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Você tem medo de que?

Arrependo-me amargamente de ter assistido Sexta-feira 13, O bebê de Rosemary; O Exorcista e Poltergeist. Foi um horror!

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Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental (Foto: Divulgação)
Fui uma criança medrosa e tímida. Minha cabeça era cheia de caraminholas e eu tinha medo de tudo mas, principalmente, de espíritos, de chuva, de barata, de cachorro, de pessoas e de uma terceira guerra mundial. Tive alguns ataques de pânico e quando as ondas de angústia batiam, o estômago enjoava, os olhos esbugalhavam, o ar faltava e eu tinha a certeza absoluta que iria morrer. E esse era o maior dos medos!

Arrependo-me amargamente de ter assistido "Sexta-feira 13", "O bebê de Rosemary"; "O Exorcista" e "Poltergeist". Foi um horror! Ficar sozinha em casa era um transtorno, sempre precisei da companhia de alguém. Como tinha meu próprio quarto, muitas vezes, ia para a cama dos meus pais e irmãos e quando não era bem recebida, dormia escondidinha no chão, sem ser notada.

Também não gostava de assistir ao Fantástico e ao Jornal Nacional: meu medo era de que anunciassem a guerra nuclear. Se a TV estivesse ligada nesses programas, tapava os ouvidos se falassem sobre o assunto. Notícias da Guerra Fria eram terríveis para mim. 

Falar em público, fazer perguntas em sala de aula, quanto sofrimento! Eu era incapaz, e ainda sou, de ficar em um mesmo ambiente que uma barata. E o medo de chuva? Melhorou, mas do jeito que o clima anda destemperado atualmente, quem não tem medo?

Quando conto essa história, alguns conhecidos se surpreendem. Você, medrosa? Como pode ser tímida se está sempre rodeada de pessoas? Você é uma mulher independente, passa grande parte do seu dia olhando nos olhos dos pacientes e, além do mais, é professora e palestrante! dizem eles.

Pois é, caros amigos, sou, portanto, um exemplo vivo de que medos intensos podem ser superados. E só existe uma maneira de fazer isso: enfrentando-os.

O medo é uma emoção básica, comum a todos os animais e é um dos principais responsáveis por nossa permanência na Terra. Tem um importante valor evolutivo, já que permitiu que nos defendêssemos dos perigos da natureza e dos mais poderosos animais. Como seres humanos, somos dotados de linguagem, damos significados aos eventos e, teoricamente, sabemos evitar riscos e reconhecer as ameaças.

Possuímos elaborados mecanismos mentais de fuga e esquiva, que são necessários à nossa sobrevivência, entretanto, podemos fantasiar perigos diante de condições de absoluta segurança. A isso, denominamos "ansiedade", que vem acompanhada de manifestações no corpo, de pensamentos catastróficos, evitação desproporcional e ímpetos de fuga ou ataque. A esse tipo de padrão ansioso denomino, didaticamente, ansiedade-medo, que nos faz recuar ou querer escapar, ter desconforto e preocupação. Não é agradável senti-la.

Há também a ansiedade-excitação, que está presente quando ficamos na expectativa da ocorrência de um evento futuro. Às vezes, é até gostoso vivenciá-la. Sabe aquele "friozinho na barriga" ao esperarmos por uma festa, um encontro amoroso ou viagem? É disso que estou falando. E aquela sensação de garra, que é combustível para nos engajarmos em atividades difíceis como estudar para uma prova ou nos prepararmos para uma competição? É uma ansiedade que nos faz avançar. Porém, quando a inquietude é demasiada, torna-se um sofrimento.

Não poderia deixar de mencionar a relação entre medo e aventura. Estamos habituados a fazer uma sopa de neurotransmissores contendo dopamina, adrenalina, endorfina e cortisol, ou seja, há situações em que procuramos o estresse porque ele vem acompanhado de uma dose considerável de prazer. Quando uma pessoa pula de paraquedas, escala o cume de uma montanha, entra em um brinquedo radical de um parque de diversões ou dirige um veículo em alta velocidade, costuma sentir na pele os mesmos efeitos de estar sendo ameaçada com uma arma na cabeça ou de passar por uma pane num avião. Entretanto, em razão do sentido que dá à experiência, seu sistema de recompensa é ativado, adicionando prazer à atividade.

Até aí, tudo bem! Um tanto de ansiedade é natural, pois é fruto da evolução e todos sentimos, havendo, inclusive, quem a procure e pague caro por ela. Contudo, a ansiedade pode se tornar patológica e se manifestar de forma bizarra: gastar um sabonete inteiro em um banho de 4 horas, ficar com o coração acelerado enquanto seu filho (casado e com trinta anos) faz uma viagem a trabalho, em estrada boa e para uma cidade conhecida, ser incapaz de frequentar a escola ou, mesmo, de pedir uma pizza por telefone e, ainda, não conseguir conectar-se ao presente por estar fixado e intensamente preocupado com acontecimentos futuros. Esses são alguns exemplos de ações que geram muito sofrimento e culpa ou atrapalham demasiadamente o desenrolar do cotidiano.

Quando a ansiedade se torna patológica, pode ser diagnosticada como Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social), exigindo cuidado médico e intervenção psicológica. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,3% da população, ou seja, mais de 18 milhões de brasileiros possuem algum transtorno desse tipo. É muita gente e, em menor ou maior grau, todos nós convivemos com alguém que sofre assim. Quanto aos medos infantis, afirmei, há pouco, que o enfrentamento é a solução para superá-los. No meu caso, isso só foi possível através da soma de vários fatores: minha mãe me incentivou a me expor ao medo da chuva brincando comigo na enxurrada; como a terceira guerra mundial não aconteceu até hoje, achei melhor esperar para sofrer somente quando for o momento, aceitando que catástrofes acontecem; o medo de espíritos, controlei buscando conhecimento sobre a doutrina espírita, que me permitiu abandonar mitos e adquirir segurança; conversar com pessoas diariamente, apresentar seminários na pós-graduação e falar em congressos foram desafios frequentes que minimizaram minha ansiedade social; para perder o medo de cachorros, nada melhor que ter um e, desde que incorporamos esse novo membro na família, meu medo foi substituído por afeto e carinho. Só quem tem um cão sabe o quanto esses seres são capazes de nos modificar.

Resumindo, para vencermos o medo patológico devem estar reunidas as seguintes condições: exposição assistida (pela mãe, pelo terapeuta ou por quem quer que seja) ao que mais tememos; avaliação racional e realista da probabilidade da catástrofe se confirmar; aceitar que viver é arriscado; obter conhecimento sobre a ameaça; insistir na repetição da ação para adquirir resistência e viver no momento presente.

Quanto ao medo de baratas, se elas surgirem no enredo de Metamorfose, de Kafka ou em A Paixão, segundo G.H., de Clarice Lispector, tudo bem, as encaro numa boa! Fora isso, vou rezar para que elas não atravessem meu caminho, e se aparecerem, certamente, gritarei e sairei correndo, pois existem situações, que simplesmente podemos nos permitir não encarar! 
 
*Fabiana Guerrelhas, terapeuta analítico-comportamental do INBIO (Instituto de Neuropsicologia e Biofeedback) de Ribeirão Preto 
 

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