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Que se ergam quilombos em cada mente como resistência ao racismo

Avanços aconteceram, mas é preciso destruir mitos e desigualdades pelo viés racial

| ACidade ON - Circuito das Águas

Arte: Bira Dantas
(...)
Meu sonho jamais faz silêncio
É a lança brilhante de Zumbi
(...)
Meu sonho não faz silêncio
E não é apenas promessa
Planta em mim mesmo, na alma
Palmares, Palmares, Palmares
Pelo que de belo, pelo que de farto
Muitos Palmares
(...)
Ergue Quilombos, aqui, ali
Em cada mente, em cada face
Impávidos como Palmares, impávidos Ilês
Em todos os lugares

(Poema Meu Sonho Não Faz Silêncio, de José Carlos Limeira)  

 Esse trecho do poema do baiano Limeira ecoou em minha alma. Que a luta de Zumbi dos Palmares seja plantada dentro de minha mente, de tal forma a matar toda e qualquer "ideia erva daninha", fruto de concepções e mitos históricos criados para subjugar os descendentes de africanos. Porque, como me disse a minha amiga-jornalista Maria Alice da Cruz Paula: "É preciso ser um racista em desconstrução." 

Afinal, uma branca nunca vai sentir os olhares, as piadinhas e indiretas sofridas por uma negra, a perda de uma vaga de emprego por conta de sua pele e um joelho a sufocar-lhe até a morte. Nesse 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, convido todos a refletirem comigo sobre o amor, o respeito e a civilidade. Mas, venham desarmados: venham realmente querendo entender o que é ser negra/negro em um país onde impera o racismo estrutural. Não trago números. Eles são frios. São importantes para elaboração de políticas públicas, mas escondem rostos, vidas.

Mas, que vozes negras impávidas como Palmares, descrito pelo poema, convidar? Muitos negros saíram vitoriosos nas urnas eleitorais, aumentando a representatividade. Ainda assim, infelizmente, continuamos assistindo corpos negros sendo tratados de maneiras descartáveis e com desprezo em uma versão contemporânea. Por isso, meu objetivo desta vez foi criar um "aquilombamento de ideias", e pedi ajuda de Maria Alice, jornalista aposentada da Unicamp.  

Foto: Arquivo pessoal de Maria Alice da Cruz Paula
Segundo Alice, como a chamo, "é preciso fazer uma tomografia de consciência, ir a fundo nesse diagnóstico", referindo-se ao fato de que é necessário não apenas reconhecer que o racismo existe, mas ser antirracista. "Porque as pessoas se manifestam contra uma atitude racista, colam lá seu adesivo no perfil da rede social, mas não permitem que o outro avance, explora a inteligência de seu colega de escola, de seu colega de trabalho e não dá os créditos, mesmo sabendo que a empresa jamais nomeará aquele amigo inteligente para um cargo de confiança (...)."

Menos discurso e mais ação é a luta do movimento negro. "O Brasil nasceu racista", afirmou Alice. "Esta história racista foi para os livros, foi para as cenas de novela na pessoa daquela personagem que repetia: tadinha da sinhazinha; tadinho do patrão. Quando o negro consegue, enfim, frequentar a sala de aula, essa história racista já está lá, e ele vai enfrentar sérias dificuldades. Quando ele vai para o mercado de trabalho, sem carta de recomendação, essa história está presente lá no ambiente corporativo. E ela não sai. Ela pode até ter sido reduzida, mas não sai. Quando vai para a universidade, a mesma coisa."

Escritora, Alice lembrou ainda que "o mercado editorial é resistente a autores negros" e que torce para o reconhecimento deles. "É preciso dar atenção à produção de artistas e literatos negros. Assim como é preciso valorizar o profissional negro em todos os campos de atuação." Por isso, para ela, o Dia da Consciência Negra é uma data importante para valorização da ancestralidade e o combate ao racismo. Leia a entrevista completa de Alice clicando aqui.   

"Racismo não é inocente, nem pessoal"  

Pedi para Alice que me ajudasse, indicando pessoas que eu pudesse entrevistar. Foram vários nomes indicados por ela e cinco aceitaram meu convite. Cinco mulheres negras ligadas à Unicamp, assim como Alice. Todas com papéis importantes dentro da Universidade, que é uma referência para o país. Histórias de sucesso e de empoderamento, construídas com muito esforço, resiliência, resistência e coragem. A primeira a me responder foi a historiadora e feminista negra Magali Mendes.  

Foto: Magali Mendes/Arquivo pessoal
É dela a frase do intertítulo acima. "A origem do racismo estrutural é pensar que a colônia, o império e a república brasileira alimentaram e alimentam sua economia, suas riquezas e privilégios a partir da usurpação das terras indígenas e da mão de obra de trabalhadores e trabalhadoras negras. Para que isso se mantenha até os dias de hoje, foi necessário que as instituições e sociedades desses períodos históricos criassem e sustentassem mitos e desigualdades pelo viés racial. Quando entendemos isso, percebemos o quanto o racismo brasileiro foi e é bem elaborado, pois envolve teorias, práticas, significações e ressignificações", explicou Magali.  

Quando perguntei sobre o fato de o racismo vir ancorado em argumentos que tentam minimizá-lo, como a ideia de vitimização, Magali me disse que ele "sobrevive de teorias e práticas". Reiterou que não é inocente. "Colocar o racismo no campo da vitimização, ou seja, individualizar o problema, é uma tentativa de barrar a organização coletiva e também para que não se assuma o racismo como um problema social e não apenas das vítimas de racismo." Confira aqui a entrevista completa de Magali.

Por isso, para a professora Ângela Cruz, irmã de Alice, os estudos sobre africanidades nas escolas, trabalhando as diferenças, promovendo a igualdade e a diversidade, é fundamental para enfrentar o racismo. "Hoje, por exemplo, eu ofereci uma aula sobre consciência negra aos meus alunos. Precisamos apresentar os autores negros. O preconceito, de modo geral, tomou conta das redes e de outros ambientes, e nós temos um papel importante na formação dessas crianças. Nós e as famílias." Leia o depoimento de Ângela, clicando aqui.  

O mito da democracia racial

Quando criança, uma amiga minha, a única negra da sala de aula, foi punida sozinha quando todas, - a escola católica era só de meninas - havíamos aprontado uma traquinagem com a freira, escondido a sua Bíblia. Ela teve descontado um ponto da prova. Cheguei em casa e contei para a minha mãe e disse que não achava justo. Afinal, a ideia nem tinha sido dela. Nem me lembro de quem foi. Mas, isso não é importante. Lembro de minha mãe me colocando dentro de seu Fusquinha e irmos voando até a escola.

Ela entrou na sala da diretora e saiu de lá toda feliz. Disse que a minha amiga já tinha recuperado o ponto e que eu nunca deveria me calar diante de uma injustiça. Entendi ali, com minha mãe, a importância de se posicionar contra o racismo. Assim, foram muitas das leis criadas, que, na prática, não ajudaram a inserir os negros na sociedade com o fim da escravidão.

E isso se mostrou ainda mais real ao ler o texto da jornalista Cecília Olliveira, pós-graduada em Criminalidade e Segurança Pública e em Administração Pública com ênfase em Gestão Social, sob o título: Apartheid à brasileira: como a falácia da democracia racial escondeu o racismo das leis

Logo me veio à cabeça a conversa com a nutricionista Maria Ester Januário, que se aposentou na Unicamp. Foi várias vezes preterida a uma vaga de emprego por conta de sua cor. Mas, deu a volta por cima e se tornou diretora do Serviço de Nutrição no Hospital da Mulher/Caism de 2015 a 2019. Casada com marido branco, ouviu algumas vezes: "O que que essa negrinha tem que eu não tenho?" Irei usar aqui a resposta bem dada do marido de Ester: "Em primeiro lugar, a educação".  

Foto: Maria Ester Januário/Arquivo pessoal
Perguntei a Ester como era ser mulher negra. A palavra que permeou a sua resposta foi invisibilidade. "Ser mulher negra é lidar constantemente com discriminação racial e cenas racistas em nosso cotidiano. Ser mulher negra é ser invisível, em diversos setores da sociedade. É ser visível ao entrar em uma loja, mercado, não no contexto de ser bem atendida, mas com o olhar de desconfiança. É ser criativa o tempo todo, dar conta de sustentar uma família com poucos recursos financeiros. Ser mulher negra é ser combatível, pois existe toda uma mídia ditando o padrão de beleza. Temos que ser muito mais defensivas para não ser um objeto. É ter muita coragem e ainda trazer uma alegria, acolhimento, força e um sorriso que, às vezes, é confundido com insinuações sexuais. É colocar um bloco na rua, é gerenciar e proporcionar a alegria, por si só, é cuidar dos nossos filhos, do trabalho, estudos...sofremos o tempo todo, mas, mesmo assim, ressurgimos das cinzas." A íntegra da entrevista de Ester pode ser acessada aqui.  

Não deixe o racismo ressignificar  

Assistente social e militante do movimento negro, Aparecida do Carmo Miranda Campos, a "Tida", sempre abrigou uma inquietação interna sobre a desigualdade da população negra em segmentos da sociedade. Não é à toa que, em 2005, ela e um docente infectologista da Unicamp se inscreveram e o projeto deles foi contemplado, entre outros de 16 instituições de saúde pelo Brasil. Eles fizeram uma pesquisa comparativa entre população negra e não negra de acesso e atendimento de HIV/Aids no HC da Unicamp.
  

Foto: Aparecida do Carmo Miranda Campos, a "Tida"/Reprodução
O resultado da pesquisa mostrou que havia desigualdade no acesso ao atendimento. A população branca chegava mais rapidamente em detrimento da população negra que, além de demorar para chegar, ainda fazia diagnóstico mais tardiamente e, em consequência disso, morria. "O Brasil carrega esse ranço racista eurocêntrico; por esta razão, tem um atraso na questão humanitária e de direitos humanos. Para mudar esta realidade, é preciso reparar este erro histórico do racismo, é preciso evidenciar e dar visibilidade as estas discussões, além de somar as ações antirracistas e buscar políticas que de fato diminuam as desigualdades", disse Tida.

Para ela, é preciso não deixar que o racismo se ressignifique. "O mundo está mudando e, para que seja possível um mundo melhor para a humanidade, temos que desconstruir o racismo, machismo e outros ismos tão primitivos ainda nesta constituição mundial moderna. Não podemos permitir que o racismo se ressignifique e crie outros modos operandi de se perpetuar. Como disse um dia Achille Mbembe: A democracia só é viável se o racismo for combatido radicalmente. Afinal vidas negras importam!!!!" Confira aqui a entrevista completa da Tida. 

Importância da Lei de Cotas

A cientista social Milena de Oliveira Santos foi, em 2011, a única mulher negra de sua turma de graduação e isso se repetiu no mestrado em demografia, em 2016. "Olha... posso dizer a você que é péssima a experiência de ser única nos espaços e minha luta tem sido no sentido de que mais pessoas negras, indígenas, trans, enfim, para que todas as pessoas tenham acesso ao espaço universitário. Quando adentrei a esse espaço, ainda éramos muito poucos. (...) As minhas experiências na universidade foram, nesse sentido, perpassadas pela solidão, pela falta de identificação com os colegas. As discussões sobre as questões étnico-raciais também pareciam não ter espaço, mas foram conquistando terreno no decorrer dos anos a partir da intencionalidade de alunos, funcionários e alguns professores."
 

Foto: Milena de Oliveira Santos, feita por Rafa Kennedy
No mestrado, Milena estudou o ingresso de estudantes nas universidades federais brasileiras por distinção de raça/cor. No doutorado, ainda em andamento, sua preocupação se dá em relação à permanência e conclusão dos cursos de graduação. "No mestrado, pude constatar que é claro o aumento substantivo de pessoas pretas e pardas nas universidades federais a partir do estabelecimento da Lei 12711/2012 - a chamada Lei de Cotas. Contudo, até o ano de 2016 ainda era possível identificar uma certa estratificação entre as áreas de entrada dos diferentes estudantes. Mulheres negras encontravam-se com maior frequência na área de Serviço Social, enquanto as brancas, por exemplo, estavam em áreas como Artes."

Hoje, Milena faz parte do Grupo de Estudos de Raça e Desigualdade na Demografia (GERDD). "Com o grupo, a nossa intenção é promover o debate acadêmico sobre questões demográficas que envolvem a população negra e indígena. A intenção é romper o epistemicídio - que a filósofa Sueli Carneiro define em sua tese como a negação de sujeitos negros enquanto produtores de conhecimento - a partir da elaboração de estudos sobre e a partir de pessoas negras", explicou.

Sobre a data de hoje disse: "Incluir a data em calendário nacional ou municipal revela o desejo de discussão das condições de vida de pessoas negras, que são a maioria no país. Entretanto, a importância do debate e engajamento político não se restringe a esse dia. O compromisso com a justiça social e, com ela, o fim do racismo deve ser diário e de construção coletiva. (...)" Conheça a história e opinião de Milena clicando aqui

Covid-19 matou duas vezes mais grávidas pretas

A enfermeira Débora de Souza Santos, doutora em Ciências da Saúde e docente da Unicamp, realizou um estudo recente, publicado com um grupo de renomadas pesquisadoras brasileiras da obstetrícia, na revista científica Clinical Infections Diseases. Ele revelou que a mortalidade materna em mulheres pretas devido à Covid-19 foi quase duas vezes maior que a observada em mulheres brancas. O estudo se intitula Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lens. Débora concedeu entrevista em vários sites, como G1, Infobae e CBN.  

Foto: Débora de Souza Santos/Arquivo pessoal

O estudo é sobre a desproporção do impacto de Covid-19 em mulheres gestantes brancas e pretas sob a lente do racismo estrutural. Sobre isso, foi lida uma carta durante audiência pública da Câmara dos Deputados, em 5 de agosto deste ano. Esta carta e a entrevista completa de Débora podem ser acessadas clicando aqui. "Acredito que a luta antirracista começa na educação, formal e informal. Como professora de enfermagem em saúde coletiva de uma universidade pública de excelência, construída no contexto de uma sociedade estruturalmente racista como a brasileira, entendo que tenho o dever de incluir na formação a reflexão crítica sobre a construção histórica do racismo e suas consequências para a população brasileira, marcada por desigualdades raciais e sociais, que repercutem no campo da saúde de forma opressiva, violenta e injusta." Segundo ela, é a partir da sala de aula que se pode fazer análise crítica sobre a realidade e criar estratégias de mudanças no âmbito do SUS.

Solidão

Todas essas vozes negras femininas me fizeram pensar o que um homem negro sente. O meu amigo Elias Aredes Junior, jornalista e radialista, me respondeu: "Solidão". Achei estranho porque sempre o vejo cercado de muitas pessoas. E aí, ele me explicou: "Minha luta é solitária. De todas as negras e negros. Inglória. Um jardim de derrotas permeado por flores de triunfos. Todas obtidas na mais absoluta solidão. Não há como pedir ajuda ao amigo branco. Por que ele não tem a dimensão de sua dor. Não existe uma maneira de juntar forças com outros negros e negras. Estamos tão exauridos, esgotados, cansados de tanta luta que por vezes somos incapazes de estender a mão. Não por que não queremos. Mas porque não temos força. Nossa energia é tragada por pessoas, instituições, partidos, coletivos que têm apenas uma meta em mente: nos subjugar."  

Foto: Arquivo pessoal de Elias Aredes Junior
Esse sentimento de solidão também foi revelado por algumas das entrevistadas. Você se vê só, mas precisa mostrar que é forte. Perguntei ao Elias então o que esperava deste 20 de novembro: "Neste dia 20 de novembro, os debates serão intensos. Os depoimentos serão colhidos aos milhões. Eu só peço: parem de nos ferir, machucar, de destruírem nossas almas e nossa autoestima. Abram as portas para que possamos lutar, ocupar o nosso espaço e viver em paz. O Brasil tem dívida conosco. Já passou da hora dela ser paga." Confira aqui o depoimento de Elias, do portal Só Derbi

Fiz a mesma pergunta ao metalúrgico e pesquisador Israel Moreira, pós graduado em Engenharia de Produção e cursando o terceiro semestre de Sociologia, ambas pela Universidade Paulista (UNIP). "O dia da Consciência Negra está vivo em cada pedaço percorrido das ruas Negras de Campinas. Ainda hoje, ao transitar por antigos territórios negros campineiros, seja ele a Rua Abolição, a Treze de Maio, Mestre Tito ou Luiz Gama, sentimos pulsar a luta dos antepassados. Isso é 20 de Novembro, na prática!"

Memória

Pensei então em falar na história e nas memórias de um local ligado à cultura afro em Campinas. Alice, minha amiga do início do texto, me sugeriu falar da Rua Abolição, num gesto de pura generosidade, porque ela tem um projeto de fazer um minidocumentário sobre essa via, que era reduto dos escravos recém-libertados.
 

Foto: Israel Moreira/Arquivo pessoal
O pesquisador Israel logo me socorreu e explicou: "A Rua Abolição abrigou a partir de 1888, até o fim da década de 1950, boa parte da comunidade negra de Campinas. Essa comunidade, fincou raiz no local e suas tradições, culturais e religiosas, se mantiveram por muitos anos presentes na vida do bairro da Ponte Preta. Seus cortiços, abrigaram os negros, expulsos e desapropriados, pela expansão do centro da cidade, promovidos pelo Plano de Melhoramentos Urbanos e pelas ações do prefeito Rui Novaes, como por exemplo, o alargamento da Rua Abolição em 16 metros, em 1956, entre a Rua Álvaro Ribeiro e a linha férrea, demolindo os casebres e cortiços, ali presentes. Essa tentativa de higienização à campineira, da população negra, jogada cada vez mais longe do perímetro central, foi uma das marcas não cicatrizadas, que essa mesma população carrega até os dias atuais." Quer ler um pouco mais sobre a história dessa rua? Clique aqui para ter acesso ao depoimento de Israel.

Segue agora um pequeno vídeo, que consegui fazer com a Alice me enviando os depoimentos sobre as memórias de quem morou ou mora na Rua da Abolição.   


 "Ergue Quilombos, aqui, ali 

Em cada mente, em cada face 

Impávidos como Palmares, impávidos Ilês  

Em todos os lugares"

Com o final do poema que iniciei, finalizo o meu texto desta sexta e convido você a erguer "quilombos" como resistência ao racismo. Busque se reconstruir, como eu estou tentando, e ame, sem seleção. Viva Zumbi! Viva Palmares!


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