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Não conheço Bruna Marquezine. Quer dizer, conheço como conhece o resto do país

Neymar é grande atleta e, como se diz, sabe tudo sobre os fundamentos. Mas falta lá uma faísca qualquer; Confira o texto de Fernando Kassab

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)
 
Moram todos lá

Não conheço Bruna Marquezine. Quer dizer, conheço como conhece o resto do país, que a viu atuando desde que era uma menina, quando chorava com uma naturalidade de cortar o coração. Eu, que choro até em anúncio de condomínio de casas, deixava rolar e via certa graça na pequerrucha, uma promessa a ser cumprida, como foram (aleluia!) um Roddy McDowall, uma Elizabeth Taylor, uma Glória Pires e os The Mello Brothers (Danton e Selton, com um duplo aleluia). Mas acho acho... que faltou alguma farinha que desse a grande liga, o brilho real de uma estrela que vá além da fama apenas por ser famosa. A bolsa de apostas ferve.

Não conheço Neymar Jr. Quer dizer, conheço como conhecem os zilhões de torcedores de futebol, sendo que, no meu caso, na escala de 0 a 10 do fanatismo, fico aí pelo 1.5 e estamos conversados. Mas gosto de uma jogada linda, de um passe de classe e de um arremate divino (acabo de escrever isso?!). Vi jogar artistas como Pelé, Ademir da Guia, Rivelino, Tostão, Jairzinho e Carlos Alberto, para ficarmos numa conta rasa e somente brasileira (não dá para abrir a lista dos patrícios e nem ampliar além fronteiras; isso não acabaria nunca) e, sinceramente, noves fora o showzinho constrangedor na Rússia, Neymar é grande atleta e, como se diz, "sabe tudo sobre os fundamentos". Mas falta lá uma faísca qualquer, um outro tipo de fome, que não precise de um assessoria tããão grande, de tanta explicação, fotos, registros, etc etc.

Não conheço Anitta. Quer dizer, conheço como conhece o resto do mundo. Seu rebolado (quero dizer, coreografia) e sua voz, hoje, são celebrados em escala mundial. Nem adianta torcer o nariz, lembrar-se de Elis Regina cantando em Montreux, o Jobim com o Sinatra em Nova York, Caetano Veloso ou Marisa Monte parando Lisboa em noites de show. Anitta é Anitta são tantas em uma só, que ela, que era Anita (que é Larissa, na real), precisou de mais um "t". Para muita gente, seu repertório é um mistério: apesar de repleto de refrões chicletes e frases de efeito, o batidão do funk parece não deixar registro. Para outros tantos, ela é uma fusão das musas Terpsícore, Calíope e Euterpe embora eles não façam a menor ideia de quem sejam.

Não conheço os Kardashians. Quer dizer, conheço como conhecem os habitantes de Marte ou Urano. A fama da família que vive nos EUA e é de ascendência armênia, vocês sabem, é interplanetária. Como nossos vizinhos do cosmos, fico espantado com a repercussão de tudo que fazem, comem, vestem, revelam, não revelam... enfim, o que se sabe, ou não, sobre elas e eles. Tudo junto e reunido, mal dava para encher um prato fundo. Mas o barulho é imenso.

Não conheço a Gretchen. Quer dizer, conheço desde o cro-magnon, também chamado de século 20, mais precisamente dos palcos domingueiros dos programas de auditório. Houve um tempo em que a rainha do bumbum, aparentemente, conseguia estar em todos eles ao mesmo tempo. O rebolado continua e ela pula muito para não deixar de ser notícia. Só pelo esforço deveria ganhar todos os prêmios do ano. Ela merece desde os anos 1970.

Não conheço nenhum ou nenhuma digital influencer. Quer dizer, conheço de ouvir falar que eles existem e que ganham rios de dinheiro sugerindo uma infinidade de coisas às pessoas que precisam destas mesmas coisas um batom, um iate, um prato de canja, um passeio em Noronha. De vez em quando eles tentam falar comigo, mas nunca li, vi ou ouvi nada até o fim. Como alguém que possa vir a ser influenciado, sou um péssimo modelo.

Enfim, não conheço pessoalmente nenhum deles ou delas. E, no entanto, eles parecem fazer parte da minha vida desde a maternidade do hospital Leão XIII, no Ipiranga, onde nasci. Estão espalhados por todos os lados, em todos os veículos de comunicação. São onipresentes, são incontornáveis. Se vivêssemos nos anos 1950 e se eles todos, juntinhos e embrulhados, fossem uma canção, seriam a clássica La Vie en Rose, imortalizada pela sensacional Edith Piaf. A música era tão executada nas rádios e picapes, que diziam que, caso um pneu furasse, bastava por a música para tocar ao lado do próprio, que ele encheria em um minuto, sem precisar sacar o estepe.

Não sei, mas tenho a impressão de que eles vivem todos juntos em uma casa enorme, sobre a qual o sol brilha sempre; acho mesmo que eles se encontram na tal mansão somente para discutir sobre como "virar notícia" no dia seguinte. Também imagino que, de vez em quando, é realizada uma degustação coletiva de camarões à paulista ou de brigadeiro gourmet, cada um com sua própria receita. Meu sonho, um poucochinho masoquista, reconheço, é poder privar de um momento assim com um coletivo tão cintilante. Desde que eles não me peçam um like, é claro. 
 
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