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Cotidiano

Pioneira no Baja, USP usa a tecnologia para criar carro off-road mais rápido

Projeto EESC USP BAJA SAE surgiu em 1994 e é composto atualmente por cerca de 20 estudantes de engenharia que projetam, manufaturam e montam o veículo

| ACidadeON/São Carlos

ESPECIAL - Inovar para crescer! (Por Luã Viegas)
Esta reportagem tem a garantia de apuração ACidade ON. Diga não às fake news!

Em uma oficina em frente ao campo de futebol da Universidade de São Paulo (USP), no campus de São Carlos, cerca de 20 alunos criaram um projeto de de Baja que acabou se tornando campeão nacional em fevereiro de 2018. Os estudantes também representaram o Brasil na competição mundial da modalidade, realizada em maio, na cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos.  

A atividade é destaque no meio universitário, uma vez que a USP foi pioneira na implantação da modalidade. Além disso, a constante busca por inovações tecnológicas e mecânicas faz do esporte um desafio técnico e intelectual aos participantes e membros da equipe.  

O Baja SAE (Society of Automotive Engineers) feito pelos alunos se trata um veículo para ser usado fora de estradas (ou seja, off-road), e que leva apenas um piloto. O automóvel é projetado para as mais adversas condições de terreno, especialmente a terra. O veículo também é construído seguindo as regras e especificações da SAE, que limitam tanto o carro quanto o motor utilizado, além das dimensões da estrutura.  

Veteranos no assunto, o projeto EESC USP BAJA SAE (filiado à escola de Engenharia de São Carlos) surgiu em 1994 e é composto atualmente por cerca de 20 estudantes de engenharia que projetam, manufaturam e montam o Baja. Já com grande tradição nas competições organizadas pela SAE, a equipe se tornou heptacampeã nacional em 2018.  

Equipe de Baja da USP de São Carlos representou o Brasil em competição nos EUA (Foto: Amanda Rocha/ACidadeON)
Ciência e educação
À frente da turma de 2018, formada por alunos de diferentes áreas da engenharia, o professor Jorge Henrique Bidinotto, do Departamento de Engenharia Aeronáutica, destacou que, apesar de não ser obrigatório, é desejável que a equipe seja formada por estudantes de cursos diferentes. "O jeito de lidar com determinado problema é bem diferente de um aluno de engenharia mecânica para um de produção, por exemplo. Então, sempre tem a parte mais adequada para cada área", explicou.  

O estudante do quarto ano de engenharia da computação, Bruno Yoshikawa, de 20 anos, apesar de jovem, já é um veterano na equipe de Baja da USP. "No começo eu estranhei, mas depois comecei a ver como a engenharia da computação está envolvida na parte do projeto de um carro e achei legal. Por exemplo, a gente encontrava um problema, então eu ia atrás, pesquisava e muitas vezes eu aprendi antes de chegar à aula. Quando eu cursava a matéria em si, já estava familiarizado com o assunto", explicou o estudante, que passa cerca de quatro horas por dia na oficina com os companheiros.  

Completando a explicação aluno, o professor conta que o objetivo da criação do projeto foi, justamente, mostrar aos estudantes como a engenharia funciona na prática. "No começo do curso de engenharia você acaba vendo mais ciências teóricas: matemática, física e química; a parte aplicada vem a partir do terceiro ano. Quando o aluno entra no Baja ele é obrigado a lidar com isso e acaba tendo que aprender antes da hora. Isso contribui bastante com a formação técnica e pessoal do aluno, porque você acaba tendo que lidar com pessoas, fornecedores, patrocinadores, coisas que você não veria em sala de aula. Então, é formação bem completa", explicou o Bidinotto.  

O professor também explicou que os alunos do projeto precisam de todo o conhecimento ensinado na sala de aula e um pouco mais. "Quase todas as disciplinas aplicadas em engenharia e coisas que a gente acaba não vendo em engenharia. Por exemplo, a parte de planejamento de projeto, tem a disciplina, mas a gente acaba vendo isso na prática. [Além disso], temos o trabalho em equipe, marketing e coisas que a gente não vê em cursos de engenharia e é obrigado a aplicar aqui", disse.  

Inovação
Satisfeito com o Baja produzido para as competições em 2017, Bidinotto não achou que seria necessário refazê-lo, mas foi surpreendido pela iniciativa dos pupilos. "Os alunos colocam a mão na massa em quase tudo, eu fico vendo de longe. Em geral, quando você produz um baja para a competição de um determinado ano é sempre pensando em corrigir problemas do carro anterior. A gente tinha um carro, feito para a competição de 2017, que eu considerava muito bom. Eu cheguei até a comentar com o pessoal que talvez não fosse necessário fazer um carro novo, e os alunos acabaram decidindo fazer um carro novo, corrigir alguns pequenos problemas que existiam naquele carro. E que bom que eles me convenceram, porque o carro ficou ainda melhor", contou.  

O estudante Bruno explicou as melhorias feitas no carro campeão nacional em relação ao anterior. "A gente tinha um problema no curso da suspensão, a ponta de eixo para a direção e a dinâmica dele era um pouco pior. Agora, o desempenho dele é melhor nessa parte de superar os obstáculos. Em relação à transmissão, a gente conseguiu melhorar, e também a redução de massa, que é muito importante quando você está pensando em competição", explicou o estudante.  

Visualmente inspirado no modelo Mogul Race, veículo de competições off-road, a produção do modelo 2018 teve inicio no primeiro semestre de 2017, onde foram criados o projeto e o design de todas as peças. No segundo semestre do mesmo ano, a partir de junho, a equipe comprou a maior parte das peças. Por fim, assim que o carro ficou pronto, ele foi testado por cerca de três meses para que, caso houvesse a necessidade, as correções fossem feitas.  

Pesando cerca de 130 kg sem o piloto, o novo modelo teve uma redução de 13 kg do peso total em relação ao modelo anterior, o que fez a diferença para fins competitivos. "A gente fez alguns testes com o piloto e a cada 5 kg dava uma diferença de 0,1 segundos em uma aceleração de 30 metros. A gente não tem quantificado, mas é muito importante a questão da massa", explicou Yoshikawa.  

Piloto Gustavo Perozini Caporazzo durante prova no Kansas (EUA) (Foto: Divulgação)
Piloto
A escolha do piloto é feita por meio de testes na pista de corrida. Quem faz um determinado circuito em menor tempo é escolhido para representar a equipe nas competições.  

O estudante do quinto ano de engenharia mecânica na USP, Gustavo Perozini Caporazzo, de 24 anos, é o piloto da equipe há quatro anos. A rotina de treinos é puxada, e Caporazzo precisa se dividir entre o estágio e a academia para estar preparado para os torneios.  

"Atualmente, para a parte física, me preparo fazendo musculação. Na parte técnica, fazemos muitos treinos simulando as provas da competição. É uma responsabilidade muito grande, já que você está carregando o trabalho de uma equipe inteira, às vezes de vários anos. Tirando esse peso, é tudo muito prazeroso. São desafios em cada obstáculo e curva, muitas ultrapassagens, sempre uma adrenalina muito grande", explicou o piloto.  

Representando a equipe por trás do piloto, que fica nos boxes monitorando se está tudo certo com o carro durante a corrida, Yoshikawa destacou a importância de o piloto conhecer bem o carro que vai usar na competição. "Saber de que forma o carro consegue passar em certos obstáculos, quando está tomando o máximo do carro, quando você está forçando ele a ponto de quebrar uma peça. Acho que isso é o mais importante".  

Equipe de Baja da USP de São Carlos representou o Brasil em competição nos EUA (Foto: Divulgação)
EUA
Os estudantes que participam do Baja SAE BRASIL devem formar equipes para representar a instituição de ensino superior à qual estão ligados. Eles são desafiados anualmente a participar da competição, que reúne os estudantes e promove a avaliação comparativa dos projetos.  

Vencedores da etapa nacional, a equipe da USP de São Carlos representou o Brasil na etapa internacional em Pittsburgh (EUA). Concorrendo com 95 equipes de todo o mundo, os brasileiros terminaram na 50° colocação.  

Apesar de ter recebido elogios dos juízes pelo projeto, os estudantes precisaram enfrentar ameaças de tornado e uma tempestade, que deixou a pista com muita lama. "Chegamos cedo aos boxes a fim de preparar o carro. Uma nova ameaça de tornado fez com que tivéssemos que evacuar o local e reduziu o tempo de prova de quatro para duas horas. Retornamos ao local, terminamos os preparativos e entramos na prova. Infelizmente, nos envolvemos em um acidente no início da prova e tivemos problemas na direção e suspensão", afirmou a equipe em comunicado divulgado após o último dia de competição.  

Colabore com o projeto EESC USP BAJA SAE
Com o apoio financeiro da universidade e parceiros da iniciativa privada, o Baja de 2018 teve um custo de cerca de R$ 23 mil. O dinheiro, inclusive, é uma necessidade para que o projeto continue. Quem estiver interessado em patrocinar ou apoiar a equipe pode entrar em contato através do número: (16) 3373 8862 ou pelo e-mail: mkt.baja@gmail.com.  



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