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Material desenvolvido na UFSCar pode substituir o gesso ortopédico em 2018

Produto criado por pesquisador em São Carlos é impermeável e possui aplicação mais limpa do que o método convencional

| ACidadeON/São Carlos

ESPECIAL - Inovar para crescer! (Por Orlando Duarte Neto)
Esta reportagem tem a garantia de apuração ACidade ON. Diga não às fake news!
 

Um material desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem a proposta de substituir o gesso utilizado em imobilizações ortopédicas por um preço atrativo. Além de ter uma aplicação mais simples, o material é impermeável, não faz tanta sujeira quanto o gesso e possui agentes antimicrobianos para evitar alergias ou contaminações.  

Segundo o pesquisador responsável pelo estudo, Gustavo Valio, o material poderá custar menos da metade dos produtos semelhantes existentes no mercado. O trabalho está em desenvolvimento com apoio da Agência de Inovação da UFSCar e deve chegar ao mercado ainda em 2018, de acordo com as previsões do pesquisador.  

Natural de Ribeirão Preto, Valio se formou em Engenharia de Materiais na UFSCar, passou por um mestrado com colaboração na Alemanha e iniciou o doutorado na UFSCar há dois anos. "Estou há dez anos na faculdade. Gosto daqui porque pensava na loucura de São Paulo, imaginava ir para lá, comecei a ir algumas vezes, ver o trânsito, aquela vida, não era para mim. Perde-se muito tempo lá. Para mim, aqui estou a 15 minutos do meu trabalho. Do jeito que está aqui, com todo o desenvolvimento, não está perdendo tanto para lá [em São Paulo]. As inovações estão aqui do lado", afirmou.  

Sobre o produto desenvolvido por ele, Gustavo explica que a pesquisa teve início há quase quatro anos. "Há três anos e meio me apresentaram um material importado que era muito caro. As áreas de terapia ocupacional e fisioterapia utilizam bastante ele em órteses. Fiz uma análise para descobrir o que era. Primeiro achei que era um material comum, mas descobri que era algo mais complexo. Coincidentemente fiz uma análise para um professor em cima do mesmo material. Fui conversar com ele para saber o que ele estava querendo e soube que a filha dele era professora na Terapia Ocupacional e estava tentando desenvolver um material para substituir esse importado, pelo custo, que é muito alto. Conversando, ele me explicou as necessidades em relação ao material. Eu fui atrás para ver o que poderia ser feito, no caso uma mistura de polímeros, porque isso é um compósito, que atenderia a essa demanda da T.O., inicialmente", comentou.  

"No começo eu não tinha dinheiro para nada, então fui pegando alguns materiais que achei e fazendo as misturas até conseguir um produto. Depois de dois anos consegui o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que financiou o projeto. Agora tem bastante material para fazer o piloto e começar a testar em pessoas".   

Material desenvolvido na UFSCar pode substituir o gesso ortopédico em 2018

O pesquisador afirma que a partir dessas misturas se observou a possibilidade do desenvolvimento de um produto. "A gente conseguiu um material que tem duas vezes a resistência mecânica dos atuais e o preço muito inferior. Tentamos chegar a menos da metade do valor original do importado. Ele funciona de forma muito simples, e por conta da maior resistência mecânica, a gente vai tentar utilizar ele também na área de gessos. Inicialmente, é usado em órteses, que tem uma flexibilidade maior. Agora, vamos utilizar como substituto ao gesso convencional, que enrola no braço e fica alisando com água", pontuou.  

Em relação às vantagens do novo produto em relação ao convencional, o pesquisador cita a facilidade de aplicação e a impermeabilidade. "Ele é impermeável, então é fácil de limpar. Dá para deixar espaços para a pele respirar, então também não esquenta tanto. Ele não vai ficar cheirando, porque respira melhor, e ainda tem agentes antimicrobianos para evitar alergia ou contaminação por bactérias e alguns tipos de fungos. É bem simples de utilizar, é só colocar ele na água quente, em uma temperatura que a pele resiste. Ele fica mole e depois um profissional da área faz a moldagem dele na região a ser imobilizada. É tão fácil quanto o gesso para moldar, só que o processo é muito mais limpo, porque quando você o coloca na água, fica muito flexível. É fácil ir segurando e adequando à posição correta. Quando se trata de uma imobilização, pode fazer a adesão nele mesmo e deixar fixo. No caso de órteses, que podem ser retiradas, aí é possível usar um velcro. A órtese normalmente é utilizada durante a noite para corrigir algum problema muscular ou ósseo", explicou.  

O doutorando conta que a previsão é de que o novo material esteja disponível no mercado até o fim de 2018. "A nossa previsão é que até o fim do ano a gente consiga iniciar a produção dele. Ainda falta o teste em pessoas, para o qual é necessário um registro na Anvisa. Então esse é um espaço de tempo que achamos que vai ser possível iniciar a produção", falou.  

Sobre a trajetória percorrida durante a confecção do produto, Gustavo Valio conta que foi preciso entender a demanda e as necessidades envolvidas. "O que eu acho importante é que a partir do momento que eu vi que o material poderia dar certo, eu fui atrás de quem usava o material - no caso, quem confecciona - e o paciente, para ver o que eles precisavam. Eu acho que você pode não ter uma ideia e ela pode surgir simplesmente do ato de você conversar com alguém e perceber uma dificuldade. Aí você entende essa dificuldade e arruma uma solução para ela".  

Para ele, é preciso se basear mais na visão que seu cliente precisa do material, e não na sua. "Eu poderia ter desenvolvido o melhor material do mundo para isso. O custo ia ficar alto e não ia adiantar nada. Por exemplo: ele ser autoadesivo é interessante? Para mim pode até ser, mas para quem vai comprar não é. Então não precisa desse tipo de propriedade. Eu acho isso muito importante, ir atrás do seu cliente e perguntar a real necessidade dele", completou.   

Agência de Inovação da UFSCar

Agência de Inovação
O material criado por Gustavo é um dos muitos que passam pela Agência de Inovação da UFSCar, órgão vinculado à reitoria que é responsável pelo tratamento das questões da propriedade intelectual na universidade. Entre as diversas tecnologias patenteadas na universidade, estão um óculos capaz de detectar o greening, um papel sintético criado a partir de plástico reciclado e um sensor capaz de identificar o Alzheimer a partir de uma gota de sangue.  

"A Agência de Inovação da UFSCar é um núcleo de inovação tecnológica. Todas as grandes universidades do mundo possuem um núcleo de inovação chamado escritório de transferência de tecnologia, que foram criados nas universidades para exatamente servir de interface com as empresas, cuidar da propriedade intelectual da universidade, proteger e fazer a transferência desse saber no sentido de permitir um fluxo do conhecimento de dentro da universidade. Então essa é a função da Agência de Inovação. Dentro da UFSCar esse movimento de aproximação com empresas já vem desde a década de 1990, com um núcleo de extensão que existia para aproximar a universidade e a empresa. Já temos uma história de mais de 20 anos que a universidade vem se aproximando da sociedade nesse sentido, de colocar para fora esse conhecimento", explicou a gerente operacional da agência, Fabíola Spiandorello.  

Fabíola argumenta que tudo o que é produzido na universidade deve ser disponibilizado para a sociedade, de modo que não fique restrito apenas ao âmbito de pesquisa. "A agência é um local que consegue organizar o conhecimento e transferi-lo por meio de contratos, de uma estrutura pensada. O conhecimento flui para fora da universidade e fica a disposição da universidade. Aqui, a estrutura da agência, o modo como opera, acaba organizando o conhecimento de forma que possa ser apropriado, ou seja, delimitado e comercializado de uma forma juridicamente legal e estruturada. Então isso acaba dando segurança jurídica para todas as partes e acaba facilitando que gere valor. Muitas vezes esse conhecimento que é colocado para fora é difuso, está à disposição, mas não é apropriado e a sociedade não consegue gerar um valor a partir dele. Como o conhecimento passa por aqui e é estruturado e comercializado, é possível gerar valor a partir dele", falou Fabíola.   

Gustavo Valio e Fabíola Spiandorello

A gerente explica que esse tipo de movimento é uma forma para que o próprio aluno entenda como usar o conhecimento que tem ou que desenvolveu dentro da universidade. "Tecnologias na universidade ainda são muito embrionárias, então até se tornar um produto que possa estar disponível em uma prateleira, há investimento muito grande que precisa ser feito. Estamos ofertando uma tecnologia, então precisamos de alguém que se interesse por aquilo e que enxergue que, se ele investir naquela tecnologia, vai conseguir um produto muito interessante para ele. É possível observar estruturas como parques tecnológicos, incubadoras, espaços de coworking, o que passa a atrair financiamentos, venture capital, e esses tipos de organizações e pessoas que vão trabalhar todas juntas de forma a dar origem e fomentar esse ecossistema".  

Para ela, isto é o que estamos vendo acontecer na cidade de São Carlos. "Acaba gerando empregos e ocupações de altíssimo nível na cidade. Você consegue prender no município pessoas de elevado nível educacional, e isso acaba gerando cada vez mais negócios nesse sentido, com valor agregado maior, o que acaba enriquecendo também a cidade. É muito importante que se consiga não só manter, mas atrair também; ser um polo de atração de pessoas, desse tipo de empreendedores. Isso tudo enriquece social, cultural e economicamente a nossa cidade", finalizou a gerente.  


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