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A Ford criou um problema que a Constituição ajuda a resolver

A Constituição é uma ajuda para a solução dos problemas sociais e econômicos do País, basta a levar a sério.

| ACidade ON - Circuito das Águas

O artigo 219 da nossa Constituição diz que o "mercado interno integra o patrimônio nacional". O mercado é o conjunto das relações de produção e distribuição de bens e serviços para o nosso povo. Toda vez em que alguém produz alguma coisa ou a vende, ela está aumentando as riquezas do país, aumentando o volume de riquezas e eventualmente incluindo mais gente no tal mercado. Mas algumas dessas produções são melhores que as outras. Por isso que o artigo continua, dizendo que o mercado interno "será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e sócio-econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País".

Produzir com trabalho escravo é diferente de produzir com respeito ao bem estar dos trabalhadores. Vender pedras, como faz a Vale do Rio Doce, é diferente de vender geladeiras que usam aço na sua fabricação. Plantar soja é parecido em qualquer lugar, mas derrubar a floresta amazônica provocará a desertificação do norte e do sudeste do país, destruíndo nosso futuro. Vender com propaganda enganosa é diferente de respeitar o consumidor. Vender areia é diferente de vender microchips, como faz a Ceitec. Produzir pensando no futuro do país é diferente de pilhar e destruir esse futuro.

A gente precisa criar um jeito da economia funcionar fazendo o bem para todo mundo, é isso que o 219 está dizendo. Um dos instrumentos é a "autonomia tecnológica", isto é, a nossa capacidade de produzir coisas inteligentes, com grande conhecimento a respeito dos materiais, dos processos produtivos, da organização do pessoal, dos usos e do desenho mais eficiente dos produtos. A tecnologia ajuda a fazer coisas muito boas, sem agredir a natureza e de maneira que o trabalhador ganhe mais, sendo mais respeitado. Para isso acontecer, precisamos de indústrias que façam pesquisa aqui e que tenham grande compromisso com o progresso da nossa sociedade.

As montadoras e empresas estrangeiras vão embora levando a sua capacidade produtiva junto com elas. Mas imaginem se pudessemos ter uma indústria não apenas nacional, mas que tivesse os seus interesses entrelaçados com a saúde do nosso mercado e da sociedade brasileira. A Bolívia está produzindo bicicletas elétricas, motocicletas movidas a bateria e até automóveis, com uma indústria nacional, em Llajta, Cochabamba. A saída da Ford abre uma oportunidade de ouro para o Brasil. São milhares de trabalhadores altamente qualificados, rede própria de distribuição e de fabricantes de peças.

Imaginem a criação de uma cooperativa. Todas essas pessoas, que já trabalham e sabem como funciona o mercado brasileiro, poderiam garantir sua sobrevivência de maneira digna e segura, colaborando para o mercado interno. A Ford e as outras montadoras vêm recebendo bilhões do governo brasileiro, a décadas, sem qualquer garantia real de retorno social. Investiríamos uma parcela deste dinheiro na construção de uma empresa nacional, com capital social e grande compromisso com o país. Uma cooperativa traria todos os benefícios do artigo 219 e ainda muitos outros.

Não seria fácil, obviamente, precisaria haver um belo desenho institucional e empresarial, organizando propriedade e trabalho de maneira justa para todos. As garantias para o dinheiro estatal investido já estão bem elaboradas, posto que os empresários do ramo veem recebendo dinheiro público de várias maneiras e os contratos são bastante estáveis. O planejamento e o desenvolvimento dos primeiros produtos poderia demorar um pouco, mas não se trata de algo impossível para a engenharia nacional. Só falta a vontade política de realizar ações efetivamente nacionalistas.