Aguarde...

ACidadeON Ribeirão Preto

docon

Heróis de tudo

Não percebi e nem imaginei que estava indo em direção da rua e da casa em que moraríamos durante as décadas seguintes

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab
 
Heróis de tudo 

Aos dez anos, deitado no porta-malas da Rural - não era bem um porta-malas, como já disse, mais se parecia com um puxadinho, sem a tampa do porta-malas -, não percebi e nem imaginei que estava indo em direção da rua e da casa em que moraríamos durante as décadas seguintes. Era para ser uma surpresa, mas nossos pais quiseram que conhecêssemos antes de nos mudarmos para lá, pouco tempo depois.
A casa nova, grande, solar, com um quintal generoso, com uma imensa churrasqueira de tijolos no meio de tudo, seria nosso novo endereço e ficamos todos espantados com tanto espaço, para além da tranquilidade de uma rua muito arborizada (com praticamente uma árvore em frente de cada casa), em formato de quarteirão, cujo final saía nela própria. 

Ouvíamos, mais de uma vez por dia, o apito dos trens que passavam na parte de cima da rua. Não os víamos devido ao muro que cercava a linha, e em cuja calçada ainda resistem as gigantescas tipuanas que deram e dão sombras generosas, as sementes de "asinhas de helicópteros" e flores amarelas. 

Espalhados pelas casas da rua (que embora seja apenas uma, na verdade são duas, mas que é dificílimo de explicar...), moravam os meninos e as meninas que formariam o time da adolescência. Nossa convivência com eles era uma experiência completamente nova. Até então, quase não havíamos tido vizinhos da nossa idade. Agora somávamos quase duas dezenas. 

Juntos, irrequietos e mais rápidos do que o trem (nos quais subíamos apenas pelo prazer de fazer passeios curtos e azucrinar a vida dos ferroviários), achávamos-nos heróis de tudo. Dos bailinhos de garagem ao som de Billy Joel ou de Ricky Shayne, às festas nas vizinhanças e andanças pela madrugada, éramos a Turma do Bota (de Botafogo, o bairro, um dos mais antigos de Campinas) e "éramos mais", ou pelo menos achávamos que éramos. 

Deitado no porta-malas, nada disso existia até aquele dia. Uma hora depois, era tudo real. Deitado no porta-malas, não sabia o quanto aquela rua e aquele quarteirão fariam parte de nossas vidas. Morei em outras ruas (inúmeras, em várias cidades) e tive outras vizinhanças. Mas nenhuma igual. 

Quando desci do carro e pisei na rua pela primeira vez, não imaginava nada. Menos ainda que, passados cinquenta anos, eu estaria morando nela novamente, mas em outra casa. É onde vivo hoje, na mesma casa em que, aos 10 anos, eu frequentava o quintalzinho gostoso, com uma macieira que dava frutos azedos e que eu adorava comer com sal, e uma laranjeira que também servia de "posto de observação" contra os índios imaginários do forte apache. 

Da janela do meu quarto, vejo hoje o mesmo quintalzinho, mas completamente diferente, sem maçãzinhas ou sioux. Mas estou na mesma rua. Talvez a permanência, ou retorno, seja o gatilho para a minha memória. Para mim, o estado de vigilância por causa do maldito bicharoco, ficar em casa tanto tempo, ainda que trabalhando, funciona como um poderoso mecanismo de resgate. 

Da porta da casa em que vivo, vejo a casa em que morei durante mais de duas décadas. Vejo a rua, hoje quase sem árvores, vejo as calçadas de pedra portuguesa, vejo as tipuanas e vejo o muro da linha do trem, um trem que foi para nunca mais voltar e de cujo apito sempre sentirei falta. 

Da porta de casa vejo os heróis de tudo, felizes, despreocupados e agitados. Ouço as saídas noturnas sendo combinadas e as viagens do Verão seguinte sendo marcadas. Vejo as festas do Bota, com palcos armados no meio da rua. Vejo os acampamentos em Águas da Prata, vejo as meninas calçando Dr. Scholl e morrendo de amores pelo Ryan ONeal, e vejo os meninos com as calças Gledson e os sapatos Tops, tentando entrar em pelo menos uma sessão de cinema com uma das dezenas de pornochanchadas que viraram fenômeno mundial. 

Vejo os pais e as mães de todos, de certa maneira mais tranquilos em saber que todos eram amigos e que, em último caso, uns cuidariam dos outros. Era verdade. Mas, graças aos altos índices de uma coragem um tantinho absurda e inconsequente, era também uma temeridade, já que se acontecesse uma tragédia, estariam todos juntos também. Escapamos de várias, encaramos outras, salvaram-se todos. 

Da porta de casa vejo, com clareza, muitos sonhos sendo realizados, objetivos conquistados e certezas confirmadas. Vejo também muitos desejos frustrados, decisões equivocadas e convicções que deram em nada. 

Da porta de casa olho para ontem, na rua de sempre, e vejo meninos e meninas que pensavam no futuro como num sonho, bonito e colorido. Nele, ninguém seria atropelado por um vírus que atravessaria o planeta e mataria em velocidade recorde. 

Naquele sonho, enquanto viviam aqueles tempos, naquela rua tão particular, meninos e meninas não pensavam na morte, no medo da morte. E, caso pensássemos na morte, nenhum de nós pensaria na despedida sem cerimônia, sem o luto. 

Jaiminho, o menino bonito e de sorriso fácil que morava na rua de cima, do outro lado da linha do trem, mas que entrava em nossa rua com os melhores e mais potentes carros, esbanjando um charme tímido que fazia muito sucesso com as meninas, foi embora no domingo, sem a menor chance de um adeus. 

Ficará na memória como o dono da linda fazenda de café em São Sebastião do Paraíso, que gostava de contar causos e relatar "as últimas", sempre seguidas de largas gargalhadas e uma cara vermelha da timidez que nunca foi embora de vez. De todos nós quando mais jovens, talvez fosse ele o que menos pensasse no fim. Quando garoto e cheio de sonhos, Jaiminho parecia não pensar nem mesmo no amanhã, dando sempre a impressão que o dia seguinte seria certamente melhor. Afinal, ele era um herói de tudo.

Mais do ACidade ON