Estilista da região de Ribeirão é premiada em Paris

Márcia de Carvalho desenvolveu projeto de reciclagem de produtos têxteis

    • ACidadeON/Ribeirao
    • José Manuel Lourenço
Márcia de Carvalho: "O que temos é uma quantidade enorme de 'lixo têxtil', que é desperdiçado e que pode ser reutilizado para ajudar a quem precisa" (Foto: Weber Sian / A Cidade)

 

A estilista Márcia de Carvalho, da região de Ribeirão Preto, recebeu uma das principais comendas do governo da França pelo desenvolvimento de um projeto de inserção social em uma das regiões mais carentes de Paris. Dos 1.379 agraciados em 2016 com a condecoração, ela foi o único cidadão brasileiro a receber a Ordem do Grande Mérito Nacional.

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O motivo são os 25 anos de trabalho da estilista na França, parte deles dedicada a viabilizar uma ideia chamada “Meias Órfãs”. “É um projeto de reciclagem têxtil, sobretudo de meias. Mas é, também, um projeto de inserção social, aplicado na região de Goutte d’Or, um bairro popular de Paris, com muito imigrantes, onde está o nosso ateliê”, disse.

A ideia começou a tomar corpo em 2002 e, seis anos depois, virou a Association Chaussettes Orphelines (Associação Meias Órfãs). No ano passado, o projeto foi o vencedor do Prêmio Paris Sustentável. Esta semana, a estilista confirmou que também pretende implantar a ideia na região de Ribeirão Preto.

Cadê a outra meia?

O passo inicial do projeto é a recolha de meias sem par em pontos de coleta em escolas e prédios públicos de Paris. “Nós recebemos caixas e mais caixas de toda a França com meias órfãs”, disse. A cada mês, segundo ela, centenas de quilos dessas peças são descartadas pelos donos na França, o que causa um problema. “O que temos é uma quantidade enorme de ‘lixo têxtil’ que é desperdiçado e que pode ser reutilizado para ajudar a quem precisa”, completa.

Inicialmente, quando as quantidades eram menores, o projeto reconstruía as meias, criando peças de roupas em um trabalho de patchwork. No entanto, com o tempo e o aumento no volume das doações, essa atividade artesanal teve de adquirir um perfil mais industrial. Hoje, depois de recolhidas, as meias são levadas para uma fábrica no sudoeste da França para serem “desmontadas” e transformadas em fios e novelos.

Foram necessários cerca de três anos para se encontrar uma solução técnica que permitisse a transformação das meias em novelos e, a partir daí, em blusas, vestidos, saias, cachecóis, luvas, suéteres, gorros e até protetores de teclados de computadores. Por ano, são recicladas entre uma tonelada e uma tonelada e meia de meias órfãs.

O fim dessa linha de produção é uma parceria com a Associação das Crianças de Goutte d’Or. O dinheiro arrecadado com a venda das peças é doado a essa organização não-governamental, que o utiliza para realizar melhorias no bairro e realizar cursos de formação em design têxtil para os moradores locais.

Peças produzidas a partir de meias orfãs e ganharam a atenção do público durante cerimônia de premiação do governo francês (Foto: José Manuel Lourenço / A Cidade)

 

Condecoração

Márcia de Carvalho foi condecorada no dia 23 de fevereiro, em Paris. A premiação é definida pelo governo francês como “uma recompensa moral” pelo trabalho desenvolvido por franceses e estrangeiros no estabelecimento de uma sociedade mais justa.

Márcia organizou um desfile solidário com as peças da coleção deste ano, onde os modelos eram pessoas do Goutte d’Or e pessoas de manequins diversos do encontrado nos desfiles tradicionais.

Brasil deve ganhar projeto

Atualmente de férias no Brasil, Márcia de Carvalho confirmou que pretende trazer o projeto Meias Órfãs para o País.

“A ideia é levar essa ideia para o interior de São Paulo e, especialmente, para Ribeirão Preto, por ser a minha região”, disse a estilista.

Segundo ela, o projeto ainda está no estágio inicial e já houve várias conversas com diversas empresas interessadas em participar de eventuais parcerias.

Em 2009, a associação criada por Márcia na França já desenvolveu projetos no Brasil. Na ocasião, foram oferecidos estágios a artesãos e pessoas em estado de inserção social, todos vindos de comunidades carentes dos estados de Alagoas e Rio de Janeiro.

Quem é a estilista Márcia de Carvalho

Natural de São Paulo, mas criada em Joaquim da Barra, filha de uma empresária e estilista de moda e de empresário que trabalha com informática e reciclagem, Márcia de Carvalho chegou à França em 1987 para estudar design na Escola Fleuri-Delaporte.

Até criar a sua própria marca, em 1991, ela trabalhou com as grandes casas de moda francesas, como Popy Moreni, Chloé, Paule Ka, Torrente et Azzaro, principalmente como assistente de criação de coleções femininas.

Atualmente, Márcia e a Associação Chaussettes Orphelines fazem parte de um projeto criado pela Prefeitura de Paris que reúne diversos profissionais do design têxtil e criação de moda para desenvolver workshops e atividades de formação na área para moradores do bairro Goutte d’Or.


2 Comentário(s)

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Ligial

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Parabéns Márcia motivo de muito muito orgulho por ser mulher em primeiro lugar e Brasileira. Gostaria de trocar ideias sobre moda e poder te seguir mas não encontrei no face. gostaria de um contato por gentileza.Obrigada.

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Maria Genoveva Rezende

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Parabéns Márcia! Motivo de muito orgulho pra toda a família!