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Medo: profissionais de saúde do grupo de risco falam sobre retorno

Após suspensão do afastamento de 250 servidores, a prefeitura determinou o retorno imediato alegando que 'a população não deveria ser prejudicada'

| ACidadeON/São Carlos

Servidores da saúde relatam medo por estarem no grupo de risco. Foto ilustrativa

A rotina dos profissionais de saúde se tornou mais intensa durante a pandemia, e junto dessa situação também estão presentes a preocupação e o medo. Diante disso, profissionais de saúde de São Carlos (SP) pertencentes ao grupo de risco da Covid-19 falaram sobre o que sentiram após terem os afastamentos do posto de trabalho suspensos.  

O medo de contrair a Covid está no cotidiano da Joana*, portadora de diabetes, fibromialgia e outras doenças crônicas que se enquadram nos fatores de risco da doença. A servidora tentou ser afastada desde o início da pandemia, mas sem sucesso. Com a limitar do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15), veio a esperança, mas em menos de 10 dias, também veio a suspensão do afastamento e a determinação do retorno imediato.  

"Separei todos os meus laudos e documentos necessários, mas não adiantou e agora tenho que voltar. Sabemos que é um risco que estamos correndo por sermos da área da saúde, mas estamos em uma situação atípica e que está causando a morte de muitos profissionais, principalmente com comorbidades. Mesmo tomando todos os cuidados possíveis e necessários, o medo está presente. Eu sei que se eu pegar, vai ser um risco ainda maior para mim, e esse medo está me consumindo", desabafou.  

O retorno dos servidores que haviam sido afastados atingiu todo o grupo de risco, desde os portadores de doenças crônicas até pessoas acima de 60 anos, como o caso da Maria*, que estava longe desde maio, voltou na segunda quinzena de julho e afastou de novo para retornar dias depois.  

"Esse retorno de agora, na minha opinião não é viável porque agora estamos sofrendo um aumento de casos, estamos vivenciando vários casos, em várias unidades de saúde, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e aumentando o numero de óbitos. Considero que esse afastamento agora é essencial para manter a nossa segurança", disse.   

Medo e preocupação se tornaram frequentes para servidores da saúde. Foto ilustrativa

Os casos de coronavírus na cidade estão em um crescimento constante. Em seis dias, a cidade registrou 81 novos casos e 5 mortes. Ao longo desses meses, o município também registrou diversos casos em profissionais de saúde e precisou fechar temporariamente unidades de atendimento. Outras cidades da região também registraram óbitos.  

Essa é uma preocupação de Gabriela*, que é gestante e asmática, dois fatores de risco, e ainda trabalha na linha de frente na enfermagem, tendo contato direto com todos os pacientes, sejam suspeitos ou confirmados. "A gente não sabe quem realmente tem ou não, então todos que entram acabam sendo suspeitos. Mesmo tendo todos os preparos e EPIs, é uma situação difícil para a gente, temos visto muitos funcionários que estão com a doença e entrando em óbito", disse.  

Fase amarela 
A mudança de fase para amarela, com a liberação de novos setores e funcionamento estendido em alguns outros, diminuiu o índice de isolamento e aumentou o fluxo de pessoas nas ruas, o que consequentemente, gera um aumento de casos.  

"Acho que seria o momento de se manter reservado porque não é um momento de retorno, ainda mais nesta fase, em que as pessoas acham que está tudo liberado e voltando ao normal e vai ser um momento de alto contágio. Está sendo desconfortável pensar nesse retorno porque estamos colocando nossa vida ainda mais em risco", comentou.  

São essas situações, entre tantas outras, que formam um emaranhado de sentimentos e frustrações, capazes de influenciar na vida das pessoas, mas principalmente na de profissionais de saúde, que diariamente dão suas vidas pela segurança da população.  

*Atenção: os nomes dos entrevistados foram alterados para manter a identidade dos mesmos em sigilo.  

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