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Até porque, no final das contas, nós amamos odiar Neymar

A condenação atroz não se justifica, em que as críticas ao seu comportamento, menosprezam a história escrita dentro de campo

| ACidadeON/Araraquara

Hoje, o Paris Saint-Germain enfrenta o Bayern de Munique pelas quartas de final da Liga dos Campeões. (Foto: Divulgação)
No último sábado (3), Neymar foi destaque no mundo do futebol, mesmo sem ter causado encanto algum com a bola nos pés.  

No jogo contra o Lille, o Paris Saint-Germain foi derrotado por 1 a 0, em um confronto direto que valia a liderança do Campeonato Francês. Ao final da partida, quando o tempo para a reação já era escasso e o próprio desempenho do PSG fazia duvidar que o empate viria, o brasileiro, mais uma vez, foi vítima da própria sina.

Em um lance infantil, depois de já ter sido advertido com um cartão amarelo por um desentendimento com Benjamin André, Neymar empurrou Tiago Djaló, que atrapalhava uma cobrança rápida de lateral. Pelo entrevero, recebeu o segundo cartão amarelo e foi bem expulso. Um exagero absoluto será se a Comissão Disciplinar da Liga de Futebol Profissional da França (LFP) der um gancho de três jogos ao atleta, o que é uma possibilidade.

Nesse sentido, voltam os questionamentos sobre a capacidade de Neymar se tornar uma liderança serena para sua equipe, como conseguem ser Messi, Cristiano Ronaldo, De Bruyne, entre outros craques que são capitães. Contudo, isso parece ser, cada vez mais, uma expectativa dos outros, e não um desejo genuíno do jogador.

Desde que se tornou príncipe do parque parisiense, Neymar já recebeu quatro cartões vermelhos em 105 jogos (dentre essas expulsões, o episódio de injúria racial envolvendo Álvaro Gonzáles, do Olympique de Marseille, deve ser desconsiderado). Em compensação, no Barcelona, o craque brasileiro só foi expulso uma vez em mais de 180 partidas. Inclusive, entre 2012 e 2017, Neymar não recebeu cartões vermelhos em jogos por clubes de futebol. Com a seleção brasileira, foi expulso em 2015.

Com isso, na mesma medida em que Neymar é incapaz de lidar com a sua frustração em jogos ruins e derrotas e, por isso, destempera-se, fica evidente que determinados ambientes são capazes de constranger o comportamento errático do jogador. Trata-se de um craque fadado a ser príncipe, mas nunca rei. Entretanto, ainda assim, é um craque.

Campeão da Liga dos Campeões como artilheiro, fazendo gols em todas as partidas a partir das quartas de final, e também da Copa Libertadores. No Barcelona, foi decisivo na remontada contra o Paris Saint-Germain, do mesmo modo que, no próprio PSG, foi fundamental em jogos contra o Manchester United, a Atalanta, o Borussia Dortmund, o Liverpool e o Bayern de Munique, justamente em confrontos da elite europeia. No ouro olímpico com a seleção brasileira, Neymar também fez a diferença, assim como na estreia da Copa do Mundo de 2014, contra a Croácia. Pelo Santos, os exemplos são inúmeros.

Com 29 anos, Neymar já é o jogador brasileiro que mais fez gols na Liga dos Campeões, assim como (em jogos oficiais) é o segundo maior artilheiro da história da seleção brasileira, atrás apenas de Pelé, tendo ultrapassado Ronaldo, Romário e Zico.

Ninguém é obrigado a gostar de sua figura pública, mas a condenação atroz não se justifica, em que as críticas ao seu comportamento, consecutivamente, menosprezam também a história que já foi escrita dentro de campo. Isso revela que, no descompasso entre expectativa e realidade, a frustração com Neymar também não é tolerada.

Isto posto, a sentença sobre Neymar, em relação ao jogo contra o Bayern de Munique, já está consumada: se vencer, será porque Lewandowski estava fora da partida; se perder, será mais uma prova do seu irrefutável fracasso, porque não conseguiu derrotar um gigante europeu mesmo sem o melhor jogador do mundo do outro lado.

O encantamento com o seu jogo está proibido. Até porque, no final das contas, nós amamos odiar Neymar.

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