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O Coringa que assusta

O ator Joaquin Phoenix mexe com o expectador, pois tateia também nosso próprio lado de sombra, mais vulnerável a opiniões e comportamentos fora do padrão

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Gustavo Junqueira é jornalista (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
O novo filme do Coringa realmente impressiona e até justifica as polêmicas geradas questionando as intenções da obra e suas possíveis reações. O ator Joaquin Phoenix, em grande performance, mostra mais do que uma pessoa perturbada, injustiçada e oprimida em transformação para o mal e para a prática da violência. O seu Coringa mexe com o expectador, pois tateia também nosso próprio lado de sombra, mais vulnerável a opiniões e comportamentos fora do padrão. Quem nunca se sentiu invisível, desprezado e maltratado pelo mundo? Quem nunca pensou em reagir ou se vingar com atributos de maldade?

O diretor do filme, Todd Phillips, defende que a arte é feita para ser complicada e que o público pode sim aguentar a temática da falta de amor, trauma da infância e falta de compaixão no mundo. A violência, obviamente, está presente na narrativa mas em termos numéricos, somente nos trailers que passaram antes da sessão de Coringa que assisti, ao menos 100 pessoas foram assassinadas em tiros e explosões. Banalizada na maioria dos filmes de ação que infestam os cinemas, a violência na trama do vilão de Gotham City ganha contornos mais psicológicos, a tal ponto que muitos passaram a temer que sociopatas mundo afora se sentissem encorajados a deixar o casulo para cometer atrocidades.

Saí da sala de exibição me lembrando de dois personagens marcantes de filmes do grande diretor Stanley Kubrick. Alex (Malcolm McDowell), em Laranja Mecânica (1971), e Jack Torrance (Jack Nicholson), em O iluminado (1980), entraram para a galeria da sétima arte como representantes genuínos da loucura e violência. Jack Nicholson fez também um magistral Coringa no Batman de 1989, o primeiro longa do morcego vingador trazido pela Warner Bross. Já Heath Ledger ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2009 por sua atuação como o Coringa em Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. O jovem ator australiano não foi buscar a estatueta pois havia morrido um ano antes, ao término das filmagens e logo após uma combinação letal de medicamentos, não se sabe se ingerida de forma intencional ou acidental.

O Batman e o Coringa da minha infância eram menos sombrios e doentios, e mais pastelões. Por isso, guardo com carinho a recordação e a sensação de assisti-los nos anos 70 na série de TV em dezenas de episódios filmados de 1966 a 1968, com o roliço Adam West como o vingador mascarado e Cesar Romero como o vilão risonho. Já o Coringa atual é muito mais denso e sinistro, apresentado de maneira a desenvolvermos por ele uma certa empatia por tanto sofrimento. Abusado na infância, com problemas psicológicos e humilhado no trabalho, nas ruas e na TV, ele ganha certa legitimidade para reagir com vigor e radicalismo.

O filme, ao lidar com essas e outras questões sensíveis no mundo atual, vem provocando discussões. Os ricos, abordados como extremamente insensíveis, tornam-se alvo de uma população de Gotham enfurecida e disposta a quebrar tudo em protestos. O fornecimento fácil de uma arma de fogo a um desajustado não deixa de ser uma crítica ou recado a quem permite acesso a artefatos de alta letalidade a matadores dissimulados aguardando sua oportunidade para efetivar um massacre. Vivemos numa sociedade bruta e de contrastes, e o filme, como produto de arte, reflete muito bem essa realidade.

Como nossa vida já se encontra carregada demais com os mesmos dilemas de Gotham, aproveito o cinema para abstrair com temas menos pesados. Em São Paulo no último final de semana, preferi assistir, ao invés do Coringa, visto depois em Ribeirão Preto, a Encontros, do diretor Cédric Klapisch, o mesmo da boa trilogia Albergue Espanhol, Bonecas Russas e O Enigma Chinês. O filme mostra a rotina de dois vizinhos que não se conhecem, um homem, Rémi (François Civil), e uma mulher, Mélanie (Ana Girardot), ambos na faixa dos 30 anos e que moram em Paris, são solitários, desenvolvem uma depressão e precisam superar traumas do passado. Felizmente conseguem fazer terapia e conduzir a trama para um final mais feliz sem necessidade de revoltas, disparos e risadas diabólicas.

A arte assustadora de Coringa pode sim ser necessária para botarmos o dedo na ferida e enxergarmos os extremos da sociedade e do comportamento humano. Mas a poesia de Encontros também é bastante reveladora de nossos infortúnios e belezas. O cinema proporciona essas experiências tão enriquecedoras e a vantagem do Coringa de Joaquin Phoenix é permitir que as sombras que pairam nas nossas almas se assanhem tão somente no escurinho da sessão, e não do lado de fora, onde a vida tem muito mais graça e cores no roteiro de Encontros.

*Gustavo Junqueira é jornalista

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