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Julio Chiavenato: Por que o fácil é tão difícil?

Futuro prefeito não resolverá os problemas básicos de Ribeirão. Talvez nem saiba quais são. Ou não se preocupe com eles. Não se trata de pessimismo, é a realidade

| ACidadeON/Ribeirao

Jornalista e escritor Julio Chiavenato (Foto: Weber Sian / ACidade ON)

O futuro prefeito não resolverá os problemas básicos de Ribeirão Preto. Talvez nem saiba quais são. Ou não se preocupe com eles. Não se trata de pessimismo, é a realidade comprovada historicamente. 

Comecemos com um dos dramas urbanos: transporte coletivo. Tivemos ônibus com ar condicionado, itinerários racionalmente estabelecidos etc. Não eram apenas os elétricos da Transerp (implantados em 1982 e desativados em 1999), mas também os "diesel" das concessionárias.  

Hoje, os veículos são insuficientes em quantidade e sofríveis em qualidade. Nos últimos trinta anos complicou-se a mobilidade urbana: a cidade se expandiu horizontal e verticalmente, a população aumentou muito e proporcionalmente os recursos municipais minguaram. Além dos casos de corrupção, prisão da ex-prefeita e vereadores, enfim, tudo o que herdamos, mais a pandemia. 

Teoricamente é "simples" melhorar: basta reformar o sistema viário, comprar ônibus decentes, organizar o trânsito e cobrar barato dos usuários, proporcionando-lhes deixar carros e motos em casa. Tão "fácil" que é impossível na prática: nem se pensa nisso, porque não há condições financeiras. 

Da mesma forma a saúde pública se resolveria com a "simples" contratação de mais médicos, ampliação de postos de atendimento, conclusão de obras paralisadas etc. Não há segredo, mas a realidade impede qualquer solução que não seja paliativa, o que agrava o que já é deficiente. Idem na educação: além de superar defeitos materiais dos prédios escolares, seria boa medida contratar mais professores, pagá-los como eles merecem e oferecer dignas condições de aprendizado aos alunos. 

São soluções possíveis "no papel", mas impossíveis na prática, porque não há dinheiro, embora o município arrecade cerca de R$ 3 bilhões anualmente. Por isso, a pergunta deveria ser: por que tanto dinheiro não é suficiente para amenizar a vida do povo? 

A resposta dos políticos é simplista: dizem que quase todo o orçamento é gasto na manutenção da máquina administrativa e burocrática, salários etc. E nesse ponto esgota-se o assunto: não se trabalha para mudar a situação. Claro: mudanças administrativas verdadeiras decorrem de transformações estruturais que a sociedade brasileira não quer enfrentar e, quando finge encarar, pune as vítimas: aumento de impostos e restrições de serviços públicos. 


O mundo real da mesmice

Então, estamos condenados a uma vida comunitária insatisfatória? 

Não, se o futuro prefeito, mesmo sendo vítima das circunstâncias que inibem soluções ideais, souber quais as prioridades comunitárias e para quem deve governar prioritariamente. Porém, é difícil encontrar essa capacidade no quadro político atual. Não existem partidos com ideário ou programa definidos, portanto, não há base para um projeto de governo que não seja, por exemplo, o que Duarte Nogueira faz: ir levando e construir viadutos; isso exala um falso ar de progresso, alivia o trânsito em áreas pontuais e ajuda eleitoralmente. 

O Brasil ainda não assimilou a Constituição de 1988 e com Bolsonaro há uma tendência a "renegá-la". Isso se reflete nos municípios, independentemente do reconhecimento ou não dos políticos. Para o bem e para o mal, as grandes mudanças no país ocorreram em 1930 (Vargas), 1964 (golpe militar), 1985 (fim da ditadura) e se "estabilizaram" a partir dos anos 2000 - o governo Lula não conseguiu avançar as propostas populares e provocou a reação da direita que se "empolgou" com Bolsonaro. Este, representando o pior do atraso político, é um trapalhão fascistóide. Perde-se em bravatas ideológicas e mentiras grosseiras, mas consolida seu caminho à reeleição. Sintomaticamente, agora com o apoio de 40% da população, presa da sua alienação e de uma falsa consciência política. No rastro disso, sofrendo as consequências que vêm desde 1930, com avanços e recuos, os municípios entraram em um processo automático de subserviência a grupos de poder. Por um lado, fim dos coronéis; por outro, novas lideranças sem lastro político e cultural. Isso resultou no abandono da política como meio de luta pelo bem estar social. Tradução: o público é tratado como privado - tanto pelos poderosos como pela "massa popular". O coronelismo acabou, mas o caciquismo se impôs; e o cacique, aliado às classes dominantes, é uma caricatura perfumada do coronel. O povão parece gostar do seu cheiro. 

Dessa forma, o próximo prefeito será mais um. 


Mitômanos

A fumaça cobre o céu
e a peneira tampa o sol,
a verdade vai pro beleléu
e a mentira é um farol
de apagada luz mortiça
da Amazônia ao Pantanal
disfarçando a carniça
desse diabólico festival:
morre bicho, morre gente,
morre o bem, vive o delito
e quanto mais ele mente,
mais a turba grita: Mito! 


Marca indelével

Ceticismo é a marca e a atitude de uma mente educada. (John Dewey, 1859-1952)

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