Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

docon

Em terra de cego os caolhos vêm de longe

Otoniel Lima é mais um, como Oliveira Junior, que caiu de paraquedas nesses canaviais; Oliveira carreirista do futebol, Otoniel vem do "evangelismo"

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)
 
Os caolhos

Condenado por empregar funcionária fantasma quando foi vereador em Limeira, Otoniel Lima (PRB) deve perder a cadeira na Câmara de Ribeirão Preto. É mais um, como Oliveira Junior, que caiu de paraquedas nesses canaviais. 

Oliveira veio de Jaú, carreirista do futebol e do rádio popularesco; Otoniel, do "evangelismo". Os dois se aproveitaram do eleitorado de Ribeirão Preto, o mais "aberto" do Brasil. Como eles, muitos pescam votos aqui. Depois dão uma banana aos trouxas. Mas não enganam apenas seus eleitores: todos pagam a conta.  

Em 2018, Ribeirão Preto elegeu apenas três deputados (1 federal, 2 estaduais). Mas demos a gente que nunca pisou nessa terra milhares de votos. Para deputado federal, Eduardo Bolsonaro obteve 20.473 votos; Joice Hasselmann, 16.559. Para estadual, Janaína, 35.502. Outros milhares de votos foram desviados para os forasteiros. Mais triste é que esses "alienígenas" conquistaram o eleitorado (por meio de cabos eleitorais que controlam o rebanho) com um discurso de ódio revanchista. 

A "invasão" eleitoral geralmente começa nos partidos de aluguel, cresce com a compra de horários na mídia televisiva e radiofônica por demagogos e completa-se na manipulação dos crentes explorados por profissionais da religiosidade deturpada. 

E não é porque o povo cai na lábia de malandros. Mas porque não existem partidos estruturados em torno de princípios e ideias. Ao mesmo tempo, a vitória dos "estrangeiros" favorece os políticos locais que se pautam pelo pragmatismo populista e clientelismo, prejudicando os concorrentes bem intencionados basta ver quem consegue se eleger. (Por exemplo, Baleia Rossi, poderoso no MDB, faz "dobradinha" em todo o estado e ganha com o enfraquecimento das forças da sua cidade: ele lucra lá fora com o processo que prejudica os postulantes daqui. Como "lá fora" é formado por dezenas de cidades pequenas, sem possibilidade de eleger candidatos próprios, não há prejuízo para elas; em Ribeirão Preto é o oposto.) 

Em terra de cego os caolhos vêm de longe.
 

A farsa como história

O totalitarismo elege um inimigo. O perigo pode não existir, mas o inimigo é declarado perigoso. Se a ameaça é fictícia e o inimigo ilusório, melhor. A luta contra os moinhos de vento inventa riscos e vitórias. 

O melhor inimigo foram os judeus. Isolados em guetos miseráveis, proibidos da política e perseguidos de todas as formas, mesmo assim diziam que eles dominavam o mundo e roubavam o dinheiro dos cristãos. A história é conhecida, da Inquisição ao Holocausto, chegando aos nossos dias sempre que um grupo fascista precisa dar sua "mensagem". 

Bolsonaro elegeu seu "inimigo": o comunismo, que já morreu. Se o inimigo é inexistente a batalha está meio ganha, pois não há reação material possível daquele que sequer é um fantasma, como foi em... 1848. Porém, é preciso mostrar um inimigo "real". Então, apela-se a variantes, como o "marxismo cultural" e o "foro de São Paulo".  

Sem existência política, os comunistas são representados no imaginário bolsonarista por intelectuais e cientistas que solapam a nação nos seus alicerces morais. Os intelectuais são degenerados que destroem a família. Os cientistas divulgam mentiras para travar o progresso econômico assim, o "aquecimento global" e a preservação ambiental são mais perigosos para o Brasil do que a revolução armada, que nessa altura do século é impensável.  

Primário, historicamente comprovado de Nero a Torquemada, dos czares a Mussolini e Hitler, passando por centenas de ditadores e "democratas" como Reagan e Trump, porém, dá certo.  

Algumas farsas se repetem como história.
 

Ovo choco

Para a democracia Bolsonaro é um risco controlado. Tem prazo de validade e pode apodrecer antes do vencimento. O que ameaça o Estado de Direito é a massa crescida com o fermento religioso. 

Um pastor semianalfabeto, sustentado pelo dízimo que tira dos pobres, é mais atuante do que o intelectual proeminente. Tem mais força eleitoral do que o líder político. "Chega" mais aos eleitores do que os partidos. 

As novas seitas congregam, mais do que fieis, os preconceitos latentes de um povo condicionado por quinhentos anos de submissão econômica, cultural e religiosa. Sua "redenção" está na crença de que um deus corrija as injustiças e melhore um pouco a vida terrena, enquanto se espera a ascensão ao céu. 

Teoricamente, historiadores e pensadores sabem disso. Na prática, os espertalhões valem-se disso. A ameaça à liberdade democrática não é Bolsonaro, mas a serpente que já botou seu ovo.
 

A culpa não é minha


Deus criou o mundo
e acendeu o rastilho,
eu suspirei fundo
e não fui empecilho.
 

Identidades

Se há um idiota no poder é porque os que o elegeram estão bem representados. (Mahatma Gandhi, 1869-1948)
 

*a opinião do colunista nem sempre reflete o pocionamento do ACidade ON

Você pode ajudar o jornalismo sério

A missão do ACidade ON é fazer um jornalismo de qualidade e credibilidade. Levar informação confiável e relevante, ajudar a esclarecer e entender os fatos, sempre na busca de transformação. E o seu apoio é fundamental. Ajude-nos nessa missão para construir uma sociedade mais crítica e bem informada.

Apoie o bom jornalismo.

Já é assinante? Faça seu login.

Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON