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Paraisópolis-SP: reflexos da necropolítica de um Estado de exceção

A letra da música do Rappa Todo camburão tem um pouco de navio negreiro nos auxilia a pensar o episódio ocorrido neste final de semana de Paraisópolis

| ACidadeON/Araraquara

"Todo camburão tem um pouco de navio negreiro"
Para essa semana a equipe do Multipli_Cidade apresenta as reflexões dos membros do Conselho Municipal de Combate à Discriminação e ao Racismo (COMCEDIR): Claudemir Pereira, sociólogo e pesquisador do Laboratório de Política e Governo da UNESP-Araraquara, e de Rita de Cássia Ferreira, cientista social (UNESP) e psicopedagoga pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (FAMERP), acerca do episódio de Paraisópolis e suas implicações para a juventude negra. 

"A letra da música do Rappa 'Todo camburão tem um pouco de navio negreiro' nos auxilia a pensar o episódio ocorrido neste final de semana de Paraisópolis. Tal evento trouxe à tona as diversas facetas do racismo estrutural e da necropolítica do modelo vigente de capitalismo que, por suas características predatórias, tem esgotado diferentes formas de vida (as não-humanas como as dos nossos ecossistemas ou humanas como a dos habitantes das diversas localidades segregadas e excluídas).
O termo Paraisópolis longe de traduzir um paraíso idílico, como à primeira vista pode sugerir, expressa a luta diária pela terra, pela moradia, enfim, por condições dignas de existência. Nesse cenário, as festividades se tornam manifestações daquilo que não pode ocorrer em um paraíso. Longe dali, em clima quase paradisíaco, acontecem festivais universitários da classe média alta, como o Tusca. Neles, as pessoas de pele alva não são abordadas de forma ostensiva e violenta pela Polícia Militar em busca de drogas.
Mas, infelizmente, semelhante ação acontece sistematicamente nas periferias a exemplo de Paraisópolis. A pele que é considerada como um alvo para o sistema é o corpo preto periférico, um corpo que sempre foi vituperado. Outrora em seus matizes culturais da umbigada, da capoeira, do samba e, atualmente, pelo funk. Não é a guerra contra o tráfico, pois se assim o fosse, aviões oficiais seriam investigados seriamente. O que ocorre é que as expressões culturais da periferia incomodam por propor uma estética e uma linguagem irreverentes, logo a perseguição e o extermínio dos sujeitos dessas expressões passa a ser uma preocupação do Estado. Tais expressões dizem muito sobre a condição de exclusão da juventude periférica que não acessa, ou acessa com muita dificuldade, a cultura dita 'erudita'. Nesse sentido, o baile funk é uma forma de resistência, uma maneira de enfrentar o sistema de exclusão e de morte por intermédio de suas letras, seus corpos e seus sonhos. Rita de Cássia Ferreira, cientista social e psicopedagoga. 

"A morte é vista como um meio para a 'verdade', mas, podemos argumentar este pressuposto e estendê-lo no sentido de pensar na condição de quem ou para quem ocorre tal construção. Dependendo do viés ideológico e político, e da localidade, podemos erigir uma verdade, e dado as assimetrias da sociedade, esta será usada por aqueles que detêm maior poder sobre os corpos humanos e suas subjetividades, legitimando desta maneira a base normativa para ter o direito de matar. Vemos isto ocorrer diariamente, banalizando tal ocorrência para aqueles corpos que não são dispensadas honrarias, que os velórios não ocorrem em Câmaras ou Assembleias Legislativas. Tal aspecto consiste apenas em uma ponta do iceberg desta política de estado de exceção na produção fétida da morte.
A tragédia ocorrida no baile funk em Paraisópolis escancara a ação perversa da Polícia Militar com o propósito de destruir os corpos humanos periféricos. Retomando 'O Rappa' nas periferias, todas ações são vistas como suspeitas de criminalidade, uma conversa de um grupo de jovens se torna um motim, questiona-se a integridade, a honestidade das ações desta juventude, assim como outrora utilizaram a chibata para exterminar, atualmente utiliza-se o gás pimenta, as bombas de efeito moral. Esse acontecimento mórbido expôs uma realidade cruel: os dados estatísticos mostram que a maioria demográfica de nossa sociedade tem uma cor e ela é negra e uma condição econômica vulnerável, o que torna tal maioria o alvo perfeito de um projeto de genocídio. O preconceito e a intolerância, assentados no racismo estrutural, generalizam a existência humana e banalizam a vida, destacando sua condição de utilidade e rejeitando sua condição de dignidade humana. A morte exala seu humor ácido na verdade instituída pelo Estado e nas relações balizadas entre o legal e o ilegal. Ao estabelecer a sua verdade de manter a ordem e a segurança, o Estado legitima com suas ações truculentas o direito de matar os corpos humanos caricaturados pelo racismo. Assim, a vulgarização da vida não encontra um fim para além da dor e do sofrimento daqueles que sobreviveram e sobrevivem a necropolítica estatal que se expressa no cumprimento do 'dever'." Claudemir Pereira, sociólogo. 


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