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Cotidiano

Mafalda: As Criaturas sobrevivem ao Criador

Assim foi com Machado, que nos deu Capitu; assim foi com Alencar, que nos deu Iracema; assim foi com Monteiro Lobato, que nos deu Narizinho

| ACidadeON/Ribeirao

  

Mafalda, a Criatura do cartunista argentino Quino

O CRIADOR E A CRIATURA

Embora os personagens, seres de papel, não existam, são mais eternos que seus criadores. E, antes que vocês, leitores, se irritem com essa declaração, comandando um cancelamento geral dos poucos leitores que tenho, explico. 

Joaquim Salvador Lavado morreu na semana passada. Ainda bem que ele se foi e foi tarde, diria uma de suas personagens, irônica, sarcástica, dona do seu nariz. E diria isso se referindo à hora extra que Lavado fazia aqui na Terra. 

Segundo a Criatura, ela não sabia o que o pobre coitado estava fazendo aqui, um lugar cheio de idiotas e imbecis, que vivem de mentes fechadas e de boca aberta, se espantando com todas as fake news que gestores que deveriam ser sérios, mas que são uma piada, uma comédia, espalham com a maior desfaçatez. 

O Criador se foi, mas sua mais famosa Criatura continuará a nos encantar, a nos questionar, a nos fazer puxar pela cabeça, como ela disse uma vez em uma de seus famosos diálogos com seus coleguinhas: "quem não puxa pela cabeça, será puxado pelas pernas quando morrer." 

Joaquim Salvador Lavado se foi, morreu, bateu com as dez, partiu, descansou, virou estrelinha, falem o que quiser, mas ela, a Criatura, ficou. Ficou porque as Criaturas sobrevivem ao Criador, ser finito, que morre como todos vão morrer. 

Assim foi com Machado, que nos deu Capitu; assim foi com Alencar, que nos deu Iracema; assim foi com Monteiro Lobato, que nos deu Narizinho; assim será com Maurício de Souza, que nos deu Mônica. 

Se o editor desta coluna não deu spoiler na chamada da crônica, você deve se perguntar que criatura é esta a que me refiro que ficará para a eternidade. 

Trata-se de uma menina baixinha, nada escultural de formas, embora ela tenha até estátua em praça pública em Buenos Aires. Baixinha, briguenta, reclamona, indelicada muitas vezes, irascível sempre, crítica até o bestunto das ideias, geniosa, mas genial, irritantemente cobradora de seus direitos. 

Vá em paz, Quino! E obrigado por nos deixar sua Criatura, meu querido Criador!

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Puntel, lendo pela milésima vez Toda Mafalda, reunião das impagáveis tirinhas da argentiníssima Mafalda.
 
 
Luiz Puntel (Foto: Arquivo Pessoal)


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