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"O consumo da droga acaba com tudo que amamos", afirma dependente químico

Diante de polêmicas envolvendo crimes e uso de drogas, a reportagem do ACidade ON entrevistou um usuário e especialistas no assunto

| ACidadeON/São Carlos

Pedro** realiza tratamento contra a dependência química - Foto: Amanda Rocha / ACidade ON São Carlos

Diante de acontecimentos recentes que figuraram, principalmente, no noticiário policial de São Carlos, como o duplo homicídio registrado no prolongamento do Jardim Medeiro, no qual o autor declarou ser usuário e estar sob o efeito de drogas, mais especificamente o crack, a reportagem do portal ACidade ON São Carlos decidiu entender mais sobre os efeitos dessa droga e também a respeito da própria dependência química. Muito se fala sobre o uso dessas substâncias, assunto constante na imprensa, mas o que realmente sabemos sobre o tema? Confira com exclusividade entrevistas com especialistas na área e um dependente químico.  

Até que ponto o uso de drogas pode realmente interferir no livre arbítrio de uma pessoa? Ou mais, até onde um usuário é capaz de chegar para saciar a abstinência da droga? Praticamente todos os dias os cidadãos acompanham notícias que protagonizam o tráfico de drogas, o uso de drogas, sempre marginalizado e, ao mesmo tempo, tão presente na sociedade atual. Tema constante, mas que ficou de lado nas últimas campanhas de conscientização e orientação à comunidade brasileira.  

Para se ter uma noção da importância deste tema, apenas na América do Sul são 6,7 milhões de usuários de drogas, segundo levantamento do UNODOC*. De acordo com o relatório, o Brasil é o maior mercado de derivados de ópio (como a heroína) na América do Sul. Há cerca de 600 mil pessoas que consomem a droga no país, número quatro vezes menor do que o de usuários de crack, que ultrapassa os 2 milhões de dependentes. Ainda segundo o órgão das Nações Unidas, o Brasil registra cerca de 200 mil mortes anuais em decorrência do uso de entorpecentes.  

Declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, a dependência química ainda é mal compreendida pela sociedade, fato este que dificulta o tratamento e, mais ainda, a prevenção, afirmam especialistas na área. "Existe muito preconceito. As pessoas acreditam que a dependência química é um deficit moral, mas é uma doença. Se as pessoas não têm conhecimento sobre o que é essa doença, dificilmente buscarão o que tem que ser buscado naquele momento. Dificilmente receberão o tratamento adequado", diz Raquel Parrelli, psicóloga e diretora da clínica Estância Terapêutica, originada em São Carlos e especializada no tratamento de dependentes químicos.  

Tratamento   

Clínica fica em meio ao campo entre São Carlos e Analândia - Foto: Amanda Rocha/ ACidade ON São Carlos
 
Em um local afastado, com cheiro de terra molhada, por onde se chega através de estrada de chão batido margeada por plantações e mais plantações de eucaliptos, pés de laranja, cana-de-açúcar e vegetação verde-viva que escala morros, desce e corre ao lado de riachos, norteada por placas verdes quase camufladas estão os chalés de uma clínica de reabilitação, casas que parecem as de uma fazenda recém-construída e escondida onde mora a tranquilidade. Na clínica, são quase 100 pacientes, dependentes químicos em busca de tratamento e daquela tranquilidade característica do campo.  

Pelo gramado do local, ao menos três cães deitados de barriga para cima aproveitam uma frestinha de sol que surge em meio as nuvens de chuva a dissiparem sobre o morro. Próximo da área de lazer, com piscina e tudo o mais, alguns homens conversam descontraidamente, como qualquer grupo de amigos bem entrosado. É um local comum, normal e tão humano quanto qualquer confraternização de camaradas. Um refúgio para os dependentes químicos que enfrentam justamente o contrário desta situação no dia a dia fora da clínica.  

Encarada com maus olhos pela sociedade, a dependência é uma doença que vive nas sombras e quando revelada causa estranheza aos que convivem com o usuário, bem como falta a compreensão necessária para o tratamento adequado. "Dificilmente um paciente ou a família busca ajuda no início da dependência, e esse é o grande problema. As pessoas vão deixando passar, acham que é uma fase e que vai passar rápido. A dependência química é uma doença progressiva, ela começa de pouquinho, vai aumentando e as pessoas vão tolerando. Chega num ponto em que algo tem que ser feito", ressalta Raquel Parrelli.  

A diretora da clínica também reforça a existência de três modelos usuais de internação: a internação voluntária, quando o paciente chega de livre e espontânea vontade; a internação involuntária, quando chega a pedido da família ou de um médico; e a internação compulsória, por decreto judicial. "A maioria dos pacientes chega de forma involuntária, por que o paciente não chega com muito discernimento de entender que precisa do tratamento. Ele ainda está na compulsão pelo uso, então tem a dificuldade de ter aquela força de dizer eu vou me tratar. Na maioria das vezes chega um ponto em que a família tem que intervir", explicou a diretora.    

Diretora da clínica explica detalhes sobre o tratamento de dependentes - Foto: Amanda Rocha/ ACidade ON São Carlos

Criada em São Carlos, a clínica foi para a área rural entre a vizinha Analândia há quase um ano e meio. O tratamento dos dependentes que procuram se livrar do uso leva, no mínimo, seis meses e precisa do apoio de uma equipe multidisciplinar, com participação de médicos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e mais. "A dependência química não é só uma doença física, ela é uma doença emocional e comportamental, então o tratamento não só consiste em fazer uma desintoxicação, mas também tratar as crises de abstinência. O tratamento está, sobretudo, voltado à área emocional. Algo levou esse paciente a desenvolver a dependência química e, geralmente, esse algo está ligado à área emocional. O paciente geralmente não tem muita habilidade de lidar com a realidade, com a vida, de lidar com os problemas e de se relacionar. Ele acaba recorrendo ao uso de substâncias. E para uma coisa que gera prazer a nossa tendência é querer repetir, nesse repetir, ele acaba viciando", detalhou.  

A psicóloga ainda ressalta a dificuldade na recuperação, já que a doença é incurável, mas plenamente tratável. Segundo ela, o índice de recuperação dentro da clínica chega aos 80%, maior do que os quase 3% de recuperação em patamares nacionais. Raquel afirma que para o sucesso do tratamento, é necessário seguir à risca o controle da doença e evitar as recaídas.  

O Médico e o Monstro 

Pedro** tem 31 anos de idade e usou drogas por 6 deles, prioritariamente álcool e cocaína. De acordo com o rapaz, após chegar ao fundo do poço decidiu aceitar a ajuda da família e iniciar o tratamento junto à clínica. A dependência química começou aos poucos, como diversão aos finais de semana, mas ao longo do tempo se tornou incontrolável e ele passou a viver uma vida dupla.  

"A sociedade não sabe lidar com a dependência química e o próprio dependente esconde isso da sociedade. Eu tinha uma vida dupla. De um lado eu era um profissional bem-sucedido que tinha dinheiro, que tinha carro e que tinha namorada, mas à noite eu me escondia no quarto e fazia o uso da droga de minha preferência", disse.  

"É a história do médico e do monstro, só que chegou um momento em que o monstro assumiu, eu não conseguia mais ter uma vida produtiva em sociedade. A degradação, o desleixo, a desonestidade e a má vontade tomaram conta da minha vida."  
   
Pedro contradiz o senso comum de acreditar que usuários de drogas possuem sempre uma história de vida complicada e com vários problemas e frustrações. Formado em fisioterapia pela Universidade de São Paulo (USP), ele diz que sua infância contou com boa estrutura familiar. "O dependente químico tem sempre uma história. Minha vida foi sempre bem estruturada, sempre tive uma família bem estruturada. Estudei em ótimos colégios, consegui passar na Universidade de São Paulo, na área da saúde, fiz pós-graduação e durante a faculdade eu conheci as drogas, que vieram para preencher um vazio que eu sentia. Até durante as conquistas eu sentia que algo faltava, um vazio que nada preenchia, e quando eu comecei a usar as drogas eu sentia que aquilo era preenchido".  
 
 


Ele ainda relata como é a evolução da dependência. Com pesar no semblante, Pedro não tem dúvidas de que o uso de drogas transforma a pessoa e dá a ela a sensação de que o que mais importa é a saciedade do vício, de uma vontade que se torna visceral. "Quando o uso fica diário, você começa a ter atitudes que não condizem com seus valores. Eu comecei a deixar de trabalhar, comecei a deixar de ir no consultório, a errar diagnóstico, perder pacientes, eu atingi meu fundo de poço. O uso de drogas acabou com meu namoro, acabou com meu emprego, acabou com meu ambiente familiar. É muito triste como o consumo da droga acaba com tudo que amamos. De uma pessoa bem-sucedida na sociedade eu passei a ser mal visto, mas felizmente minha família sempre acreditou em mim. A clínica abriu minha mente para uma nova maneira de viver, mostrou que é possível ter uma vida plena e saudável sem o uso de drogas".  

Hoje, há quase seis meses internado na clínica, Pedro agradece a oportunidade que foi concedida e apoiada pelos próprios familiares. Ele não tem problema em comentar sobre a doença e afirma se sentir livre. Para concluir o papo naquele ambiente tranquilo do campo, Pedro deixa uma dica para os dependentes e que vale também para todos. "No início foi bom, a droga preenchia aquilo que eu não conseguia alcançar, mas durante a euforia começou a vir as crises de depressão e eu precisava usar cada vez mais para atingir aquela euforia e depois a depressão vinha cada vez mais forte. Quando eu vim internado o sentimento de derrota era visível, mas a internação foi a maior prova de amor que minha família pode me dar. A dica é: procure ajuda, porque sozinho nós não conseguimos. A doença química não adoece apenas o dependente, mas todas as pessoas ao redor. Eu enxergava a internação como o fundo do poço, mas o fundo do poço é a negação", conclui o paciente.  

Drogas Vs. Violência  

Como relatado no começo desta matéria, a inspiração em buscar informação sobre a dependência química surgiu muito por conta de afirmações como a do Renato do Carmo. Ele prestou depoimento à Polícia Civil de São Carlos e disse ter matado a própria esposa e sua enteada por ser usuário de drogas e estar sob o efeito de crack. Após a divulgação do crime, inclusive pelo próprio ACidade ON, nota-se que muitas pessoas atribuem às drogas a culpa por diversas mazelas de nossa sociedade, principalmente àquelas ligadas ao crime.     

 

Em conversa com a médica psiquiatra do Hospital Universitário e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Juliana de Almeida Prado tentamos compreender o funcionamento do próprio crack no organismo do usuário.  

"O crack é uma substância psicoativa. Ele é, na verdade uma mistura, um combinado de cocaína, amônia e bicarbonato de sódio na forma sólida. Ele terá solvente e psicoestimulante em sua composição, a função dele no corpo é ser mesmo um psicoestimulante. Como é uma droga que não é hidrossolúvel, precisa ser queimada e inalada. É também uma droga altamente lipofílica, ou seja, tem alta afinidade por gordura. Nosso cérebro é basicamente gordura, então facilmente penetra no cérebro e os efeitos são tanto cerebrais quanto físicos. No cérebro é psicoestimulante: a pessoa fica agitada, excitada, eufórica, tem insônia e sente disposição, muita energia, como um sentimento de poder. No corpo também dá taquicardia, palpitação, midríase. Tanto é que a vida é colocada em risco através desse efeito adrenérgico. A pessoa tem que ter uma reserva cardíaca grande o suficiente para dar conta dessa demanda", explicou.   



Juliana diz que na ligação do crack a crimes existe um grande equívoco. "As pessoas estão associando os usuários de crack à violência, assassinatos, mas isso é um equívoco porque, em termos epidemiológicos, o álcool está muito mais associado à criminalidade, por exemplo. De 10 a 15% da população tem problemas relacionados com o álcool, já em relação ao crack, a porcentagem é menor do que 1 %. O crack está associado com violência, mas em 60% dos casos os usuários são vítimas dessa violência".  

O dependente químico que topou conversar com nossa reportagem, Pedro, chegou a comentar sobre os efeitos da droga. "A adicção [dependência] deixa o usuário preso, isolado. O dependente químico, quando ele está na sua compulsão, ele faz coisas que quando está na sobriedade não faria. A droga faz com que seus valores fiquem de lado e que faça qualquer coisa para buscar o entorpecente, que vá a lugares que nunca iria em outras circunstâncias", afirma.  

Juliana ressaltou que o problema das drogas está atrelado a uma questão de vulnerabilidade social. "Já foi feito um estudo recente entre o Ministério da Justiça, a Secretaria Nacional Antidrogas e a Fiocruz, no qual foi realizado um levantamento em várias capitais do Brasil que revela que os usuários de drogas têm fatores que são cronologicamente anteriores ao início do consumo", a médica adiciona a esses fatores questões sociais, étnicas e de violência pregressa ao uso do entorpecente. Sobre os usuários em situações precárias, ela é categórica ao dizer que "ninguém está lá por que quer, o que eles [usuários] querem é um lugar para dormir, lugar para tomar banho, comida, emprego. Eles pedem dignidade".   

Médica conta sobre os efeitos do crack no organismo humano - Foto: Amanda Rocha / ACidade ON São Carlos


* UNODOC - United Nations Office on Drugs and Crime ou Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
** Pedro é o nome fictício atribuído ao entrevista a fim de preservar sua identidade.


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