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Setembro Amarelo: entenda o porquê do suicídio e saiba como ajudar

A reportagem do Portal ACidade ON de São Carlos conversou com pessoas que superaram a desesperança

| ACidadeON/São Carlos

Aproximadamente 12 mil brasileiros tiram a própria vida todos os anos. No mundo, esse número passa de 1 milhão. Só no mês de julho de 2020, em São Carlos, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registrou 8 tentativas de suicídio. O assunto é sério, e isso não é apenas para chamar atenção.   

João

João tem 39 anos de idade, trabalha como técnico em manutenção de aparelhos celulares e já tentou se matar três vezes. Ele chegou a buscar nas drogas refúgio para não lidar com a dor emocional que sentia.  

"O sentimento que me vinha, primeiramente, era minha total derrota como ser humano, na sociedade. Na verdade, antigamente eu acreditava que eu tinha um defeito moral e que eu devia morrer ou usar drogas para sanar essa dor que me vinha constantemente", relatou.  

A primeira tentativa de suicídio de João se deu após o término de um relacionamento, o qual ele não aceitava. Após algum tempo, ele se tornou usuário de crack e álcool, o que fez com que sua inquietação aumentasse e um novo relacionamento, que chegou a durar 10 anos, se acabasse novamente.   

Setembro Amarelo é o mês de conscientização sobre o tema - Foto (Reprodução)

As frustrações consigo mesmo e o vício o fizeram perder as esperanças. Por isso, ele atentou contra a própria vida mais duas vezes. Contudo, a família aflita decidiu intervir. "Meus familiares me responderam de imediato, eles estavam doentes por causa da minha adicção e eles adoeceram mais ainda. A melhor ajuda que puderam me dar foi a internação, me interviram e me internaram em uma clínica de reabilitação".  

Além da ajuda médica e psicológica, João encontrou na música uma ferramenta de transformação. "Hoje eu venho buscando uma melhora, partindo do amor próprio e da espiritualidade. Essa sensibilidade eu acabei adquirindo através da música. Foi uma coisa que me ajudou muito e  hoje eu estou aqui vivo para poder contar", ressaltou.  

Alessandra 

Alessandra é outra paciente da clínica onde João realiza tratamento. Ela tem 44 anos, é pedagoga e, da mesma forma que ele, tentou tirar a própria vida. Isso ocorreu aos 14 anos de idade, após sofrer um estupro.  

"Como eu não sabia lidar com a situação, por viver em um lar disfuncional e não ter com quem contar naquele momento, eu achei que o mais fácil seria tirar minha própria vida. Desde então eu luto contra a ideia do suicídio", relatou a pedagoga.  

Alessandra conta que sentia uma dor contra a qual não tinha forças para lutar. Acreditava que o próprio pai a culparia pelo estupro sofrido, além de não ter coragem de se abrir com a mãe e expô-la a um possível sofrimento também.   

Suicídio não é para chamar a atenção (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

"Eu nunca pensei em terminar com a minha vida, eu queria me livrar daquela situação, daquela dor, daquele problema. Queria deixar de ser um problema. Porque se isso viesse à tona eu seria um problema para a minha mãe", acrescentou.  

Ela continua dizendo que não conseguia confiar em ninguém e, por isso, também não sabia como procurar ajuda. "Até então eu vivia dentro de uma bolha, fingia ser uma pessoa bastante alegre, bastante comunicativa, mas eu vivia em um mundo onde doía muito toda a situação da minha casa. Até então, eu não confiava em ninguém, eu não podia confiar em ninguém. Eu entendia que, se eu viesse a me expor, a sociedade me condenaria".  

Após tentar tirar a própria vida e não conseguir, o desespero de Alessandra aumentou. "Meu problema continuava, porque eu estava viva, eu continuava tendo os mesmo sentimento, os mesmo medos, mas agora exposta".

Contudo, foi o médico que atendeu Alessandra na UTI quem iniciou uma mudança em sua vida. Ele ofereceu à sua mãe a possibilidade de levar um representante espiritual até o hospital, já que seu estado de saúde era delicado. A partir daí, a pedagoga teve coragem de se abrir, aos poucos. Ela chegou a encontrar apoio de quem menos esperava, do próprio pai, o qual temia.  

"Hoje eu vejo o suicídio como uma ausência de algo que falta dentro da gente. Quando a gente não sabe lidar com as questões que nos afligem, que machucam, a gente tenta se livrar da dor, daquilo que faz a gente fracassar, a gente sofrer, e é aonde vem o pensamento suicida".  

Hoje, além do tratamento na clínica especializada, Alessandra descobriu o sentido da frase "doar para não doer". Ela ajuda da forma como pode aqueles que necessitam de auxílio. Esse exercício de empatia fez com que aquela jovem que temia confiar nas pessoas, pudesse entender as dores e as alegrias que divide com o próximo.  

"Um amigo muito querido dizia assim: você não pode impedir que os passarinhos sobrevoem a sua cabeça, mas você pode impedir que eles façam ninho nela. E esse é um lema que eu tenho vivido", finaliza. 

Tratamento  

Raquel é psicólogo na clínica que atendeu os entrevistados desta matéria - Foto: Amanda Rocha/ACidade ON


A psicóloga Raquel Parrelli diz que os pensamentos suicidas surgem através de sofrimentos extremos, os quais podem estar ligados à frustração e impotência diante da realidade, culpa, sentimento de fracasso, baixa autoestima e autoimagem, ou ainda podem ocorrer em razão de transtornos psiquiátricos, alcoolismo e dependência química.  

Se você conhece alguém que já tentou suicídio ou que apresenta pensamentos suicidas, Raquel explica que "a melhor forma de abordar uma pessoa com indícios de ideação suicida é promover uma atitude de acolhimento, aproximação, cuidado e apoio, procurando escutá-la sem fazer julgamentos e condenações. É possível mostrar que a vida vale a pena, oferecendo apoio, cuidado, acolhimento e companheirismo para que a pessoa volte a sonhar e a acreditar em si mesma e em um futuro com realizações".  

Além disso, ela relata que a psicoterapia é fundamental para que a pessoa desenvolva estratégias de adaptação e resolução de problemas, além de desenvolver habilidades emocionais para lidar com a realidade, com os problemas e com a vida.
"É preciso buscar ajuda ou deverá ser feita uma Intervenção de um familiar sempre que existirem sinais de que a pessoa apresenta indícios de ideação suicida ou uso abusivo ou descontrolado de álcool ou outras drogas, ou ainda sinais e sintomas de transtornos psiquiátricos", explicou. 

Como identificar  

A psicóloga também deu discas de como identificar se uma pessoa apresenta sinais de que deseja ou pode tirar a própria vida:  

1 - Ameaças: A maioria das pessoas que tentam suicídio, geralmente, fala sobre o desejo de cometê-lo e é necessário dar importância a isso; 

2 -Tentativas de Suicídio: geralmente as pessoas que, de fato, cometeram o suicídio fizerem outras tentativas antes de conseguir êxito no objetivo; 

3 Automutilação: É comum pessoas que apresentam o comportamento de automutilação tentarem ou cometerem suicídio; 
                                               
4 - Prejuízos nos auto cuidados: A pessoa deixa de cuidar da aparência e da higiene;

5 - Apresenta falas que envolvem desesperança, descrença da vida, não acredita que poderá conquistar seus sonhos, deixar de sonhar e de planejar seu futuro; acredita que nada tem mais jeito e que tudo já está acabado;  

6 - Apresenta muito sofrimento e forte sentimento de culpa; Falam que estão cansadas e que seria melhor acabar com tudo de uma vez por todas e falam abertamente sobre o desejo de tirar a própria vida;  

7 - Isolamento Social: Tentem a afastarem-se da família e amigos e começam a querer ficar sozinhos com maior frequência;  

8 -apresentam sinais e sintomas de transtornos psiquiátricos: Humor deprimido, oscilações de humor (momentos e que está bastante deprimido alternando com momentos de euforia, alegria, agitação, hiperatividade), irritabilidade, sensação de fúria, impulsividade, instabilidade emocional, agressividade e em alguns casos delírios (pensamentos que não correspondem à realidade) e até mesmo alucinações (Vê coisas que só ele vê, ouve vozes que só ele ouve, etc.);  

9 - Uso descontrolado de álcool ou outras drogas: 70% das pessoas que tentaram ou cometeram suicídio estavam sob efeito de álcool ou outras. 

Saiba que 90% dos suicídios poderiam ter sido evitados se as condutas adequadas tivessem sido tomadas:  

- Oferecer apoio, acolhimento e companheirismo;
- Evitar que a pessoa fique muito tempo sozinha;
- Procurar acompanhamento psicológico e psiquiátrico; 
- Em caso de risco iminente de morte, procurar por profissionais para que seja realizada uma Internação de urgência a fim de tratar e preservar a vida da pessoa que está em risco.    

A vida vale a pena

O assunto é incômodo, mas o suicídio tira a vida de pessoas de todas as idades, no mundo inteiro. Ele pode ser evitado. Se você já apresentou ou apresenta ideias e impulsos suicidas, você pode entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) através do telefone 188. Um voluntário irá te ouvir.  

Durante este texto, uma música me veio à mente. Por isso, compartilho um trecho da letra de "Amarelo", do artista Emicida, com adaptação da canção "Sujeito de Sorte", do cantor Belchior.

"Permita que eu fale não as minhas cicatrizes
Tanta dor rouba nossa voz. Sabe o que resta de nós?
Alvos passeando por aí
Permita que eu fale não as minhas cicatrizes
Se isso é sobre vivência, me resumir a sobrevivência
É roubar o pouco de bom que vivi
Por fim, permita que eu fale não as minhas cicatrizes
Achar que essas mazelas me definem, é o pior dos crimes
É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nós "sumir" 
Tenho sangrado de mais
Tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"


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