecerem.  

Na Vila, teve danceterias, depósito de bebidas e consolidou seu negócio de aluguel de mesas, que mantem até hoje. Também ali, junto com as filhas, abriu um bar que leva seu nome como homenagem. Por tudo isso, repete um tanto de vezes: "A Vila é minha vida. Tudo o que eu consegui foi aqui". 

Infância na Feira

Toco conta que seus pais construíram a primeira versão da casa onde vive em 1954, três anos antes de seu nascimento. Escolheram viver na Vila porque seu pai trabalhava na Cervejaria Paulista. O bairro, aliás, surgiu com os trabalhadores das indústrias que se fixaram por ali. 
Sua infância foi marcada por banho no poço e no rio, que eram limpos. Muita brincadeira na rua, que era segura. Cadeiras na calçada, vizinhança unida. 

Em 1966, seus pais começaram a trabalhar na feira e ele, aos 11 anos, passou a ajudar. Para a família de cinco filhos não faltavam frutas, legumes, verduras: fartura na mesa. "Eu cresci tomando leite direto da cabrita. Leite puro", diz, com nostalgia.
 
Aos 17 anos, dividia a rotina entre o trabalho na feira pela manhã e como pintor de paredes nos outros turnos. Em 1976, aos 19, montou sua primeira discoteca na Mogiana. E foi tocando até 1994, quando o grande vendaval que assolou Ribeirão Preto lhe fez perder grande parte do equipamento.
 
Foi retomando a vida e empreendendo com novos negócios. É do tipo que não fica parado. Enquanto a entrevista acontece, atende o telefone uma porção de vezes e faz algumas vendas. A mesma rotina movimentada de sempre. "Tô sempre envolvido em algo!"
 
Entre todos os lugares do bairro, tem um preferido. A feira, que frequenta todo o domingo, relembrando a infância. Só se chateia quando percebe que sua Vila não está sendo guardada como deveria: "Não cuidam dessas memórias. E precisa cuidar, porque é nossa história. Ih, já briguei muito por isso...".
 
Enquanto puder, vai continuar "brigando". Toco não sai da Vila. Ou será a Vila que não sai de si? 
 
Praça Coração de Maria é um dos atrativos da Vila Tibério (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
Vila Tibério

A Vila Tibério, zona Oeste, é um dos bairros mais antigos de Ribeirão. Fernando Braga, jornalista que pesquisa o bairro e há 14 anos produz o Jornal da Vila resgatando memórias, explica que o desmembramento da fazenda Monte Alegre originou as terras da Vila.
 
Os primeiros moradores chegaram a partir de 1884, com a estação ferroviária Mogiana, que se instalou entre o Centro e a Vila. Em 1911, com a chegada da Cervejaria Antárctica, um novo perfil de trabalhadores se instala por ali. O Banco Construtor transfere sua indústria pesada para o local em 1912, consolidando a Vila Tibério como um bairro de operários.
 
Fernando entende que a Vila foi baseada em um tripé econômico: "Era a ferrovia, a Antártica e o Botafogo, que também passou a movimentar o bairro com os jogos".
 
O Censo 2010 do IBGE apontou que 18,7 mil pessoas, entre elas os apaixonados Fernando e Toco, vivem na região da Vila.

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