A palavra e a criação

O poder inerente ao ato criativo seduz

| ACidadeON/Araraquara -

Imaginar e criar a própria realidade é uma artesania 
Para essa semana o time do Multipli_Cidade apresenta os olhares críticos e poéticos das mestres e cientistas sociais Tainá Veloso Justo e Giovanna Isis Castro Alves de Lima, ambas pesquisadoras do Laboratório de Política e Governo da UNESP - Araraquara, a respeito da importância da imaginação e do discurso para a conquista dos corações e das mentes. 

"Certa vez li (talvez num livro de antropologia) sobre uma ficção, uma hipótese, a história de um menino que vivia numa tribo há milhares de anos. Esse menino decidiu pregar uma peça nas demais pessoas e fingiu que fora perseguido por uma alcateia. Todos se compadeceram e ficaram apreensivos pelo grupo. O menino tornou a contar a mesma história até cair em descrédito. Um dia os lobos realmente o atacaram e ele morreu. Talvez este tenha sido o primeiro romancista. Por que a necessidade de inventar? Provavelmente ele vivia numa pequena comunidade sedentária que possuía códigos, ritos e uma linguagem. Partindo dessas bases, ele pode inventar outra realidade, algo que causasse espanto e atiçasse a imaginação alheia. O seu momento mesmo de criação o alegrava e divertia. "Posso mover aquela montanha e nomeá-la como quiser. Sou o rei, o valete e o peão". O poder inerente ao ato criativo seduz. Não somente o poder sobre o que se cria, mas sobre os espectadores, leitores, ouvintes também. O autor situa-se ao centro de uma ágora e detém a palavra, por conseguinte, a atenção dos demais. Ele pode induzi-los, convencê-los, dissuadi-los. Quem manipula com habilidade as palavras, faz corações e mentes. Basta se atentar às disputas pelo palanque e pelo discurso autorizado. Mas essa é uma outra história". Tainá Justo, cientista social.  

"Seu Miguel Vicente cuida de um museu particular com utensílios para a roça que preserva e apresenta a quem se interessar. Nomeou-lhe "Cantinho da Saudade". Cultiva, também, as letras. Breve foi seu período escolar. Aprendeu a contar a história do que experimentou e viveu, trabalhou desde muito jovem. As letras o fascinavam e passou seus dias a escrever causos e coletar histórias. Neste ano realizou o sonho de publicar um livro, intitulado "Memórias de um caipira". Essa história ilustra a incessante busca pela totalidade e amplitude, como escreveu Rosa Montero (2016), escritora e jornalista espanhola, que perdemos ao sermos expulsos do Éden, logo, condenados ao confinamento em nosso próprio eu. Criar é espiar o paraíso; é contemplar a baleia por inteiro; é entrar num estado alucinógeno delirante; é como estar apaixonado. O nexo entre a vida e a arte se faz presente na história de Seu Miguel. Cria formas, exprime sons e cores. Existe uma mensagem a ser passada: o poder da imaginação na cristalização da memória e na criação de novas possibilidades do viver. A arte, além de ser capaz de testemunhar uma época e de contar essa história, também se estabelece como um meio de elaborar e inventar parâmetros de sentido para o futuro. A reflexão e o encantamento que permeou a vida de Seu Miguel, hoje nos atinge e nos provoca: ainda há espaço para sonhos e caminhos no cotidiano da vida." Giovanna Isis Lima, cientista social.